Bailey
-Eu não tenho nada para conversar com você, Bailey- ela bateu pé e saiu de trás de Sina vestida.
A cena das duas não me pegou de surpresa, quer dizer, quando vim atrás da minha irmã no vestiário, já que sua aula de educação física tinha acabado a pouco, não imaginava ouvir Joalin contando para a alemã sobre o maior segredo da minha família, talvez por isso o beijo quente que presenciei tenha sido pouco chocante.
Tudo que eu menos esperava ouvir da boca da loira rebelde foi justamente a primeira coisa que escutei quando cheguei ao local, "Shivani é adotada". A frase me deixou estressado o suficiente para perder o juízo e a razão diante da Loukamaa, mas se eu fizesse isso, teria a vida da minha família exposta aos quatro ventos na manhã seguinte, o que era justamente o meu maior medo e o que eu precisava evitar.
-Acho pelo que anda sabendo da minha vida, temos sim muito o que conversar- disse firme, mas naquela altura, meus olhos com certeza vacilaram. Ela revirou os olhos com uma expressão insignificante, Sina se encolheu no canto, nitidamente desconfortável -Será que podemos conversar?- repeti, teria de fazer isso de qualquer modo, nem que contra sua vontade.
-Tenho aula- deu de ombros sem fazer esforços, respirei fundo buscando paciência.
-Tenho certeza que pode ir até minha casa depois da aula- insisti. De qualquer forma, não poderia tratar daquele assunto nos corredores da escola, onde qualquer um poderia ouvir.
-Está querendo t*****r comigo?- Joalin Loukamaa era imprevisível e completamente doida, podia afirmar com mais segurança que nunca. Nunca seria capaz de entender o porquê de tanta implicância, dela e de sua laia, com meus amigos.
-Nunca, Loukamaa. - afirmei firme, sabia que estava tentando me provocar- Será que pode me fazer este favor ou terei de contar ao diretor que anda vasculhando as fichas dos alunos?- Disse a primeira coisa que surgiu em minha mente, eu precisava abrir minha vida para a garota a minha frente, pelo menos o suficiente para fazê-la entender que não pode espalhar o que sabe.
-Tudo bem, May. Vamos ver o que tem para me dizer- ela riu debochada, o que me fez revirar os olhos- Mas vamos fazer isso agora, tenho planos para mais tarde- ela piscou para Sina que sorriu. A Deinert estava tão diferente desde que parou de andar conosco, o que me fazia questionar se essa sempre foi sua personalidade, se nós não acabamos cortando suas asas e contribuindo para que ela tivesse medo de ser quem verdadeiramente é.
-Eu não posso falar sobre isso na escola- disse olhando para os lados, parece que nesse lugar as paredes têm ouvidos- Preciso que vá até minha casa- repeti tentando fazê-la desistir da ideia de m***r as aulas da tarde.
-Vamos para sua casa então- deu de ombros mais uma vez- Agora- deixou claro, porque ela precisava ser tão pouco flexível?- A não ser que o assunto não seja tão importante assim.
-Tudo bem, vamos- respirei pesado mais uma vez, Joalin era um desafio, em todos os sentidos.
-Sininho- ela encarou a outra loira- Será que pode levar meus irmãos e Noah para casa? Hoje é meu dia de carona.
-E Sabina?- perguntou pela mexicana.
-Ela não veio para aula, deve aparecer mais tarde lá em casa para contar do novo namorado ou algo do tipo. Se quiser pode ficar por lá- ela disse sem se importar com minha presença, o que preciso confessar que admirava, eu e meus amigos nunca faríamos isso. Pigarreei para que ela lembrasse que deveríamos ir e a mesma me encarou dos pés a cabeça, tirando a mochila do armário em seguida- Ah, aproveite e fale para Noah que as roupas que ele deixou lá em casa estão lavadas e guardadas no meu closet, se ele não levar hoje vou pegar para mim- elas se beijaram, em sinal de despedida, enquanto eu encarava a cena esperando, patético.
-Vocês são um trisal ou algo do tipo?- perguntei assim que a loira me seguiu em direção ao estacionamento.
-Se for começar vou embora agora- ela parou de andar e eu levantei minhas mãos em sinal de rendimento- Eu e Noah somos amigos, assim como eu e Sina. Ela e Noah ficaram uma única vez e minhas amizades coloridas não te dizem respeito, nem sei porque estou te falando sobre minha vida.
-Tudo bem- dei de ombros- Uma hora irá acabar se apaixonando por um dos dois- disse obvio, retratando minhas próprias experiências passadas.
-Eu aposto que não- disse com tanta segurança que me forcei a acreditar. A forma como Joalin conseguia ser o centro das atenções de Noah e Sina, sem fazê-los terem ciúmes dela ou se apaixonarem era no mínimo estranho, o que me levava a crer que existiam limites bem estabelecidos, apesar de não serem nítidos para mim.
Eu não sabia se, ou porque, me importava. Sempre acreditei que ela e Urrea um dia se assumiriam e agora tudo era uma grande confusão para mim, Sina sabia que ela transava com Noah e vice-versa. Estranhamente eu tinha a nova sensação de que Joalin seria a primeira a deixar a situação de lado e quem sabe Noah e Sina não acabassem juntos.