RACISM

2345 Palavras
O professor liberou a turma faltando vinte minutos para o fim da aula, com a desculpa de que teria que sair mais cedo para fazer um exame, até que a segunda feira não estava tão r**m assim.  Olhei em volta da sala, meus amigos ou irmãos não faziam parte daquela turma, por isso, caminhei até o estacionamento e me joguei no banco do meu carro.  É, muita coisa havia mudado e a nossa escala de carona agora era algo super aleatório. Eu e Sabina iríamos no shopping e no salão de beleza após a aula, por isso vim com a minha rover e a trouxe junto, enquanto o resto de nós veio com o Urrea.  Fiquei mexendo no celular e aproveitando o silêncio por metade daquele tempo. Quando estava pronta para voltar para o refeitório e ser uma das primeiras na fila do almoço, a porta ao meu lado se abriu e, segundos depois, Bailey adentrou ao carro.  -Que susto- fui sincera, fechando o vidro para ninguém nos ver.  -Desculpa, não queria te assustar- ele se aproximou de mim, colocando a mão no meu pescoço e me puxando para um selinho.  -Também foi liberado antes?  -Estava na mesma aula que você- ele deu de ombros- Você é boa em conselhos, não é? -Não sei, acho que sim- o encarei, que estranho.  -Eu estava conversando com Any e Shivani e... -Lá vem- o interrompi sem querer.  -Estávamos falando sobre minha ex, Ylona. Ela era uma garota legal, mas era um pouco revoltada e eu entendia os motivos dela. Ela me mostrou um mundo diferente do que eu estava acostumado a viver, só que depois que esse mundo decepcionou todo mundo em minha volta, eu preferi esconder esse lado para conseguir fazer as duas coisas: viver e não decepcionar ninguém.  -Posso ser sincera?  -Deve, isso está me perturbando de uma maneira enlouquecedora, ultimamente.  -A maior prova de amor que pode ser dada a alguém, é deixar essa pessoa se sentir confortável com seu próprio ser. Deixar ela ser quem é, não quem nós queremos que ela seja.  -Mas... -Eu sei, Ylona não te fez ser outra pessoa, você decidiu se tornar alguém diferente para se encaixar em quem ela é. E isso foi falta de amor, não dela por você ou de você por ela, mas foi falta de amor próprio. Você era novo, inexperiente e achou que deveria fazer isso e que assim iria agradá-la, mas você já parou para pensar que continua fazendo exatamente a mesma coisa? Quando você esconde uma metade sua, de seus pais e amigos, você continua fazendo a mesma coisa, você transformou isso em um ciclo vicioso.  -Eu tenho medo de errar, de decepcionar.  -Bailey, você vai errar e decepcionar de qualquer jeito. Essa é a vida, você pode ser a pessoa mais certinha ou a mais p***a louca do mundo, você vai continuar errando e decepcionando de um jeito ou de outro. Não há para onde correr, mas o que você está fazendo depois da decepção? Essa deveria ser a pergunta. Quando você decepcionou alguém pela primeira vez, depois de Ylona, você escolheu levar essa vida, você escolheu esconder a farra, esconder a maconha, o s**o sem compromisso ou qualquer outra coisa que todo mundo faz, por medo de alguém relacionar seus atos do passado com os de agora, por medo de alguém se decepcionar de novo. Bailey, nós crescemos, as vezes uma coisa que você fez com 12, 13, 14, 15 anos era um absurdo naquela época e hoje não é mais, porque você cresceu.  -Mas o que eu faço? O que eu faço para sair do buraco que eu me enfiei?  -Se tem uma coisa que você me ensinou, é que ninguém é cem por cento verdadeiro, que ninguém conta tudo. O que eu quero dizer com isso? Você não precisa virar para seus pais e amigos, reunir eles em uma sala e falar "Olha só, eu fumo maconha pelo menos uma vez por semana, eu vou em festas que não deveria ir, aqui está uma lista de todas as leis que eu já desrespeitei nos últimos anos, eu amo dirigir acima da velocidade permitida" e sei lá... Qualquer outra coisa, "eu e Joalin estamos transando, eu não deixo metade de vocês entrarem no meu quarto porque não são meus amigos de verdade", você só precisa ter consciência de que não está fazendo nada de errado, ou seja, não precisa inventar mentiras, se esconder quando fizer tal coisa ou fugir de alguns assuntos. Você não deve ter medo de decepcionar alguém apenas por ser você mesmo, por fazer o que gosta, apenas por saber ser um excelente aluno e mesmo assim curtir uma boa festa.  -Você está certa- olhei para o lado, vendo ele enxugar uma lágrima com força- Eu vou apenas ser eu mesmo e, se alguém se afastar de mim por causa disso, é porque nunca gostou de mim de verdade.  -Exatamente. Os amigos de verdade vão estar contigo em seus melhores e piores momentos, quando o mundo tiver desabando e em suas maiores conquistar, quando eles concordarem e descordarem de sua opinião e atos. Se afastar de um e outro falso que te cerca é livramento.  -Eu acho- sua voz falhou- Eu acho melhor a gente ir para o refeitório, né?- questionou, olhando para o relógio em seu pulso.  -É, já está na hora- abri a porta do carro, mas ele me puxou pelo braço antes deu sair.  -Obrigado- disse, me abraçando.  -Tudo bem- sorri fraco. Ele desceu do veículo ao mesmo tempo que eu e meia dúzia de alunos nos olharam confusos, ignorei aquilo, trancando-o e seguindo ao lado do garoto para dentro, um pouco afastada.  Chegamos no refeitório e caminhamos até o centro do mesmo, onde as mesas de nossos respectivos grupos estavam localizadas. Passei pelo grupinho popular e, enquanto Bailey se sentava entre Hina e Heyoon, deixei um beijo na cabeça de Shivani e fui até meus amigos.  Olhei em volta, o silêncio era nítido e a escola inteira nos encarava.  -Peguei sua comida- Noah empurrou a bandeja na minha direção.  -Anjo- joguei um beijo em sua direção.  -Estava com o May?- meu irmão questionou.  -Sim, ele veio me pedir uns conselhos- falei sincera. -Não rolou nem um beijinho?- Sofya provocou.  -Lógico que não, está me estranhando?  -Ela ficou vermelha ou é impressão?- Sabina riu.  -Olha Jojo, só vamos te deixar em paz depois que você der uns pegas no Bailey- Sina também falou.  -Vocês são todos surtados!  -Ou é você que anda se fazendo de inocente- Josh rebateu. Revirei os olhos e tratei de puxar outro assunto, imediatamente.  -Vou passar na biblioteca antes da aula- a alemã foi interrompida por Nour, a garota da festa da última semana. Ela parou entre a mesa dos populares e a nossa, tentando chamar atenção dos dois grupos.  -Tem uma garota nova e está a maior confusão no banheiro feminino, estão implicando e ameaçando bater nela e enfiar a cabeça dela na privada- ela disse ofegante, colocando a mão no peito- Vocês precisam ajudar a coitada- respirou fundo.  Me levantei da cadeira imediatamente, meus amigos fizeram o mesmo. Encarei a mesa da nossa frente, onde todos continuavam sentados e se entreolhando, Shivani e Savannah se levantarem e se juntaram a nós.  Parei minha visão em cima de Bailey, levantei as sobrancelhas e o medi:  -Se eu fosse você, começava por: não ficar parado assistindo injustiças- minha voz saiu mais ameaçadora do que eu pensei. Alguns de seus amigos me olharam estranho, como se eu fosse louca, enquanto isso, Shiv entrelaçou seu braço ao meu e nós saímos, andando rápido em direção ao banheiro.  -Será que é esse?- Savannah apontou para a porta, aquela escola era enorme, mas como estávamos em horário de almoço, minhas apostas seriam nas cabines mais próximas ao refeitório.  -É isso que vamos descobrir descobrir- Sabina abriu a porta e eu entrei na sua frente.  -Me entendeu direitinho ou quer que eu desenhe?- Ouvi uma voz azeda- Vou precisar enfiar sua cara na privada, garota? Olhe a sua cor, fale a minha língua, isso aqui é a América!  -QUE m***a ESTÁ ACONTECENDO AQUI?- gritei, quando vi o grupo das patricinhas em círculo, em volta da cabine de deficientes. -SAI- Sofya falou atrás de mim, abrindo espaço para a gente passar.  Visualizei uma menina abaixada, encolhida no canto, enquanto o grupo das falsas não só a intimidava, como ria dela. Minha vontade era de arrancar uma por uma dali, pelos cabelos.  Puxei a líder do bando em minha direção, seus olhos arregalaram quando ficou cara a cara comigo.  -Seu patriotismo me enoja. "América" é um continente, continente esse que foi explorado e invadido pelos europeus e ,olhando bem para a sua cara, você passa longe de nativa. Não estou vendo olhos puxados ou nenhum traço de ameríndio em ti- sorri debochada.  -Se enxerga, garota. Você está na mesma posição que eu- tentou me enfrentar.  -Ah mas eu não estou, não mesmo. Sabe porque? Primeiro que eu não nasci aqui, então sou tão imigrante quanto ela- apontei para a menina- Mas não sei se você tem inteligencia o suficiente para saber onde fica a Finlândia. Segundo que você não faz ideia do lugar onde eu cresci, você não faz ideia do que é ter um pai mexicano, descendente de povos pré-colombianos e que ainda assim é constantemente tratado como imigrante, refugiado, só por ter nascido do outro lado da fronteira. Então se estamos falando de "gringos", todos nós somos, querida. Sabe por que? Porque a população nativa desse continente foi dizimada por gente como você, como eu. Assim como outros milhões foram escravizados por pessoas exatamente como você, mas não sei se você frequenta as aulas de história para saber sobre isso, inclusive recomendo. Quantas vezes você não tentou fazer com que eu e meus amigos falássemos inglês, não é mesmo? Se não entender o que os outros falam te machuca tanto, posso te recomendar ótimos livros de espanhol. Agora se eu fosse você, sumia da minha frente e tinha vergonha do que você e suas amiguinhas estavam fazendo, racismo e xenofobia são crimes e você não faz ideia do autocontrole que estou tendo agora, porque a minha vontade é de dar na sua cara até te fazer sangrar.  -Talvez assim ela percebesse que o sangue que corre nas veias dela é exatamente como o nosso- ouvi alguém atrás de mim. Não consegui identificar, mas quando me virei para trás, percebi que quem fazia a minha escolta era Diarra, a dona da voz, Any e Lamar. Atrás deles, além de quem veio comigo, o resto dos populares se misturava.  -Vocês pensam que são quem, para me ameaçar?- ela continuou de nariz em pé.  -Garota, nós somos 16 testemunhas do que você estava fazendo. Todo mundo aqui viu você e sua laia ameaçando a menina, não se faça de vítima- ouvi a voz de Any.  -Se vocês são tão inúteis a esse ponto, saiam daqui logo e vão viver suas vidinhas medíocres longe de quem não tem nada a ver com isso- Lamar, dessa vez.  -Sabe, é lindo ver vocês se juntando- ela sorriu, extremamente debochada- E você, já transou com quantos deles? Por que com Sina, além de levar ela para cama você ainda conseguiu desvincular dos amigos.  Perdi o controle, quando vi, já tinha dado um t**a estalado na cara dela. Deixei a marca de meus dedos em seu rosto plastificado.  -Você, cala a boca- Shivani apontou o dedo na cara dela.  -Ah, esqueci que ela e Noah te trocaram e agora estão juntos- continuou provocando, como se não tivesse acabado de apanhar- Está dando para Bailey? Eu vi ele saindo do seu carro. Não duvido que já tenha ficado com seus próprios irmãos.  -Sua v***a, filha da p**a- ouvi a voz de Sofya. Tentei chegar em cima dela e tudo que consegui acertar foi mais um t**a, já que alguém me puxou para longe, pela cintura.  -Bailey, me solta- falei, quando o reconheci pelo cheiro.  -Joshua, eu vou dar na cara dela- ele também tentava segurar Sofya enquanto Noah fazia o mesmo com Sabina e Sina. Krystian também se matava para segurar Shivani e Savannah.  Lamar, Any e Diarra colocaram o grupo para correr, me livrei dos braços do filipino e andei até a garota encolhida no chão, que observava tudo com olhos assustados.  -Oi- sentei no chão em sua frente- Você está bem? Elas te machucaram?  -Não- ela se encolheu ainda mais.  -Ei, não precisa ter medo. Qual é seu nome?- segurei em sua mão.  -Mélanie. Eu- ela travou- Obrigada.  -Não foi nada. Ninguém vai mexer com você de novo, ok? Me desculpe por isso, eu prometo que nem todos nessa escola são assim. Na verdade o problema é aquele grupinho. Nós podemos ir na direção com você, para contar tudo o que aconteceu. Isso foi muito sério e elas precisam ser punidas, judicialmente inclusive.  -Eu- ela travou mais uma vez, como se não tivesse muito domínio do inglês. Relacionei isso à fala que escutei quando entrei no banheiro.  -Est-ce que tu parles français?- ouvi a voz de Diarra ao meu lado.  -Oui- a garota respondeu baixo.  -Podem ir, eu fico com ela e a levo na diretoria- a senegalesa informou para mim e todo o resto.  -Não se sinta sozinha, se alguém te fizer algo de r**m, pode falar para mim ou para qualquer pessoa que está aqui- apontei para os outros, atrás de nós- Ok?  -Ok, obrigada- ela agradeceu mais uma vez. -Se precisar de testemunha, fale com a gente- sussurrei para Diarra, que assentiu. Me virei para a novata, mais uma vez- Eu nunca vou sentir na pele o que você passou aqui agora, eu nunca vou saber o tamanho da sua dor, mas eu e os meus amigos estamos aqui para te ajudar no que a gente puder.  Soltei a mão de Mélanie e me levantei. Any e Lamar estavam logo atrás de nós, com expressões tristes, enquanto o resto dos meus amigos e dos de Bailey também se mantinham no banheiro, em situações não muito diferentes. 
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