Quando eu saí do carro de Noah, literalmente toda a escola parou para me olhar. Olhei para baixo para ver se tinha algo errado com minha roupa mas é claro que não tinha, calça jeans, camisa de banda, jaqueta de couro e botas pretas. Estava igual a todos os outros dias.
Simplesmente cagaram para Sabi, Josh e Sofya. Mas quando os olhares pararam no Urrea, que tinha saído do banco do motorista e parado do meu lado, eu finalmente entendi o que estava acontecendo.
-Duas opções- falei baixo para só meus amigos ouvirem- Ou Any e Sina brigaram e a história da festa vazou, ou conseguiram um dos nossos videozinhos.
Eu não me importava muito com a primeira opção, não era surpresa para ninguém que eu era bi, e mesmo sem ter o costume de ficar com garotas, ou garotos, do inferno que eu chamo de escola, conseguiram fazer dessa uma das fofocas mais populares dos grupinhos ridículos.
A segunda opção sim me preocupava. Ok, provavelmente todo mundo sabia que eu e Noah tinhamos uma amizade colorida, muitos achavam até mesmo que a gente namorava, tinha um relacionamento aberto ou sei lá. Mas eu não queria vídeos meus e dele vazando por aí em momentos bem íntimos (se é que me entendem).
-Que não sejam os vídeos- Noah olhou para o céu, esperando fielmente que fosse a primeira opção.
-A gente precisa dar um fim nesses vídeos- me posicionei pela primeira vez negativamente sobre o assunto
-Vou apagar tudo hoje- disse me deixando mais tranquila
-Ew, não acredito que você gravam- Sabina mexeu com as mãos de forma explícita e fingiu que ia vomitar
-Vai ser um longo dia- falei roubando o cigarro da boca do meu irmão, que pelo visto mais uma vez não estava nos bons dias. Estou começando a me preocupar com suas atitudes.
-Eu vou atrás de Sold e falo com vocês no almoço. Se precisarem de reforços mandem mensagem- Eu sorriu com o comentário da caçula, sabia que ela quis dizer que estava ali para uma possível briga. Mas antes que ela pudesse ir atrás do namorado, uma cena nos chamou atenção, fazendo-a não só ficar como segurar firme no meu pulso.
Sina marchava de forma tão rápida e enfurecida até nós que, com a ajuda do vento contra si, parecia que o macacão largo e florido iria arrebentar e voar para fora de seu corpo. Tentei segurar a risada com a cena e parece que eu não fui a única.
Ela não sabia como nos intimidar!
-O QUE VOCÊ- falou, ou melhor, gritou em minha direção, apontando o dedo que eu fiz questão de delicadamente baixar. A roda instantaneamente se formou em nossa volta e eu admito que só conseguia achar graça da ceninha patética.
-Não levante a voz nem a mão pra falar comigo, querida- falei irônica, tirando uma expressão mortal de seu rosto
-VOCÊ- ela continuou gritando e eu a olhei com cara f**a, fazendo ela abaixar um pouco o tom- Você não tinha o direito de contar aquilo pra Any
-Por que não? Ela estava na minha casa, achei que podia falar abertamente de coisas que eu fiz. Concorda comigo, Noah? Acho que você também fez algo
-É claro- ele sorriu sarcástico
-Mas
-Sua amiguinha brasileira é homofóbica, Sina?- perguntei com um sorriso no rosto
-É lógico que não- pareceu ofendida- Mas vocês invadiram a minha privacidade, a minha i********e
-Tem certeza? Porque eu posso contar detalhes daquela noite agora mesmo, para toda escola ouvir.
-Você não- a interrompi
-Não duvide de mim
-Eu não duvido- ela encarou os próprios pés
-Se quiser um menage da próxima vez é só falar- pisquei para ela- Deveria se preocupar com quem te cerca, como a escola inteira ficou sabendo? Acho que sua amiguinha adora uma fofoca- recuei junto com meu grupo, a alemã ficou parada por um tempo, extremamente vermelha e acredito que tentando ouvir os comentários dos outros em sua volta.
É, era real. Toda escola sabia que Sina Deinert tinha transado comigo e com Noah na festa de aniversário de Any Gabrielly. E o pior, eu não fazia a mínima ideia de como essa história tinha se espalhado.
Como não fui eu, muito menos Noah, estava verdadeiramente começando a desconfiar da lealdade da brasileira.
-Aula gente- Josh disse olhando a hora no celular e praticamente nos empurrando para dentro do prédio.
-Posso falar com você?- segurei seu braço no corredor, deixando os outros 3 seguirem para suas diferentes aulas.
-Fala- ele deu de ombros e se encostou em seu armário
-O que tá acontecendo?- eu tinha certeza que tinha algo de errado
-Nada, tudo normal- fingiu
-Joshua, te conheço desde quando a gente era espermatozoide, não mente pra mim
-Não é nada Lin- deu de ombros mais uma vez, conseguindo me deixar um pouco irritada
-Gêmeos Loukamaa, pra sala- um inspetor falou do fim do corredor. Revirei os olhos.
-Depois vamos conversar e é melhor você me contar o que tá acontecendo- ele apenas assentiu e passou um braço por cima dos meus ombros, caminhando comigo até a sala.
Passei todos os tempos de aula pensando. A hora do almoço parecia não chegar nunca e eu realmente queria saber como a história da festa vazou para todo mundo.
Eu não era amiga de Sina, muito menos queria defende-la, mas se foi realmente Any, que se diz sua amiga, que vazou tudo aquilo, eu havia acabado de ficar com ainda mais ódio daquela garota. Sem falar que seria apenas mais uma prova de que eles não são amigos de verdade.
-Finalmente- me joguei na cadeira do refeitório depois de pegar minha comida e belisquei minhas batatas
-Olha lá- Sofya apontou para Sina, ela estava sentada sozinha em uma mesa,cabisbaixa e tinha os olhos vermelhos. Enquanto isso seus amigos estavam em uma mesa próxima ao centro do refeitório, falavam baixo e hora ou outra encaravam a alemã.
-O quão ridículos e falsos são os amigos dela?- perguntei um pouco revoltada
-Ela também não é nenhuma santa- Sabina disse
-Acho que o problema foi ela ter escondido, não o que fez ou deixou de fazer- Noah constatou
-Talvez- Josh, poucas palavras. O que estava acontecendo com esse garoto?
-Ou será que é porque ela se misturou com nosso grupo? Eles são cães de raça- Sofya disse, rindo logo depois e nos levando juntos.
-Acho que vou falar com ela- disse, quase me arrependendo do que tinha acabado de ouvir da minha própria boca
-Joalin Loukamaa com compaixão? Isso é verdade ou estou sonhando?- Sabina disse rindo e eu dei língua para ela
-Vamos ver se ela sabe aproveitar bem as oportunidades que a vida pode dar- disse engolindo minha comida o mais rápido possível. Me levantei sob os olhares incrédulos de meus amigos e curiosos do resto do refeitório. Me joguei no banco na frente de Sina e a loira levantou a cabeça, me olhando assustada.
-Eu- ela nem sabia o que dizer, tadinha. Eu estava rindo mentalmente.
-Porque não está sentada com seus amiguinhos?
-Não quero falar sobre isso- ela respondeu encarando o prato de comida
-Acho melhor me contar, quem sabe não posso ajudar- sorri na maior ironia possível. Ela revirou os olhos e bufou.
-Acham que não podia ter escondido o que fiz aquela noite, muito menos minha sexualidade deles- ela rapidamente limpou uma lágrima, antes que pudesse esconder- Eu não deveria ter
-Vem comigo- disse me levantando e a interrompendo. Ela continuou estática- Se eu fosse você aproveitava minha alma caridosa porque isso é bem raro.- estendi minha mão para ela que exitou um pouco mas acabou pegando-a.
Ok, agora sim o refeitório inteiro parou para nos olhar. Praticamente arrastei a loira até o banheiro mais próximo, ela não estava entendendo nada e para falar a verdade, nem eu. Em que momento da minha vida eu virei a garota solidária que odeia ver os outros sozinhos? Talvez fosse apenas meu cérebro armando uma vingança sem que eu mesma pudesse perceber.
-O que seus "amigos" te falaram?- perguntei fazendo aspas com as mãos depois de soltá-la e conferir se não tinha ninguém dentro de alguma cabine- Quero saber exatamente o que eles falaram.
-Eu não sei porque estou te dando confiança, garota- ela esbravejou
-Porque no fundo você gosta de mim. Agora fala!
-Disseram que eu era falsa e se fosse amiga deles de verdade iria procurar apoio neles para me assumir, não iria sair transando com qualquer uma
-Qualquer uma- ri revirando os olhos
-Disseram que eu não podia ter feito isso no aniversário da Any e que foi um erro me misturar com vocês. Ainda mais tendo feito o que fiz com você e Noah, ainda por cima no mesmo dia.
-Só faltaram te chamar de v***a- revirei os olhos mais uma vez
-E por que agora você se importa? Ou finge que se importa?
-Porque eu sempre soube que seu grupinho de amigos metidos eram um bando de falsos. Não percebem como eles te abandonaram no momento mais difícil? Te deixaram sozinha bem agora que a escola inteira tá falando m*l de você. Nem sua irmã tá do seu lado.
-Isso é culpa minha- ela derramou algumas lágrimas discretas e eu quase fiquei com pena de como ela era vulnerável e dependente deles- Eu não deveria ter feito isso. E minha irmã, ela não tem nada a ver com isso, não quero destruir a amizade dela com Hina e Shivani misturando ela nessa situação.
-Porque não deveria ter feito isso?- virei seu tronco para o espelho e me apoiei em seus ombros, olhando em seus olhos pelo reflexo- O que você fez de errado? O erro foi ter uma vida s****l e ser dona dela? O erro foi não se assumir para seus amigos porque provavelmente não se sente confortável o suficiente para isso, ou porque eles nunca te apoiaram o bastante? Porque eu posso ter todos os defeitos do mundo mas eu sei ser amiga e te digo, isso não é amizade.
-Você tem razão- ela disse baixo, tentando controlar as lágrimas. Até parece que eu não estava vendo Sina Deinert chorar bem na minha frente.
-A partir de agora você anda com a gente- a virei para mim e vi seus olhos claros se assustarem- Você não tem outra escolha, querida. Esse é seu plano de vingança- apontei para ela e sorri- Quero você amanhã na porta da minha casa, vamos chegar juntas- lhe dei um selinho provocativo e saí do banheiro antes que ela pudesse negar o plano que não só inventei e a obriguei a participar, como a nomeei líder.
Se bem que eu sempre era a líder.