-Acho que finalizamos- Fernando deu uma colherada em sua sobremesa. Depois de um longo tempo onde o silêncio permaneceu entre nós e apenas prestamos atenção na conversa dos adultos sobre as empresas e o acordo, parecia ser a hora da falação informal, o que naquela altura me assustava e muito.
-Sina, está sumida. Sua irmã foi lá em casa essa semana, achei que iria junto- Vanessa sorriu para a alemã. Estranhamente eu tinha gostado bastante dos pais de Bailey, tinha pena deles pelo filho que tinham.
-Aconteceram algumas coisas- Sina sorriu sem graça e encarou Bailey e Shivani, sentados bem a nossa frente- Não estou em um bom momento com Savannah- apertei sua mão por baixo da mesa.
-Eu entendo, querida- deu um sorriso sincero como se realmente soubesse tudo o que estava acontecendo. Bailey riu irônico e eu revirei os olhos.
-Any descobriu algumas coisas, na verdade- ele se meteu e todos os adultos ficaram em silêncio, esperando uma explicação do que estava acontecendo- Ou melhor, contaram para ela- ele revezou seu olhar entre mim e Noah, apertei ainda mais a mão de Sina e olhei para o Urrea.
-Independente do que tenha acontecido, não deve perder uma amizade por besteiras, Bailey- Matt aconselhou
-Besteiras não, mentiras sim- Então o problema não era Sina não ser a garota certinha? O problema era mesmo ela ter escondido o que ela fez? Não era nítido que tinha medo da reação de seus "amigos"?
-Tenho certeza que também tem seus segredos- Shivani me encarou assustada. m***a, eu estava falando da maconha, não da adoção.
-Gostaria de perder amigos pelo que não conta para eles?- Sabina revirou os olhos encarando-o com seu maior olhar irônico. Eu sentia a pele da Deinert queimar, assim como suas bochechas, a cabeça baixa revelava que o assunto era extremamente incômodo.
-Amigos de verdade confiam uns nos outros- Shivani deu de ombros.
-Eu concordo, Shiv- ouvi a voz de Sofya pela primeira vez, carregada de ironia- Por isso tudo terminou desse jeito, amigos de verdade não precisam sentir medo ou vergonha de contar alguma coisa- eu sabia que a fala da minha irmã tinha sido um banho de água fria para eles.
Os pais pareciam confusos, todos. Já não estava na hora de um deles intervirem?
-Quer mesmo continuar com essa história, Bailey? Josh concorda comigo que- não consegui terminar de falar, meu irmão quase me matou com o olhar. Por isso ele estava quieto, o medo da história que eu descobrir surgir e sujar seu lado também.
-Joalin, não- Josh começou, a discussão mantinha o tom de voz baixo e civilizado.
-Chega, acabou- Bailey o cortou e se virou para Sina- Nós dois sabemos que você não quis voltar porque viu que eles são melhores que nós- deu de ombros engolindo a própria verdade- Eles são verdadeiros e fazem o que tem vontade, tudo que eu e seus antigos amigos nunca vamos conseguir ser- sua voz saiu grossa e rouca, d***a. A alemã levantou da mesa logo em seguida, com a mão nos olhos tentando esconder o choro.
-Vocês têm muito o que aprender sobre amizade, confiança e lealdade, Bailey- sorri falsamente e me levantei, deixando o guardanapo de tecido sobre a cadeira e indo atrás de Sina- Hey- abri a porta do lavabo e a vi sentada na pia, enxugando as lágrimas e balançando os próprios pés.
-O que mais dói é que é verdade Joalin- ela respirou fundo e passou a mão nos cabelos- Eu perdi anos da minha vida com pessoas que não eram meus amigos de verdade. A minha irmã m*l olha na minha cara, a minha irmã. Eu, eu- ela se embolou nas palavras- Não sei o que seria de mim se vocês não tivessem me acolhido e
-Shii- pedi silêncio- Está tudo bem agora, você tem amigos de verdade- a abracei e deixei que ela chorasse em meus ombros por alguns minutos- Está tudo bem- repeti e acariciei seus cabelos. Eu podia ser a pessoa mais doce do mundo as vezes, mas poucas pessoas conheciam esse lado, somente as que eu realmente me importava. Me afastei dela o suficiente para enxugar suas lágrimas.
-Eu não esperava por isso- ela enxugou o choro
-Por isso o que?- não entendi
-Que você fosse assim, na verdade todos vocês- ela sorriu e p***a, como seu sorriso era lindo.
-É nosso segredinho- pisquei
-Gosto disso
-Eu também- lhe dei um selinho- Vamos voltar para a sala?- ela manhou antes de concordar e eu puxei pela mão até o lugar, aparentemente todos já tinham acabado de comer já que o local voltou a ficar cheio. Nos sentamos perto das mulheres e logo a conversa delas me chamou atenção.
-Fazemos questão Vanessa, eles precisam se resolver- Ale argumentou
-Vai ser ótimo para eles acabar com essa competição- Wendy também deu sua opinião, claramente estavam tentando convencer a senhora May de deixar os filhos passarem a noite por aqui. Para minha infelicidade minha mãe era líder da operação.
-Tudo bem, vamos ver se da certo dessa vez- ela sorriu- Acho que já está na hora de irmos- ela olhou as horas no celular- São quase meia noite- é, talvez a hora tenha passado rápido demais. Vi a filipina chamar o marido e avisar que deveriam voltar para casa, Fernando, Ale, Wendy e Marco também começaram a se mobilizar.
Todos se despediam e diziam que teriam próximas vezes, o que do fundo do meu coração, me dava medo. Não mais do que saber que os herdeiros May passariam a noite sob o mesmo teto que eu, Bailey poderia tentar me m***r durante a madrugada ou algo do tipo, Deus, era melhor fugirmos para um hotel.
-Tchau querida, adorei te conhecer melhor.- Vanessa se aproximou de mim e me abraçou- É autêntica e me faz lembrar como eu era com sua idade, me desculpe pela cabeça fechada do meu filho e te espero na minha casa para um café.
-Obrigada- agradeci sincera- Prometo aparecer por lá qualquer dia- seria legal, imagine a cara de Bailey? Seria impagável- Pedirei seu número para minha mãe e marcamos- sorri, adoraria ser amiga de Vanessa May.
Meus pais trataram de levar todos os adultos até a porta enquanto nós todos apenas nos encaramos na sala de estar. Assim que minha mãe colocou os pés no cômodo novamente, sussurrou ao meu ouvido.
-Eu percebi a tensão s****l entre vocês.
-Vocês quem?- a encarei confusa
-Sabe de quem estou falando, você e Bailey- levantei as sobrancelhas, o que estava acontecendo com a minha família esta noite?
-O que? Mãe você tá ficando doida- ela sorriu e negou em seguida
-Conheço minha prole, Joalin- disse ao tom de voz normal o suficiente para que todos ouvissem- Por que não leva seus amigos até os quartos para que se acomodem e tenham uma boa noite de sono?- piscou antes de puxar meu pai até a cozinha- Boa noite crianças.
Todos responderam em uníssono e meus irmãos me encararam estranho, tudo realmente estava parecendo um pesadelo.
-Uhm, eu e Sold vamos assistir um filme antes de subir- Sofya deu de ombros se acomodando na frente da tv com o namorado
-Então vamos subir, sinto que teremos uma longa noite- ouvi a risada sarcástica de Bailey assim que coloquei meus pés no primeiro degrau.
-Boa noite- Josh beijou minha testa quando chegamos no topo da escada e abriu a porta do seu quarto, entrando no mesmo seguido de Sabina.
-Quarto de Sofya- apontei para a porta ao lado da de Josh, sinalizando para os May- Quarto dos meus pais- a porta de frente no final do corredor- Esse é o meu- de frente para o de Josh- De hospedes- de frente para o de Sofya e ao lado do meu. Um fio de piedade correu meu corpo ao olhar o vestido de Shivani, parecia bem desconfortável- Shivani, quer uma roupa emprestada para dormir?- todos em volta me encararam surpresos, dei de ombros e a garota fez que sim envergonhada.
Abri a porta do meu quarto e vi os olhos de Bailey crescendo em direção ao mesmo, procurei algum pijama no closet e quando voltei, Sina e Noah estavam sentados na ponta da minha cama king enquanto os outros dois estavam parados no batente da porta. Pouco me importava que Bailey teria que dormir com roupa social, se ele se incomodasse, que se virasse com um roupão do banheiro.
-Tem escova de dente e pasta no banheiro- disse entregando a muda de roupa nas mãos da indiana.
-Obrigada- ela sorriu e puxou o irmão pelo braço até o quarto ao lado.
Minha maior preocupação? Tinha conseguido lidar com Bailey de maneira mais fácil do que o esperado naquela noite, a ligeira sensação de que a missão não tinha acabado passou por minha mente.
Encarei Sina e Noah, nós três sabíamos muito bem o que ia acontecer quando fechasse a porta daquele quarto. Sem fugir ou temer meu destino, assim o fiz, trancando-a logo em seguida.