Portas Abertas

1619 Palavras
O dia amanheceu com cheiro de café fresco e malas prontas. Cedro do Abaeté parecia mais silenciosa naquela manhã, como se a cidade também sentisse a partida dos seus seis filhos mais sonhadores. Gisele, Lucas, Leonor, Cassio, Iva e Junior estavam de mochila nas costas e olhos brilhando. Iam juntos para Belo Horizonte prestar vestibular. Era a primeira vez que saíam da cidade sozinhos, e a ansiedade misturava-se com a empolgação. — Vocês têm certeza que não esqueceram nada? — Perguntou Dona Cida, mãe de Iva, ajeitando a gola da blusa da filha. — Só o medo. — Respondeu Iva, tentando parecer confiante. — E o juízo, Dona Cida. — Completou Junior, rindo. O ônibus chegou levantando poeira, e os pais se despediram com abraços apertados, olhos marejados e palavras de incentivo. Dentro do ônibus, os seis se sentaram juntos, ocupando os últimos bancos. Gisele olhava pela janela, segurando a mão de Lucas. — Parece que a gente tá deixando uma parte da gente pra trás. — Disse ela, com a voz baixa. — A gente tá levando Cedro com a gente, para onde formos. — Respondeu ele. — Tá aqui, ó... — E apontou para o peito. Leonor, sentada à frente, tirava selfies com Cassio, que tentava esconder o nervosismo. — Se eu não passar na prova do vestibular, vou abrir uma barraquinha de cachorro-quente. — Disse ele. — E eu vou ser sua primeira cliente. — Respondeu Leonor, sorrindo. — Mas você vai passar, Cassio. A todos nós vamos, estudamos muito, pessoal. Iva lia um caderno de anotações, enquanto Junior dedilhava o violão baixinho. — Você tá estudando até no ônibus? — Perguntou ele, espantado. — Claro. Vai que cai uma pergunta sobre a Revolução Russa. Nunca se sabe. — Eu só sei que tô com fome. — Disse Junior. — Isso cai em toda a prova da vida. Horas depois, já na capital, os olhos se arregalaram diante dos prédios altos, do trânsito intenso e do ritmo apressado das pessoas. — Gente… isso aqui é outro mundo. — Disse Gisele, encantada e assustada ao mesmo tempo. — E a gente vai conquistar esse mundo. — Disse Lucas, com firmeza segurando a sua mão. Os seis foram direto para a pousada simples onde ficariam hospedados. À noite, sentaram-se no terraço, com vista para as luzes da cidade. — Amanhã é o grande dia. — Disse Leonor. — Tô com um frio na barriga que parece que comi borboletas. — A gente estudou, se preparou, e tá junto. Isso já é metade do caminho. — Disse Gisele. — E a outra metade? — Perguntou Iva. — Fé! — Respondeu Lucas. — E coragem. Na manhã seguinte, cada um seguiu para seu local de prova. Antes de se separarem, fizeram um círculo, deram as mãos e fecharam os olhos e pediram proteção a Deus. — Que a gente volte com boas notícias. — Disse Gisele. — E que, aconteça o que acontecer, a gente nunca se esqueça de quem somos. — Completou Cassio. — Os seis de Cedro. — Disse Junior. — Os seis do coração. — Sussurrou Leonor. E assim, com lápis apontados, identidade na mão e o coração cheio de esperança, eles entraram nos portões das universidades. Era o começo de uma nova etapa. E, embora não soubessem ainda, era também o início de mudanças que colocariam à prova tudo o que haviam construído juntos. Vozes, Luzes e Um Convite Inesperado... A noite em Belo Horizonte pulsava com energia. Depois de prestarem o vestibular, os seis amigos decidiram comemorar num bar badalado no bairro Savassi, famoso por seu karaokê animado e clima descontraído. O lugar estava cheio. Luzes coloridas piscavam no teto, e o som das risadas se misturava às vozes desafinadas no palco. Gisele, animada, puxou Lucas pela mão. — Vamos cantar! — Disse ela, com os olhos brilhando. — Você tem certeza? — Perguntou ele, rindo. — Eu sou péssimo com microfone. — Mas é ótimo com coragem, — Provocou ela. — E eu tô aqui com você. Subiram ao palco sob aplausos dos amigos. Escolheram uma música romântica e leve, daquelas que todo mundo conhece. Gisele cantava com doçura, e Lucas, mesmo tímido, acompanhava com um sorriso encantado. — “E quando você passa, eu sorrio sem querer…” — Cantaram juntos, em harmonia. A plateia vibrou. Leonor filmava tudo, Cassio assobiava, Iva e Junior dançavam entre as mesas. Era uma noite de celebração, de liberdade, de juventude. Ao fim da apresentação, Lucas e Gisele desceram do palco de mãos dadas, ainda rindo. Saíram do bar para tomar um ar, caminhando pela calçada iluminada. Foi então que um homem se aproximou. Elegante, cerca de cinquenta anos, cabelos grisalhos bem aparados, terno impecável e um olhar atento. Tinha o charme de quem sabia exatamente o que procurava. — Com licença. — Disse ele, com voz firme e educada. — Desculpem interromper, mas… você. — Apontou para Lucas — Já pensou em ser modelo? Lucas franziu a testa, surpreso. — Modelo? Moço capaz? — Sim. Você tem presença. Altura impressionante, 1,95, pele morena, olhos verdes… é raro encontrar alguém com esse perfil. Sou diretor de uma agência em São Paulo. Estava no bar por acaso, mas quando você subiu ao palco, não consegui tirar os olhos. Gisele apertou a mão de Lucas, desconfiada. — E o que exatamente você quer? — Um teste. Uma sessão de fotos. Sem compromisso. Mas com potencial. Seu namorado tem algo especial. — Disse ele, olhando para Lucas com convicção. Lucas olhou para Gisele, depois para o homem. — Eu… nunca pensei nisso. Sou só um cara do interior, e não levo jeito para ficar posando para foto. — Justamente. E é isso que o mundo quer agora. Autenticidade. Se quiser, aqui este é o meu cartão. Pense com calma. O homem entregou o cartão e afastou-se, deixando no ar uma mistura de fascínio e inquietação. Gisele olhou para Lucas, tentando decifrar a sua expressão. — Você tá pensando em aceitar? Lucas demorou a responder, mas algo dentro dele dizia que aquele cartão poderia ser o seu foguete para a lua. — Eu não sei. Foi tudo tão rápido…, mas parece uma chance. Uma daquelas que só aparecem uma vez. Gisele assentiu, tentando esconder o aperto no peito. — Só não esquece quem você é. E de onde veio. Lucas segurou a sua mão com força. — Nunca. Principalmente porque foi aqui que encontrei você. Mas o destino, silencioso e paciente, já começava a desenhar os primeiros traços da separação. Luzes, Câmeras e Primeiros Passos... O dia seguinte amanheceu com céu limpo e um calor suave típico da capital mineira. Lucas acordou com o cartão do produtor ainda sobre a mesa da pousada. Gisele, sentada ao lado dele, observava em silêncio. — Você vai mesmo? — Perguntou ela, com um misto de apoio e receio. — Só pra ver como é. Não custa tentar, né? — Só não se esquece de quem você é. — Disse ela, apertando a sua mão. Pouco depois, os seis amigos seguiram juntos pelas ruas movimentadas até o endereço do estúdio. Era um prédio moderno, com fachada espelhada e uma recepção elegante. O grupo entrou meio tímido, mas curioso. — Uau… isso aqui parece coisa de filme. — Disse Cassio, olhando os quadros de modelos famosos pendurados nas paredes. — E você vai ser o próximo. — Disse Leonor, dando um empurrãozinho em Lucas. O produtor, o mesmo homem da noite anterior, os recebeu com um sorriso profissional. — Que bom que veio, Lucas. E trouxe torcida. — Disse ele, olhando para os amigos. — Eles são parte de mim. — Respondeu Lucas. — Isso é ótimo. Vamos começar com algumas fotos simples. Camiseta branca, fundo neutro. Quero ver como você reage à câmera. Lucas entrou no camarim e voltou minutos depois com a roupa sugerida. O fotógrafo ajustava as luzes, enquanto o produtor observava atentamente. — Postura reta, olhar firme. Isso. — Dizia o fotógrafo. — Agora vira um pouco o rosto. Olha para a luz. Perfeito. Os amigos assistiam tudo de longe, entre risos e comentários. — Ele tá parecendo galã de novela! — Disse Iva. — Eu sempre soube que esse menino ia brilhar. — Brincou Junior. Gisele, quieta, observava cada movimento. Sentia orgulho, mas também uma pontada de insegurança. Era como ver Lucas se afastar, mesmo estando tão perto, algo no seu peito apertava, ela jamais seria egoísta, e claro que queria que o seu grande amor fosse alguem. Depois das fotos, o produtor pediu um teste de vídeo. Lucas foi colocado diante de uma câmera, com um texto simples para ler. — “Meu nome é Lucas Bueno. Tenho 18 anos. Sou de Cedro do Abaeté, Minas Gerais. E acredito que a beleza está, na verdade de quem somos.” O produtor sorriu. — Você tem carisma. Naturalidade. Isso não se ensina. Vamos conversar mais. Há oportunidades em São Paulo. Comerciais, campanhas… talvez até TV. Lucas olhou para Gisele, que tentava sorrir. — Eu preciso pensar. Mas obrigado pela chance. — Pense com carinho. O mundo está esperando por você. Ao saírem do estúdio, os amigos estavam eufóricos. — Você arrasou! — Disse Leonor. — Vai virar famoso! Eu vou ter um amigo que trabalha na Globo. — Completou Cassio. Lucas sorriu, mas seu olhar estava preso em Gisele. — E se eu for… você Gi vai comigo? Ela hesitou, depois respondeu: — Eu vou sempre torcer por você. Mas não sei se esse mundo tem espaço pra nós dois. O silêncio entre eles dizia mais do que qualquer palavra. E enquanto caminhavam pelas ruas da capital, o futuro começava a se desenhar com luzes, sombras e escolhas difíceis pela frente.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR