Enquanto desço as escadas rapidamente, termino de vestir a parte de cima do pijama e tomo cuidado para não cair de cara no chão. Parte de mim está morrendo de medo dele arrombar a porta e atacar todo mundo aqui dentro, mas sei que ele não vai fazer isso. Pelo menos... Acho que não.
A casa está extremamente silenciosa, e o som dos meus passos contra o piso de madeira fazem mais barulhos do que o necessário. Se eu soubesse onde Francisco guarda a sua espingarda, iria atrás dela (e mesmo que eu não saiba atirar, ela meteria um pouco de medo).
As minhas pantufas deixam os meus pés quentinhos, mas um calafrio sobe pela minha espinha mesmo assim.
Eu destranco a porta, me perguntando em silêncio o que diabos eu tô fazendo. Assim que saio na varanda de madeira, uma brisa fria me atinge em cheio, e eu não preciso olhar para a esquerda para saber que ele está exatamente onde estava antes, minutos atrás (quando eu está considerando o que fazer em relação à isso).
Enquanto pulo da varanda e caminho em direção à ele, realmente considero o meu estado de saúde mental. Ou eu sou absurdamente corajoso, ou absurdamente louco.
— Ei! É bom você parar de me seguir, viu! — Fico de frente para ele e aponto para o seu rosto lupino, percebendo agora o eu erro inumano de cálculo, porque havia esquecido o quão enorme ele é, e que pode me partir no meio com um simples tapa. O alfa selvagem continua no mesmo lugar, completamente imóvel, à não ser pelos olhos, que estão ficados em mim.
— Meu. — Ele diz, simplesmente. A voz rouca e animalesca faz os pelos da minha nuca se eriçarem. A noite o deixa ainda mais assustador, e os olhos parecem brilhar na escuridão.
— Hahaha. Eu não sou seu. — Respondo, dando um passo para trás e sentindo a brisa fria me atingir em cheio. Ele dá um passo para frente para diminuir a distância que eu acabei de abrir, e como seus passos são absurdamente maiores, ele acabou de colar o seu peitoral em mim.
— Meu, sim. — as mãos grandes dele agarram a minha cintura e me puxam para ele na velocidade da luz, antes que eu possa ter qualquer reação ou sequer cogite correr. Ele me joga sobre o ombro como se eu fosse um saco de batatas, me fazendo desligar pelas suas costas absurdamente largas.
— M-me põe no chão agora!! — Rosno, dando um soco no ombro dele, mas o desgraçado simplesmente começar à correr pela floresta como um lobo de verdade, usando os pés e as mãos.
— A-ah!!! — O medo de cair me faz engatar as pernas ao redor do seu tronco e agarrar o seu pelo com minhas mãos, deitado em cima dele com o rosto pressionado contra o seu pelo cinza sedoso. Ele é absurdamente quente, e mesmo que agora que ele esteja correndo em alta velocidade pela floresta fria e escura, o seu calor me envolve por completo e faz todo o frio se esvair.
Consigo sentir todo o seu corpo gigante se movendo sob mim, e uma onda de medo cruza o meu corpo quando percebo que ele está me levando para onde bem entende, e que eu já não faço ideia de em que parte da floresta estamos.
— PARA!! — rosno, mas assustado do que zangado. Ele faz uma curva brusca em meio as árvores e se eu não tivesse me segurado com força nele, teria voado uns bons dez metros de distância. Ele é veloz pra caramba, e eu percebo que ele também tem uma cauda longa e peluda, típica de um lobo.
Não sei onde estamos mesmo, e ficar com os olhos abertos só me deixa ainda mais apreensivo, então fecho-os com força e enterro o rosto entre as suas omoplatas largas e musculosas, longe do frio da noite.
Perco a noção do tempo, mas quando sinto-o parar bruscamente e levantar para ficar em duas pernas novamente, sei que já se passaram alguns minutos. Eu abro os olhos e olho ao redor, conseguindo ver sobre o ombro dele, e a altura me possibilita ter uma visão bem privilegiada.
Estamos no alto de um morro, tão inclinado que algumas partes são livres de vegetação, deixando as rochas visíveis. Percebo que não estamos exatamente no topo, e sim numa caverna próxima à ele, meio escondida entre as rochas enormes.
A imensidão de árvores imponentes se estendem por todas as direções, como se fosse um mar. Eu consigo ver o casarão daqui por causa das luzes da varanda, e a distância faz ele ser apenas um pontinho de luz no mar de árvores que tomam todo o horizonte da noite escura e fria.
— B-bom... Você vai me matar agora? — Desço das costas dele, embora saiba que ele provavelmente não vai me matar. Mas há coisas piores que a morte, certo?
— Meu. Ômega. — Ele grunhe de forma compassada, embora isso não diminua a aspereza da sua voz animalesca.
— Não sou. — Reviro os olhos e observo o interior da caverna, onde não há absolutamente nada, mas pelas pegadas e o desgaste na rocha, é aqui que ele tem ficado, por pelo menos... Algumas semanas. Um Lobisomem não conseguiria acender uma fogueira, mas o calor que emana dele o deixa livre do frio.
— meu. — Ele rosna, e isso me deixa um pouco frustado.
— Qual seu nome? — Cruzo os braços e dou alguns passos para dentro da caverna, porque tenho medo de altura, e caso caia daqui, são uns bons vinte metros até a parte menos íngreme do morro. O lobo selvagem se aproxima de mim e parece pensar um pouco na minha pergunta, farejando o ar.
— Não... — A sua frase morre no meio, embora ele pareça está fazendo esforço para lembrar.
— Você não lembra? Bom... Você foi um homem em algum momento do tempo. Anos atrás?? — chuto, abraçando o meu próprio corpo, porque agora o frio me atingiu em cheio, e a altitude só piora isso.
— Mês. — Ele me corrige, embora o seu tom mostre que ele não está à fim de conversa. Observo-o se aproximar de mim e caminho para trás rapidamente, até minhas costas estarem pressionadas na parede de pedra.
O lobisomem cola o seu corpo gigante em mim e fareja o meu pescoço, e assim que o seu focinho roça na minha pele sensível, eu solto um grunhido e exponho a garganta pra ele, em sinal de submissão. Ele parece gostar disso, porque seus olhos ficam mais nebulosos e escuros.
Eu odeio esse corpo de ômega. Odeio o fato de que ele funciona no automático assim.
— P-por favor, não... — gaguejo, embora ele não esteja fazendo nenhuma movimento estranho à não ser fazer como da outra vez, passar os feromônios para mim. Eu tento respirar pela boca, porque o cheiro dele é forte e denso demais, diferente de tudo que já senti antes, e mesmo que não esteja entorpecido como da outra vez, o meu corpo reage da mesma forma, e a calça hiper fina do pijama faz o favor de mostrar isso.
— Não vou machucar — Ele murmura, e o seu hálito quente provoca arrepios no meu pescoço. Observo-o passar os braços musculosos ao meu redor e me puxar ainda mais no seu peitoral coberto pela pelagem cinza.
O lobisomem me leva até um cantinho da caverna e senta de forma tranquila no canto, comigo aconchegado em cima dele, dentro da esfera de calor que o seu corpo proporciona.
Ele me trouxe aqui pra... Dormir com ele?