Depois daquela conversa, a casa ficou em silêncio.
Meu pai voltou para o sofá, mas já não parecia prestar atenção na televisão. Eu sabia que ele estava pensando no que eu tinha contado.
Eu também estava.
Fui para o quarto e me sentei na cama.
Passei a mão pelo cordão de ouro no meu pescoço.
Pesado.
Frio.
Aquilo parecia quase um símbolo agora.
Como se marcasse algo que eu não tinha mais controle.
Meu celular vibrou na cama.
Olhei a tela.
Barão.
Meu coração bateu mais rápido.
Atendi.
— Alô.
— Tá em casa?
A voz dele sempre era direta.
— Tô.
— Gostou das joias?
Olhei para o cordão no meu pescoço.
— Gostei.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Sexta-feira vai estar cheio.
— Eu imaginei.
— Gente de vários morros.
Engoli seco.
— Você vai ficar do meu lado.
Aquilo não soava como pergunta.
— Tá.
Mais silêncio.
Então ele falou novamente.
— Cristal.
— O quê?
— Não some.
Franzi a testa.
— Eu não sumi.
— Só tô avisando.
A ligação ficou muda por um segundo.
Depois ele desligou.
Fiquei olhando para o celular.
"Não some."
A frase ficou rodando na minha cabeça.
Levantei da cama e fui até a janela.
A noite já tinha caído no morro. Algumas motos subiam as ruas, música começava a tocar em algum lugar mais abaixo.
O baile de sexta-feira já estava no ar.
Todo mundo comentando.
Todo mundo esperando.
E pela primeira vez desde que tudo começou…
uma sensação estranha apareceu no meu peito.
Não era medo.
Era outra coisa.
Como se eu estivesse prestes a entrar em um mundo onde não existia mais volta.
E no centro dele…
estava Barão.
Sexta-feira chegou rápido demais.
O morro inteiro parecia diferente naquele dia.
Desde cedo dava para ouvir caminhões chegando, caixas sendo descarregadas, homens do movimento andando de um lado para o outro organizando tudo. O baile ia ser grande. Muito maior que os outros.
Eu estava no meu quarto olhando o vestido estendido sobre a cama.
O vestido preto que Jéssica tinha me feito comprar.
Justo.
Com a f***a na perna.
Elegante e perigoso ao mesmo tempo.
Ao lado dele estavam as joias.
O cordão grosso de ouro que Barão tinha escolhido para mim, as pulseiras, os brincos que brilhavam mesmo com a luz fraca do quarto.
Passei a mão pelo tecido do vestido.
Meu coração batia mais rápido.
Do lado de fora do quarto ouvi meu pai se movimentando na sala.
— Cristal?
— Oi, pai.
— Você já vai?
— Daqui a pouco.
Ele apareceu na porta do quarto e parou.
Ficou me olhando.
O olhar dele foi para o vestido.
Depois para as joias.
Depois para mim.
— Você está bonita.
Sorri de leve.
— Ainda nem me arrumei.
Ele assentiu devagar.
— Só toma cuidado.
— Eu vou tomar.
Esperei ele voltar para a sala antes de começar.
Coloquei o vestido devagar.
O tecido abraçou meu corpo de um jeito diferente. Quando olhei no espelho, quase não reconheci a garota que estava ali.
Passei a mão pelo cabelo.
Jéssica tinha clareado um pouco, e ele caía liso pelos meus ombros.
Peguei o cordão.
O ouro pesado deslizou entre meus dedos.
Coloquei no pescoço.
Depois os brincos.
As pulseiras.
Cada peça brilhava contra minha pele.
Quando terminei, fiquei alguns segundos me olhando no espelho.
Eu não parecia mais a menina quieta que passava os dias cuidando do pai em casa.
Eu parecia outra pessoa.
Alguém que pertencia àquele mundo de festas, ouro e poder.
Meu celular vibrou.
Mensagem.
Barão: Tô chegando.
Meu coração acelerou.
Respirei fundo.
Peguei a pequena bolsa na cama e caminhei até a sala.
Meu pai levantou os olhos quando me viu.
E ficou em silêncio por alguns segundos.
— Cristal…
Ele parecia emocionado.
— Você está linda.
Senti um aperto no peito.
— Obrigada, pai.
Foi quando ouvimos o barulho da moto parando na frente da casa.
O motor grave ecoou na rua.
Não precisava olhar pela janela para saber quem era.
Barão tinha chegado.