A cidade nunca parava.
E Abner também não.
Os dias voltaram ao ritmo de antes.
Ou pelo menos… era isso que ele queria acreditar.
A rotina retomou o controle com a mesma precisão de sempre, como se nada tivesse saído do lugar. Reuniões durante o dia, contratos sendo assinados, investidores sorrindo enquanto fingiam não saber de onde vinha parte daquele dinheiro que circulava com tanta facilidade entre as mãos dele.
Empresas crescendo.
Nomes sendo fortalecidos.
Luxo se expandindo.
As joalherias estavam indo bem, melhores do que o esperado. Peças exclusivas, clientes selecionados, valores que ultrapassavam qualquer noção comum de consumo. Mulheres ricas disputando atenção, homens tentando se aproximar, todos querendo um pedaço do que ele representava.
Status.
Poder.
Controle.
Nas construtoras, os projetos avançavam sem interrupção. Prédios subindo rápido demais para quem olhasse de fora, contratos fechados com uma eficiência quase suspeita, mas nunca questionada. Porque ninguém que tinha algo a perder… questionava.
Abner transitava entre esses ambientes como se tivesse nascido para aquilo.
E, de certa forma…
Tinha mesmo.
Ele não errava.
Não hesitava.
Não sentia.
E isso fazia dele exatamente o tipo de homem que sempre chegava no topo.
Mas o topo…
Não era onde ele realmente vivia.
A noite sempre chamava mais alto.
E era nela que ele voltava a ser quem realmente era.
O carro preto subiu o morro sem dificuldade.
Como sempre.
Respeito abria caminho.
Olhares se desviavam.
Corpos se afastavam.
Ali, ele não era empresário.
Não era dono de marca.
Não era nome em contrato.
Ali…
Ele era lei.
Quando desceu do carro, já sabia que tinha problema esperando.
Dois homens vieram ao encontro.
Um deles nervoso demais.
O outro tentando parecer firme.
— Ele tá lá dentro.
Abner não perguntou quem.
Não precisava.
Caminhou até a casa.
Pequena.
Mal iluminada.
Cheia de tensão.
Entrou.
E encontrou.
O homem estava sentado no chão.
As mãos tremendo.
O rosto suado.
Olhos perdidos.
Sabia.
Sabia exatamente o que ia acontecer.
— Eu juro que vou pagar…
A voz saiu falha.
Fraca.
Inútil.
Abner fechou a porta atrás de si.
O som seco ecoou.
Definitivo.
Caminhou devagar.
Sem pressa.
Sem emoção.
Parou na frente dele.
Olhou.
Sem expressão.
— Você já jurou antes.
Silêncio.
O homem começou a chorar.
Baixo.
Desesperado.
— Me dá mais um prazo…
Abner inclinou levemente a cabeça.
— Você já teve prazo.
A resposta veio simples.
Sem peso.
Sem alteração.
Mas com mais verdade do que qualquer grito.
O homem tentou se arrastar.
Se aproximar.
Erro.
O primeiro chute veio direto.
Forte.
O corpo bateu contra a parede.
O som seco se misturou ao gemido.
Abner não parou.
Não pensou.
Não sentiu.
Era só execução.
Movimento.
Consequência.
Cada golpe calculado.
Sem excesso.
Sem desperdício.
Quando parou…
O homem m*l respirava.
Mas ainda estava vivo.
Por pouco.
Abner se abaixou levemente.
Aproximando o rosto.
— Eu não repito aviso.
A voz baixa.
Calma.
Como se estivesse explicando algo simples.
Levantou.
Virou as costas.
— Some com isso.
Disse para os outros.
Como se estivesse falando de lixo.
E saiu.
Sem olhar para trás.
Nunca olhava.
Outra noite.
Outro cenário.
Mais limpo.
Mais silencioso.
Um galpão afastado.
Dessa vez não teve conversa.
Nem pedido.
Nem erro repetido.
O homem tentou correr.
Mas não foi rápido o suficiente.
O disparo ecoou.
Curto.
Preciso.
O corpo caiu.
Sem drama.
Sem cena.
Sem nada.
Abner guardou a arma.
Calmo.
Respirando normal.
E foi embora.
Como se nada tivesse acontecido.
Porque, para ele…
Nada tinha acontecido.
As festas continuavam.
Luxuosas.
Cheias.
Caras.
Gente bonita.
Gente vazia.
Sempre.
Abner circulava entre elas com facilidade.
Um copo na mão.
Olhar atento.
Presença dominante.
As mulheres vinham.
Sempre vinham.
Roupas caras.
Perfumes fortes.
Olhares calculados.
Sabiam quem ele era.
Ou pelo menos… o suficiente.
E queriam.
Não ele.
Mas o que ele representava.
E ele aceitava.
Quando queria.
Escolhia.
Levava.
Usava.
E descartava.
Sem culpa.
Sem apego.
Sem memória.
Os quartos mudavam.
Os corpos também.
Mas o final era sempre o mesmo.
Ele se levantando primeiro.
Se vestindo.
Indiferente.
E indo embora.
Sem olhar para trás.
Nunca olhava.
E, mesmo assim…
Mesmo com tudo isso…
Algo não estava igual.
Era pequeno.
Quase imperceptível.
Mas estava lá.
Em momentos aleatórios.
Sem aviso.
Sem lógica.
Ela aparecia.
Marcela.
O nome surgia.
O rosto.
O olhar.
A forma como enfrentou ele.
A forma como não abaixou a cabeça.
Aquilo não encaixava no padrão.
E exatamente por isso…
Ficava.
Em uma reunião.
Por um segundo.
Durante uma conversa.
Entre um gole e outro.
No meio de uma noite.
No meio de uma cobrança.
No meio de um silêncio.
Ela aparecia.
E ele cortava.
Na hora.
Sem permitir.
Sem aprofundar.
Sem aceitar.
Porque aquilo não era parte da vida dele.
Não podia ser.
Não fazia sentido.
E ele não construía nada que não fizesse sentido.
Mas uma coisa era fato.
Mesmo tentando ignorar.
Mesmo mantendo a rotina intacta.
Mesmo sendo o mesmo homem de sempre…
Abner já não estava exatamente no mesmo lugar.
Porque agora…
Existia uma variável.
Uma única.
Mas suficiente.
E quando algo novo entrava no mundo dele…
Nunca ficava pequeno por muito tempo.
Sempre crescia.
Sempre tomava espaço.
Sempre cobrava.
E ele sabia disso.
Mesmo sem admitir.
Mesmo sem aceitar.
Mesmo fingindo que não importava.
No fundo…
Ele já sentia.
Que aquilo ainda ia voltar.
E quando voltasse…
Não ia ser leve.
Nunca era.