Rendendo

1393 Palavras
A estrada industrial parecia um lugar esquecido pelo mundo naquela hora da madrugada. O asfalto escuro cortava o terreno vazio como uma cicatriz longa e silenciosa. De um lado, galpões abandonados. Do outro, terrenos baldios cobertos por mato alto que se movia devagar com o vento frio da noite. Os postes de luz eram poucos. Espalhados. Alguns funcionando, outros apagados. Isso criava trechos iluminados e outros mergulhados numa escuridão quase completa. Era exatamente o tipo de lugar que Alice tinha escolhido, ela havia olhado a região pelo mapa. Valente observava a estrada com atenção. Ele estava encostado no carro, os braços cruzados, olhando fixamente para a curva distante de onde os caminhões deveriam aparecer. O motor do carro já estava desligado. Tudo silencioso. Dioguinho estava no banco de trás. As pernas inquietas. Os dedos batendo no metal da arma apoiada sobre a coxa. Haviam mais dois homens com eles. Um no banco do passageiro. Outro encostado na porta do lado de fora. Mas havia outro carro posicionado lá, para que fosse mais eficaz o momento de fechar os caminhões. Os dois praticamente não falavam. Estavam ali por um motivo específico. Assim que Valente e Dioguinho assumissem os caminhões roubados, aqueles dois levariam os carros embora. Era simples. Rápido. E necessário. Todos estavam armados. Armas pesadas. Carregadores extras. Máscaras pretas dobradas no bolso. Tudo pronto. Mas o tempo estava passando devagar demais. Dioguinho resmungou: — Que horas são? Valente nem olhou para o relógio. — Uma e doze. — Era pra ter passado já. — A informação era entre meia-noite e duas. Dioguinho soltou um suspiro pesado. — Eu odeio esperar. Valente deu um meio sorriso. — Eu sei. O silêncio voltou. O vento passou pela estrada levantando pequenas folhas secas. Ao longe, um cachorro latiu. Depois tudo voltou a ficar quieto. No bunker, Alice estava sentada diante das telas. O escritório subterrâneo parecia outro mundo comparado àquela estrada escura. Luzes brancas fortes. Computadores ligados. Papéis espalhados pela mesa. Um relógio digital marcando cada segundo que passava. Ela estava com um fone no ouvido e um rádio ao lado da mão direita. Na tela principal, um mapa aberto mostrava a região industrial da cidade. Um ponto piscava lentamente onde Valente e os outros estavam. Ela observava tudo com atenção quase obsessiva. A caneta girava entre os dedos dela. Ela não parecia nervosa. Mas o olhar estava intenso. Concentrado. — Situação? — ela perguntou pelo rádio. A voz de Valente respondeu. — Tudo quieto. Ela anotou algo no caderno. — Fiquem atentos. — Sempre estamos. No carro, Dioguinho olhou para Valente. — Tu confia mesmo naquele moleque? Valente pensou por um segundo. — Confio que ele acredita no que falou. Senão ele sabe que vai rodar. — Isso não significa que seja verdade. Valente deu de ombros. — Vamos descobrir. O homem no banco do passageiro falou pela primeira vez. — Se for mentira… Valente respondeu sem olhar para ele. — Então a gente perde uma noite. E um moleque mentiroso a menos no mundo. Dioguinho balançou a cabeça. — Não é só isso. — É exposição. — Risco. — E tempo. Valente respondeu: — Às vezes é o preço de jogar. O silêncio voltou. Mais minutos passaram. Um. Dois. Cinco. O relógio parecia lento. Dioguinho já estava quase abrindo a porta do carro para dar outra volta quando Valente levantou a mão. — Espera. Todos ficaram imóveis. — O quê? — perguntou Dioguinho. Valente apontou para a curva distante. — Ali. No horizonte escuro da estrada, dois pequenos pontos de luz surgiram. Faróis. Distantes. Mas claramente se aproximando. Dioguinho imediatamente endireitou o corpo. — São eles? Valente observou por alguns segundos. Os faróis ficaram maiores. Depois apareceram dois. Um atrás do outro. Altos. Pesados. — Caminhões — disse Valente. Os dois homens do carro ficaram tensos, saíram correndo para o outro carro e se prepararam. — Finalmente. — Máscaras. A respiração ficou abafada dentro do tecido. Valente puxou a arma. Verificou o carregador. — Lembrem — ele disse — rápido. — Sem hesitação. Dioguinho saiu do carro. — Vamos nessa. No bunker, Alice ouviu o movimento pelo rádio. — Visual confirmado? A voz de Valente veio firme. — Dois caminhões se aproximando. Alice sentiu o coração bater um pouco mais forte. Mas a voz dela permaneceu calma. — Mantenham posição até o momento certo. Na estrada, os faróis já estavam próximos o suficiente para iluminar parte do asfalto. Valente entrou novamente no carro. Dioguinho entrou atrás. O motorista ligou o motor. O carro ao lado deles também ganhou vida. Os dois veículos estavam prontos. — Agora — disse Valente. Os dois carros avançaram. Entraram na estrada. Aceleraram. Os caminhões já estavam a poucos metros. Valente virou o volante de forma brusca. O carro atravessou na frente do primeiro caminhão. O outro veículo fez o mesmo com o segundo. Freios gritaram. Os caminhões pararam. Os quatro homens saltaram dos carros quase ao mesmo tempo. Armas erguidas. — PARADO! — gritou Valente. Os motoristas ficaram congelados dentro da cabine. Dioguinho correu para o lado do primeiro caminhão. Apontou a arma para o vidro. — Sai! O motorista levantou as mãos tremendo. — Calma, calma! Valente abriu a porta do outro caminhão com um puxão violento. — Desce. O homem saiu quase tropeçando. — Não atira! O outro motorista também já estava sendo puxado para fora. Os dois foram colocados de joelhos na beira da estrada. Tremendo. Confusos. — O que vocês querem? — um deles perguntou. Valente não respondeu. Ele apenas apontou para os caminhões. — Vai conferir! Dioguinho já estava indo para a parte de trás. O coração dele batia rápido. Era o momento da verdade. Se o moleque estivesse certo… Ali dentro estaria a matéria-prima que eles precisavam desesperadamente. Ele puxou a trava da porta traseira. O metal fez um estalo alto. As portas abriram lentamente. A luz fraca da estrada iluminou o interior do caminhão. Caixas. Empilhadas. Muitas caixas. Dioguinho subiu no compartimento. Abriu a primeira. Frascos. Caixinhas. Remédios. Ele franziu a testa. Abriu outra. Mais produtos farmacêuticos. Luvas médicas. Soro. Antibióticos. Nada. Ele abriu outra caixa. E outra. E outra. Sempre a mesma coisa. Produtos de farmácia. Produtos hospitalares. Nada de matéria-prima. Nada escondido. Nada disfarçado. Só carga legítima. O sangue dele gelou. — Valente! A voz saiu alta. Tensa. Valente virou imediatamente. — O que foi? Dioguinho pulou do caminhão. — Vem ver isso. Valente subiu rápido. Abriu uma caixa. Depois outra. O rosto dele endureceu. — Que porr4 é essa? Dioguinho chutou uma das caixas. — Produto de farmácia! Valente abriu mais uma. O mesmo. Remédios. Equipamentos médicos. Nada além disso. Nenhum sinal da carga que esperavam. Nenhum disfarce. Nenhum compartimento secreto. Nada. A expressão dele ficou escura. — Não é possível. Dioguinho passou a mão no rosto. — A gente foi enganado. Valente olhou novamente para as caixas. Depois para o outro caminhão. — Confere o outro. Dioguinho correu até lá. Abriu. Mais caixas. Mais remédios. Mais equipamentos. O mesmo cenário. O estômago dele afundou. — Não tem nada! Valente desceu do primeiro caminhão com força. — Porr4! Ele pegou o rádio com movimentos bruscos. — Barbie! No bunker, Alice imediatamente respondeu. — Fala. A respiração de Valente estava pesada. — Deu r**m. — Explica. — Os caminhões… Ele passou a mão no rosto. — Não tem nada. Silêncio no bunker. — Como assim nada? — perguntou Alice. Dioguinho pegou o rádio também. — Só produto de farmácia mesmo! — Remédio! — Caixa de hospital! — Não tem matéria-prima nenhuma! Alice ficou imóvel na cadeira. O olhar fixo no mapa. — Confere direito — ela disse. Valente respondeu irritado. — Já conferimos! Dioguinho chutou uma caixa no chão. — A gente caiu numa armadilha! — Aquela porr4 de moleque enganou a gente! Os dois motoristas ainda estavam ajoelhados na beira da estrada. Tremendo. Sem entender nada. Valente respirou fundo. O coração batendo forte. Raiva subindo. Ele voltou a olhar para o interior do caminhão. Cheio. Mas completamente inútil para eles. — A casa caiu — ele disse no rádio. No bunker, Alice permaneceu em silêncio por alguns segundos. O relógio continuava marcando o tempo. Frio. Implacável. Ela finalmente respondeu: — Espera. Mas a tensão já estava instalada. Na estrada. No bunker. Em todos eles. E pela primeira vez naquela noite… o plano parecia ter ido completamente para o infern0.
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