Curso de Vendas

1055 Palavras
O sol ainda nem tinha subido direito quando o morro começou a acordar. Favela nunca dormia de verdade, mas existia um horário em que tudo parecia ganhar mais movimento ao mesmo tempo. Moto subindo as vielas. Portas de metal abrindo. Gente indo trabalhar. Som de rádio ligado em alguma casa. E naquele dia tinha uma agitação diferente. Porque a notícia já tinha corrido. O pessoal do Valente estava recrutando gente para vender. Muito. Perto do meio da manhã o bunker já estava cheio. Não de homens armados como de costume. Mas de moleques. Garotos de quinze, dezesseis, dezessete anos. Alguns um pouco mais velhos. Todos curiosos. Alguns nervosos. Outros animados. Uns quarenta deles estavam espalhados pelo espaço aberto do bunker, encostados nas paredes ou sentados em caixas vazias. Conversando. Rindo. Esperando. Dioguinho estava parado perto da entrada com dois seguranças. Observando tudo. — Olha isso — ele murmurou. Valente estava encostado em uma coluna de concreto, braços cruzados. — Favela inteira apareceu. Dioguinho deu um sorriso. — Molecada quer dinheiro fácil. Valente respondeu baixo: — Não existe dinheiro fácil. — Existe. — O difícil é não morrer depois. Dioguinho soltou um riso curto. — Também. Foi então que Alice apareceu descendo a escada do escritório. E o barulho no bunker diminuiu aos poucos. Ela estava usando uma calça jeans simples e uma camiseta preta. Nada extravagante. Mas o jeito que ela andava era confiante. Seguro. Como se aquele lugar fosse dela. Alguns dos moleques olharam curiosos. Outros cochicharam. Dioguinho comentou baixo com Valente: — Aí ó… a professora chegou. Alice caminhou até o centro do espaço. Parou diante deles. Cruzou os braços. E olhou para todo mundo. — Bom dia. Alguns responderam. — Bom dia. Outros só ficaram quietos. Ela apontou para as caixas empilhadas atrás dela. — Vocês sabem por que estão aqui. Um dos moleques respondeu: — Pra vender. Alice assentiu. — Exatamente. Ela começou a andar devagar na frente deles. — Mas vender não é só pegar produto e sair correndo pela favela. Ela levantou um dedo. — Se vocês fizerem isso do jeito errado… Ela apontou para a cabeça. — A polícia pega. — Ou a concorrência pega. — Ou vocês perdem dinheiro, porque não vendem. O silêncio ficou total. Ela continuou: — Então hoje vocês vão aprender como fazer direito. Valente observava de longe. Braços cruzados. Sem interferir. Dioguinho ficou ao lado dele. — Caralh0… — O que foi? — A mina vai dar aula de como vender drog4 mesmo. Alice apontou para os moleques. — Primeira coisa: postura. Ela olhou para um garoto magro na frente. — Como você fala com cliente? O moleque deu de ombros. — Normal. Alice balançou a cabeça. — Errado. Ela se aproximou. — Cliente tem que confiar em você. Ela imitou uma voz relaxada: — “Fica tranquilo, parceiro… bagulho aqui é qualidade.” Alguns moleques riram. Ela continuou: — Segunda coisa. Ela levantou dois dedos. — Preço. Um dos moleques falou: — Mas falaram que subiu, fica mais difícil vender. Alice assentiu. — Subiu. Alguns cochicharam. Ela levantou a mão. — E vocês vão saber explicar por quê. Ela pegou um dos pacotes da caixa. — Porque isso aqui… Ela levantou o saquinho. — É melhor que o da concorrência. Ela olhou para todos. — Vocês vão dizer isso. — “Produto puro.” — “Sem mistura.” — “Sem risco.” Ela fez uma pausa. — Vocês sabem quantas pessoas já passaram m*l com droga batizada em outros morros? Alguns balançaram a cabeça. — Muitas. — E até morreram. Ela apontou para o pacote. — Aqui não. Valente ouviu aquilo e soltou um pequeno riso. Dioguinho comentou: — A loira tá vendendo até orgulho de marca. Valente respondeu baixo: — E os moleque tão comprando a ideia. Alice continuava. — Terceira coisa. Ela levantou três dedos. — Polícia. O silêncio ficou ainda mais sério. — Se polícia aparecer… Ela apontou para os becos no mapa preso na parede. — Vocês sabem onde correr. Ela mostrou as rotas. — Cada ponto tem saída. — Cada vendedor tem cobertura. — E ninguém carrega tudo de uma vez. Ela olhou para um grupo de três moleques. — Se perder um pacote… — Perde pouco. — Mas nunca perde tudo. Eles assentiram. Alice caminhou até outra caixa. — Quarta coisa. — Organização. Ela abriu o notebook. — Tudo que sair daqui… Ela apontou para os pacotes. — Vai estar anotado. Ela levantou o olhar. — E tudo que voltar em dinheiro… — Também. Dioguinho cochichou: — Agora virou empresa. Valente respondeu: — Sempre foi. Só que bagunçada. Alice continuou a reunião. Explicou horários. Pontos de venda. Rotas de saída. Como lidar com cliente. Como falar do preço. Como defender a qualidade. Alguns moleques faziam perguntas. Outros anotavam mentalmente. Depois de quase uma hora… Ela terminou. — Alguma dúvida? Silêncio. — Então vamos trabalhar. A molecada começou a se movimentar. Pegando caixas. Recebendo instruções. Dioguinho organizava grupos. — Tu pega a escadaria. — Vocês dois ficam na quadra. — Tu vai com o Juninho pra rua de baixo. O bunker virou um formigueiro. Movimento. Caixas sendo distribuídas. Rádios passando instruções. Alice estava no centro da mesa com o notebook. Registrando tudo. — Caixa três: vinte unidades. — Caixa quatro: quinze. — Beco do mercado: dez. Valente continuava observando de longe. Dioguinho percebeu. — Tu tá vidrado. Valente nem olhou para ele. — Cala a boca. Dioguinho riu. — Sério. — Tu não tira o olho da mina. Valente finalmente virou o rosto. — Ela é insuportável. — Claro. — Mas é a salvação da gente. Dioguinho sorriu. — Aí eu concordo. A manhã virou tarde. E as vendas começaram. Rádio chiando. — Primeiro pacote vendido. — Mais três na escadaria. — Dez na quadra. Alice digitava tudo. Organizando entrada de dinheiro. Saída de produto. Pagamento de vendedor. Tudo anotado. Tudo estruturado. Valente passou a mão pelo rosto. Observando aquele caos organizado. A loira transformando tráfico em planilha. Dioguinho comentou: — Nunca vi isso. Valente respondeu: — Nem eu. Lá fora… Nos becos da favela… Os moleques já gritavam discretamente para clientes conhecidos. — Bagulho novo. — Qualidade do Valente. — Produto puro. E pela primeira vez desde que o contador tinha sumido… Dinheiro começou a voltar. Pouco. Mas constante. E Alice registrava cada centavo.
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