Como Funciona

1289 Palavras
Alice ainda estava apoiada no corrimão da passarela metálica. Lá de cima, o galpão parecia ainda maior. As luzes industriais iluminavam cada setor. Movimento constante. Pessoas indo e voltando. Algumas carregando caixas. Outras anotando números em pranchetas. Outras conversando perto das mesas longas. Era um lugar vivo. Funcionando como uma engrenagem gigantesca. Alice olhava aquilo tudo com uma mistura estranha de emoções. Choque. Curiosidade. Admiração. E um certo desconforto moral que ela ainda não sabia exatamente onde encaixar. Ela virou o rosto lentamente para Valente. — Eu preciso entender isso. Ele estava encostado no corrimão. Observando o próprio território. Como um general olhando seu exército. — Entender o quê exatamente? Alice apontou para o galpão. — Tudo. Ele levantou uma sobrancelha. — Tudo? — Tudo. Ela virou completamente para ele. — Se eu vou ajudar você a recuperar dinheiro… Ela apontou para o movimento abaixo. — Eu preciso saber como essa máquina funciona. Valente ficou alguns segundos em silêncio. Observando ela. Depois deu um pequeno sorriso. — Tá bom. Ele se afastou do corrimão. — Então vem. Eu não deveria fazer isso, mas... Vou te dar um voto de confiança. Eles começaram a caminhar pela passarela metálica. O barulho dos passos ecoava levemente. Alice acompanhava cada detalhe. Cada setor. Cada movimento. Valente parou na primeira área. Abaixo deles havia várias caixas grandes empilhadas. Alguns homens estavam organizando tudo. — Primeira etapa — ele disse. Alice olhou. — O quê? Valente apoiou os braços no corrimão. — Matéria-prima. Alice franziu a testa. — Isso tudo chega aqui? — Chega. Ela observou as caixas. — Como? Valente respondeu com naturalidade. — Caminhões. — Disfarçados. Alice olhou para ele. — Disfarçados como? — Entrega comum. Ele deu de ombros. — Material de construção. — Alimento. — Coisas assim. Alice soltou uma pequena risada incrédula. — Você está me dizendo que caminhões entram aqui carregando isso… Ela apontou para as caixas. — E ninguém percebe? Valente respondeu calmamente: — As pessoas percebem. Ela franziu a testa. — E? — Mas ninguém pergunta. Alice ficou em silêncio. Pensando. Depois voltou a olhar para o galpão. — E os fornecedores? Valente respondeu: — Os mesmos há anos. — Parceria antiga. Alice levantou as sobrancelhas. — Confiança? Ele soltou uma pequena risada. — Dinheiro. Ela balançou a cabeça. — Claro. Valente fez um gesto. — Vem. Eles continuaram caminhando. A passarela levava para outro setor do galpão. Alice percebeu que o espaço era dividido em áreas diferentes. Cada uma com uma função. Cada uma organizada de forma específica. Valente parou novamente. — Depois que o material chega… Ele apontou para a área abaixo. — Vai pra lá. Alice olhou. Ali havia máquinas grandes. Equipamentos industriais. Mesas metálicas. Várias pessoas trabalhando em ritmo constante. — Produção — ele disse. Alice observou em silêncio. Não dava para entender exatamente o que acontecia ali. Mas dava para perceber que era um processo organizado. Etapas. Sequência. Controle. Ela virou para ele. — Isso funciona o tempo todo? — Quase. — Quantas horas por dia? — Depende da demanda. Alice cruzou os braços. — Então você regula a produção conforme a venda. Valente sorriu. — Você aprende rápido. Ela ignorou o comentário. Estava concentrada. — Quem coordena isso aqui? Ele apontou para um homem de boné conversando com dois trabalhadores. — Aquele ali. — Dioguinho. Alice observou. Já conhecia ele, mas ainda não sabia bem a posição daquele homem. — Ele parece jovem. — Mas é eficiente, é meu braço direito, se você precisar de algo e eu não estiver, você vai pedir pra ele. Ela assentiu. — Dá pra perceber que você confia nele mesmo. Valente continuou andando. — Depois da produção… Eles chegaram perto de outra área. Havia mesas longas. Pessoas analisando coisas com atenção. Alice inclinou a cabeça. — O que acontece aqui? Valente respondeu: — Controle. — Teste. Alice franziu a testa. — Teste? — Pra ver se está dentro do padrão. Ela ficou olhando. — Você tem padrão? Valente deu de ombros. — Se não tiver, o produto perde valor. Drogad0 também quer qualidade. Alice respirou fundo. — Isso realmente funciona como uma empresa. É loucura — Eu falei. Ela observou por mais alguns segundos. Depois eles seguiram para outra área. Ali havia caixas organizadas. Material sendo separado. Etiquetas. Registros. Pessoas anotando números. — Embalagem — disse Valente. Alice olhou ao redor. — E registro. — Controle de lote. — Quantidade. — Destino. Ela virou o rosto rapidamente. — Destino? Valente apontou para um quadro preso na parede. — Cada caixa já sai daqui com lugar definido. Tem lugar que pede uma quantidade alta já, é esse tipo de cliente que a gente quer. Alice se aproximou do quadro. Havia nomes de bairros. Códigos. Números. — Isso parece logística de empresa de transporte. Valente respondeu: — É logística. Ela soltou uma pequena risada nervosa. — Eu estou começando a achar que seu negócio é mais organizado que o da empresa do meu pai, de verdade. Valente sorriu. — Não conta pra ele. Alice voltou a olhar o quadro. — Então depois disso tudo… Ela virou para ele. — Vem a venda. Valente assentiu. — Exato. — Os vendedores pegam as caixas. — Distribuem. — E o dinheiro volta. Alice apoiou as mãos na mesa. Pensando. Fazendo cálculos mentais. — Quanto tempo leva todo esse processo? Valente respondeu: — Depende do volume. — Mas normalmente poucos dias. Alice levantou o olhar. — Isso é rápido. — Tem que ser. Ela olhou novamente para o galpão inteiro. Agora entendendo melhor o fluxo. — Matéria-prima entra. — Produção acontece. — Controle. — Embalagem. — Distribuição. Ela virou lentamente para ele. — Você montou uma cadeia completa. Valente deu de ombros. — Era necessário. Alice cruzou os braços. — Quantas dessas estruturas você tem? Ele respondeu sem hesitar. — Algumas. Ela riu. — Algumas. — Você nunca responde número. — Segurança. Ela balançou a cabeça. — Claro. Eles caminharam novamente pela passarela. Voltando para a escada. Alice desceu lentamente. Agora olhando tudo de perto. Pessoas. Mesas. Movimento. Ela parou no meio do galpão. Respirou fundo. E então disse: — Eu preciso ver todos os números, vamos refazer essa estratégia. Valente cruzou os braços. — Que números? Ela olhou diretamente para ele. — Todos. — Custos. — Vendas. — Comissão. — Desperdício. — Perda. — Lucro. Ela apontou para o galpão. — Porque se eu vou ajudar você a ganhar mais dinheiro… Ela inclinou a cabeça. — Eu preciso saber onde ele está sendo perdido. Já sei que você tinha um "contador" que te deu um golpe, mas isso vai além. Você tem um negócio lucrativo, você sabe o que precisa ter, mas não sabe como fazer. Então eu vou fazer isso pra você, é o combinado. Valente ficou alguns segundos em silêncio. Observando ela. Depois abriu um sorriso. Um sorriso lento. Quase orgulhoso. — Eu sabia que você ia dizer isso. Alice ergueu uma sobrancelha. — Sabia? — Você pensa como contadora. Ela suspirou. — Eu sou contadora. Valente fez um gesto com a cabeça. — Então vem comigo. Ele apontou para o corredor que levava novamente ao escritório. — Vamos ver os números de verdade. Alice olhou uma última vez para o galpão. Para aquele mundo clandestino funcionando como um organismo gigante. E pela segunda vez naquela noite… Ela teve a mesma sensação. Ela estava atravessando uma linha. Entrando cada vez mais fundo no universo de Bruno Valente. E o mais estranho… Era que ela não estava recuando. Ela estava… Avançando. Era a primeira vez que alguém confiava nela para mostrar o que ela sabia fazer. Por mais que não fosse algo totalmente reconhecido, Bruno deixava ela fazer o que o pai não deixava, trabalhar da maneira que quisesse.
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