Recalculando

1331 Palavras
O bunker tinha mudado de ritmo nos dias seguintes. Antes, tudo parecia correr no automático — produção constante, caminhões entrando e saindo, caixas sendo empilhadas, homens andando apressados pelos corredores de concreto. Agora havia tensão. Não era visível para qualquer um, mas quem trabalhava ali há muito tempo percebia. As conversas eram mais baixas. Os rádios chiavam com mais frequência. Valente estava mais calado. E Dioguinho parecia sempre atento demais. A única pessoa que parecia tranquila naquele caos era Alice. Já fazia quase uma semana que ela estava mergulhada nas contas. Pastas abertas. Planilhas no computador. Caderno cheio de anotações. Linhas e setas desenhadas como se ela estivesse montando um mapa de guerra. E, de certa forma, estava mesmo. Porque encontrar vinte milhões de reais desaparecidos era exatamente isso. E ela nem sonhava que na verdade, tinham que arrumar cinquenta. E que se esse dinheiro não aparecesse, isso viraria uma guerra. Naquela tarde o escritório estava silencioso. Alice estava sentada no chão. Literalmente cercada de papéis. Alguns relatórios estavam espalhados ao redor dela. Outros empilhados sobre a mesa. Valente estava encostado na parede perto da porta, observando. Dioguinho estava sentado numa cadeira giratória, girando devagar enquanto fumava. — E aí? — ele perguntou. Alice não respondeu. Continuou olhando para a tela do notebook. Digitou mais algumas coisas. Franziu a testa. Depois soltou o ar devagar. Fechou o computador. O silêncio ficou pesado por alguns segundos. Valente foi o primeiro a falar. — Achou? Alice levantou o olhar. E balançou a cabeça. — Não. Dioguinho parou de girar a cadeira. — Nada? — Nada que leve direto até o dinheiro. Ela se levantou devagar. Esticando as costas. — Seu contador era muito melhor do que eu imaginei. Valente cruzou os braços. — Ou muito filho da put4. Alice deu de ombros. — Os dois. Ela começou a recolher algumas pastas. — Ele espalhou o dinheiro por várias camadas de contas. — Empresas fantasmas. — Laranjas. — Transferências internacionais. Dioguinho soltou um assobio. — Caralh0… Alice continuou. — Eu consegui rastrear alguns caminhos. Ela pegou o caderno. Folheou algumas páginas. — Mas em algum ponto o rastro simplesmente desaparece. Valente perguntou: — Lavagem? — Provavelmente. Ela levantou o olhar. — E bem feita. Valente passou a mão pelo rosto. — Então a grana já era? Alice inclinou a cabeça. — Não necessariamente. — Mas encontrar agora vai levar muito tempo. — Meses. Talvez anos. O silêncio voltou. Valente caminhou até a mesa. — A gente não tem anos. Alice respondeu calma: — Eu sei. Dioguinho soltou a fumaça do cigarro. — Então tamo fodid0. Alice ergueu uma sobrancelha. — Não. Os dois olharam para ela. — Só estamos olhando para o problema errado. Valente franziu a testa. — Como assim? Alice caminhou até a mesa. Abriu uma pasta. — Vocês estão focados no dinheiro que foi roubado. Ela bateu na folha. — Mas esquecendo do dinheiro que ainda pode ser feito. Dioguinho soltou uma risada. — Com que matéria-prima? Alice apontou para outra pasta. — Vocês já produziram muita coisa antes de acabar. Valente respondeu: — Sim. — E? — Está estocado. Alice abriu um pequeno sorriso. — Então vamos vender. Dioguinho soltou uma gargalhada. — Porr4, gênio. — Ninguém tinha pensado nisso... Digamos que a gente meio que já esteja fazendo isso. Alice nem reagiu à ironia. — Não. Ela virou outra página. — Vocês vão vender diferente. Valente inclinou a cabeça. — Diferente como? Alice pegou uma caneta. E começou a desenhar algumas coisas no papel. — Primeiro problema: distribuição. Ela desenhou vários pontos. — Vocês concentram venda em poucos lugares. Dioguinho respondeu: — É estratégia. — Menos risco. Alice balançou a cabeça. — Também menos alcance. Ela fez mais pontos no papel. — A favela é grande. — E vocês estão usando só uma parte dela. Valente ficou olhando. Alice continuou. — Segunda coisa: mão de obra. Ela levantou o olhar. — Quantos vendedores vocês têm? Dioguinho respondeu: — Uns quinze aviõezinhos. — Pouco. — Não é pouco. Geralmente a gente vende carga grande, nem precisa deles. — É controlado. Alice cruzou os braços. — Controlado demais. Ela apontou para o desenho. — Vocês precisam de um aviãozinho em cada beco. Dioguinho franziu a testa. — Isso dá muito moleque. — Moleque que cobra pouco. — E vende rápido, porque quer ganhar comissão. Valente perguntou: — Tu quer espalhar ponto de venda pela favela inteira? — Exatamente... e talvez... fora. Dioguinho soltou um riso. — Isso é loucura. Alice respondeu: — Isso é expansão. Ela fez outro desenho. — Mais pontos. — Mais vendedores. — Mais circulação. Valente continuava olhando para o papel. Pensando. Alice então falou a parte mais delicada. — E tem outra coisa. — O preço. Os dois levantaram o olhar. Dioguinho falou primeiro. — Nem fudend0. Alice respondeu calma: — Vocês vão subir. Valente franziu a testa. — Subir preço agora? — Sim. Dioguinho riu. — Aí o cliente compra na concorrência. Alice inclinou a cabeça. — Não se vocês tiverem algo que a concorrência não tem. Valente cruzou os braços. — O quê? Alice respondeu: — Qualidade. O silêncio caiu na sala. Valente ficou olhando para ela. Dioguinho soltou a fumaça devagar. — Explica isso aí. Alice pegou outra pasta. — Eu estava olhando os relatórios de produção. Ela virou uma página. — A pureza do produto de vocês é maior. Valente assentiu. — Sempre foi. Alice continuou. — Isso significa que o efeito é melhor. — Mais forte. — Mais limpo. Ela levantou o olhar. — Isso é diferencial de mercado. Esses caras querem ficar doidões sim, mas não querem morrer ou ficar doentes por isso. Dioguinho piscou algumas vezes. — Tu tá fazendo plano de marketing pra drog4? Alice respondeu seca. — Sim. Valente não conseguiu evitar um pequeno sorriso. — Continua. Alice apoiou as mãos na mesa. — Se vocês venderem mais caro… — Mas com qualidade comprovada… — O cliente continua comprando. Dioguinho balançou a cabeça. — Cliente não pensa assim. Valente respondeu antes dela. — Pensa sim. Dioguinho olhou para ele. Valente continuou: — Já teve gente reclamando das parada do morro vizinho. Alice ergueu uma sobrancelha. — Reclamando como? Valente respondeu sério. — Produto batizado. As vezes uns golpes, vendendo farinha no lugar do pó, aí é óbvio que ninguém vai reclamar e tomar azeitona no peito. — Mistura errada., essas coisas. — Teve gente passando m*l. Dioguinho completou: — Teve até uns que morreram. Alice abriu um pequeno sorriso. — Então pronto. Os dois ficaram olhando para ela. Ela bateu a caneta na mesa. — Vocês já têm o ás na mão. Valente inclinou a cabeça. — Qual? Alice respondeu: — Reputação. Ela começou a andar pela sala enquanto falava. — Espalha a palavra. — Diz que aqui é produto puro. — Sem mistura r**m. — Sem risco. Ela virou para eles. — Quem usa vai sentir a diferença. Dioguinho ainda parecia desconfiado. — E se não comprar? Alice respondeu sem hesitar. — Compra. — Porque quem usa não quer morrer. Só quer ficar doido. Valente ficou em silêncio por alguns segundos. Depois soltou um pequeno riso. — Caralh0… Ele olhou para Dioguinho. — A loira é braba mesmo. Dioguinho coçou a cabeça. — Ou muito doida. Alice respondeu tranquila: — As duas coisas às vezes são necessárias. Valente olhou para o papel novamente. Vários pontos desenhados. Becos. Rotas. Distribuição. Mais vendedores. Preço maior. Produto melhor. Ele passou a mão no queixo. Pensando. Porque aquilo podia dar certo. Não resolveria tudo. Mas podia começar a gerar dinheiro. E ele precisava de dinheiro. Rápido. Muito rápido. Dioguinho perguntou: — Quanto isso renderia? Alice respondeu: — Difícil estimar. — Mas pode aumentar bastante o fluxo. Valente levantou o olhar. — Quanto é bastante? Alice respondeu calma. — O suficiente para vocês respirarem. Valente ficou olhando para ela. E pela primeira vez desde que ela tinha chegado naquele morro… Ele sentiu uma pequena coisa que já não sentia há dias. Esperança.
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