O eco da voz dele ainda vibrava no alto do Morro das Garças.
— Estamos zerados.
Não era só uma frase.
Era um aviso.
Era ameaça.
Era declaração de guerra.
A comunidade inteira parecia ter encolhido alguns centímetros depois daquilo. O baile tinha morrido. A música desligada às pressas. O cheiro de pólvora ainda misturado com cerveja derramada e suor.
Bruno Valente estava no ponto mais alto da laje principal, cercado pelos homens armados. O corpo ereto, os braços cruzados, o olhar escuro varrendo cada rosto abaixo dele.
— Tinha rato entre nós — ele continuou, a voz firme, sem precisar gritar. — E rato não vive muito, a gente mata com veneno.
O silêncio foi pesado.
Ninguém chorava pelos mortos.
Ninguém perguntava nada.
Ali, as regras eram simples: ou você estava com ele… ou contra ele.
E quem estivesse contra, já tinha destino certo.
Alice estava parada na varanda da casa de Camila, alguns metros abaixo, ainda um pouco assustada com os tiros que tinham rolado pouco antes, mas continuou observando tudo. O coração acelerado — não de medo, mas de análise.
Ela conhecia aquele tipo de discurso.
Autoridade baseada em controle.
Controle baseado em dinheiro.
E dinheiro… desaparecido.
— Quem é ele, afinal? — Alice perguntou baixo, ainda encarando o homem que discursava como se o morro fosse extensão do próprio corpo.
Camila soltou o ar devagar.
— Tu tá de brincadeira, né?
— Não.
— Alice… aquele ali é o Bruno Valente.
O nome caiu no ar como algo pesado.
Alice estreitou os olhos.
— O mesmo cara da festa?
— O próprio.
Camila se aproximou da varanda, falando mais baixo.
— Mas ninguém chama ele assim. É Valente. Só isso. Ele é o chefe daqui. Do morro todo.
Alice virou o rosto.
— Chefe tipo… presidente da associação?
Camila quase riu, mas não teve coragem.
— Chefe do tráfico, Alice. De droga. De arma pesada. De tudo que gira dinheiro aqui. Quem precisa de remédio, ele resolve. Quem tá passando fome, ele manda cesta. Quem mexe com alguém do morro… ele resolve também.
— Resolve como?
Camila olhou para o alto da laje.
— Tu ouviu os tiros hoje, né?
Alice ficou em silêncio.
Camila continuou:
— Polícia nenhuma consegue pegar ele. Já tentaram. Já subiram aqui com BOPE, helicóptero, caveirão. Nunca acharam nada. Nunca provaram nada. Ele sempre tá dois passos na frente.
Dois passos na frente.
A frase ficou ecoando na mente dela.
Ela voltou a olhar para Valente.
Ele tinha uma presença quase magnética. Não era beleza convencional. Era força bruta. Autoridade natural. Um homem que parecia não pedir licença para existir.
— E o que significa exatamente isso de estarem zerados? — Alice perguntou.
Camila suspirou.
— Pelo que eu entendi… tinha alguém na parte da grana. Da contabilidade do morro. Um cara que organizava as entradas, as saídas, pagava fornecedor, lavava dinheiro, essas coisas.
Alice virou o rosto rapidamente.
— Eles têm contabilidade estruturada?
— Estruturada é uma palavra forte — Camila fez uma careta. — Mas tinha alguém cuidando disso.
— E?
— E esse alguém sumiu. Levou tudo. Raspou o caixa geral.
Alice sentiu o cérebro começar a trabalhar automaticamente.
“Raspou o caixa.”
Isso significava:
• Não havia reserva.
• Não havia controle rígido.
• Não havia rastreabilidade eficiente.
• Não havia auditoria interna.
Amadorismo.
Ela voltou a olhar para o alto.
Valente estava descendo da laje agora, cercado por homens armados. O rosto impassível.
Mas zerado.
Um império inteiro dependente de fluxo de caixa diário.
Sem caixa.
Sem planejamento.
Sem proteção.
A mente dela girava.
E foi exatamente nesse momento que o celular vibrou.
Na tela: Pai.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu já volto — disse a Camila, afastando-se para dentro da casa.
Alice atendeu.
— Onde você está? — a voz do outro lado veio cortante, alta, irritada.
Alice apertou o celular contra a orelha.
— Eu saí.
— Eu sei que saiu! Eu quero saber ONDE você está!
Ela respirou fundo.
— Na casa de uma amiga.
— Que amiga? Aquela gente da sua faculdade?
“Aquela gente.”
Ela odiava quando ele falava assim.
— Sim.
— Você tem noção da vergonha que me faz passar? Nanda me contou que você anda se metendo em lugar que não deveria.
Claro.
Nanda.
Sempre Nanda.
A irmã mais velha, perfeita na superfície e vazia por dentro. A que vestia as roupas que o pai escolhia. A que sorria nas reuniões de negócios como uma vitrine humana.
A que nunca suportou o fato de Alice ser melhor que ela com números.
— Eu não tô fazendo nada errado.
— Você é uma Prado! — ele praticamente rugiu. — Você não pode simplesmente sumir, desligar o celular, ignorar sua família e seus compromissos da empresa!
Alice olhou pela janela.
Lá fora, o morro ainda estava em alerta.
Sirene ao longe.
Gente cochichando.
Vida real.
— Eu não sou propriedade da empresa, pai.
O silêncio do outro lado foi pesado.
— Você volta pra casa agora.
— Eu não vou.
— Você vai sim.
— Eu não vou.
Ela ouviu algo quebrando do outro lado da linha.
— Enquanto você morar debaixo do meu teto, você faz o que eu mando.
Alice sentiu o estômago apertar.
— Então talvez eu não devesse morar debaixo do seu teto.
Desligou.
O coração estava disparado.
Mas não era medo.
Era ruptura.
Ela sabia que aquela frase não tinha volta.
Alice Prado nasceu cercada de luxo.
Motorista particular. Escola bilíngue. Intercâmbio na Europa aos dezesseis. Faculdade particular de elite.
Mas nunca teve escolha.
Desde criança, o pai repetia:
“Você tem talento com números.”
Era verdade.
Enquanto outras crianças brincavam de boneca, Alice organizava as fichas do jogo Banco Imobiliário por probabilidade de lucro. Calculava mentalmente juros compostos. Montava planilhas por diversão.
Números faziam sentido.
Pessoas não.
Ela se formou em contabilidade com honras.
Tinha propostas de multinacionais.
Mas o pai nunca permitiu que aceitasse.
— Você vai assumir o financeiro do grupo Prado.
Não era convite.
Era sentença.
— Mas eu queria abrir algo meu…
— Pra quê? Pra começar do zero? Pra correr risco desnecessário? Um dia tudo isso vai ser seu.
Tudo isso.
Sempre tudo isso.
Mas nunca algo dela.
Nanda, por outro lado, nunca teve talento para nada que envolvesse lógica ou estratégia. Era carismática, sociável, excelente em relações públicas.
Mas odiava o fato de que o pai confiava mais na mente de Alice.
Então fazia o que sabia fazer melhor: intriga.
Comentava que Alice era ingrata. Que não valorizava a família. Que andava estranha. Que andava “misturada”.
E o pai acreditava.
Porque Nanda nunca desafiava.
Nanda obedecia.
Alice enfrentava.
E naquela noite, pela primeira vez, ela sentiu que talvez tivesse ido longe demais.
Mas ao invés de medo…
Ela sentiu liberdade.
Enquanto Isso, no alto do morro...
Valente entrou na sala improvisada que usava como escritório.
Porta de metal.
Janela pequena.
Mesa grande demais para o espaço.
Dioguinho estava ali, braços cruzados.
— Já mandei procurar o rato — ele disse.
Valente assentiu.
— Quero os nomes de todos os envolvidos até amanhã.
— E a grana?
Silêncio.
Valente passou a mão pelo rosto.
Ele não era burro.
Sabia que confiar tudo a um único homem tinha sido um erro, mas nunca imaginou que sozinho, o cara daria um golpe grande desses.
Aquele cara estava com eles há anos.
Lealdade antiga.
Ou parecia.
— Quanto sobrou real? — perguntou.
— Quase nada. O que tinha guardado em espécie foi.
Valente fechou os olhos por um segundo.
Ele não demonstrava fraqueza.
Mas por dentro, calculava.
Sem caixa, não pagava fornecedor.
Sem fornecedor, não tinha produto.
Sem produto, perdia território.
Sem território… virava alvo.
Ele abriu os olhos.
— Aumenta preço temporário. Suspende crédito. Corta gasto que não seja essencial.
Dioguinho assentiu.
Mas antes de sair, comentou:
— Aquela Barbie tava aí quando tu anunciou, vi ela na casa da Camila.
O maxilar de Valente travou.
— Eu sei, fiquei sabendo.
— Tu acha que…
— Eu não acho nada — ele cortou. — Mas se ela pisar aqui de novo, eu quero saber.
Barbie.
Ele não sabia o nome dela.
Nem queria saber.
Mas lembrava dos olhos.
Claros demais.
Desafiadores demais.
E da forma como ela tinha sustentado o olhar.
Aquilo o irritava.
E, ao mesmo tempo… instigava.
De Volta à Casa de Camila...
Alice voltou para a sala.
Camila percebeu na hora.
— Deu r**m?
Alice pegou a bolsa.
— Eu acho que eu não tenho mais casa.
Camila arregalou os olhos.
— Como assim?
— Meu pai quer que eu volte agora. Eu disse que não vou.
— E?
— E eu acho que ele vai cumprir ameaça dessa vez.
Camila ficou em silêncio.
Alice respirou fundo.
E então olhou pela janela novamente.
Lá em cima, o escritório improvisado tinha luz acesa.
O chefe do morro estava lidando com uma crise financeira.
Sem saber que a solução estava alguns metros abaixo.
Ela sentiu algo crescer dentro dela.
Não era impulso.
Era cálculo.
Um império m*l administrado.
Fluxo de caixa irregular.
Sem controle de estoque.
Sem rastreabilidade de perdas.
Sem planejamento estratégico.
Ela podia ver tudo mesmo sem ter acesso.
E pela primeira vez…
Ela viu a chance de construir algo que fosse dela.
Não o império do pai.
Não a empresa herdada.
Mas algo criado do zero.
Arriscado.
Ilegal.
Perigoso.
Mas dela.
Ela virou para Camila.
— Se eu quisesse falar com ele… como eu faço?
Camila empalideceu.
— Com o Valente?
— Sim.
— Tu ficou maluca?
Alice deu um meio sorriso.
— Talvez.
Camila olhou para a janela.
Depois para Alice.
— Ele não é homem que gosta de ser questionado.
Alice ajeitou o cabelo loiro atrás da orelha.
Os olhos azuis brilhando com algo que não era ingenuidade.
Era estratégia.
— Ótimo.
Porque ela também não era mulher que gostava de abaixar a cabeça.
E naquela noite…
A Barbie decidiu que ia bater na porta do lobo.