O Dono

1372 Palavras
O escritório finalmente ficou em silêncio. A porta se fechou atrás do último homem, deixando apenas duas pessoas na sala. Valente. E a mulher que tinha acabado de dar instruções para metade do morro. Barbie fechou o notebook com calma, como se tivesse acabado de terminar uma reunião comum em qualquer empresa da cidade. Mas não era. Do lado de fora daquela casa existia um morro inteiro. E dentro dele… um mundo que podia engolir qualquer pessoa viva. Valente encostou na mesa, cruzando os braços. Ele ficou olhando para ela por alguns segundos. A loira parecia tranquila demais. Aquilo incomodava. — Você percebe o que acabou de fazer? Ela levantou os olhos para ele. — Sim. — Fiz uma apresentação. Valente soltou uma risada seca. — Apresentação? — Você acabou de dar direção para homens que resolveriam metade dos problemas deles com uma bala. Ela inclinou a cabeça levemente. — Mas não resolveram. Ele estreitou os olhos. — Porque eu estava ali. — Porque você falou que confiava em mim. Silêncio. Valente respirou fundo. Ele caminhou lentamente até a janela do escritório e olhou o morro lá embaixo. Casas espalhadas pelas ladeiras. Música vindo de algum lugar. Moto passando. Gente andando nas ruas estreitas. Tudo aquilo funcionava como uma pequena cidade. Mas era a cidade dele. Ele se virou novamente para ela. — Você vai ficar aqui. Barbie arqueou a sobrancelha. — Aqui onde? — Na minha casa. Ela apoiou o cotovelo na mesa. — Convite formal? — Ou sequestro? Cárcere privado? Valente caminhou até ela. — Nenhuma das opções. — Condição. Silêncio. Ela cruzou os braços. — Explica. Ele apoiou as mãos na mesa e falou devagar. — Você prometeu recuperar o dinheiro que foi perdido. — Prometeu melhorar as coisas aqui. — Prometeu que seu plano funciona. Ela assentiu. — Sim. — Prometi. — Então você vai ficar aqui. Ela estreitou os olhos. — Me vigiando? — Me protegendo? — Ou me controlando? Ele respondeu sem emoção. — Garantindo. — Garantindo o quê? — Que você não desapareça se as coisas ficarem difíceis. Ela soltou uma risada baixa. — Você acha que eu fugiria? — Eu acho que você é inteligente. — E gente inteligente sabe quando sair de um lugar perigoso. Ela deu de ombros. — Talvez. Valente apontou para ela. — Então vamos facilitar. Ele falou firme. — Você fica aqui. — Na minha casa. — Até recuperar o dinheiro que prometeu. Silêncio. Ela analisou o rosto dele. — Você gosta de controlar tudo, não gosta? — Eu gosto de garantir resultados. Ela sorriu de lado. — E se eu disser não? Valente também sorriu. Mas o sorriso dele não era amigável. — Você não vai. — Por quê? Ele se aproximou um pouco mais. — Porque você entrou no meu território. — Mexeu com o dinheiro de gente perigosa. — Prometeu resultados. Ele falou mais baixo. — Agora você não sai até entregar. Silêncio. Barbie sustentou o olhar dele. Depois respirou fundo. — Tá. Valente franziu a testa. — Tá? — Tá. Ela pegou o notebook da mesa. — Eu fico. Ele parecia quase desconfiado. — Só isso? — Sem drama? Ela deu um pequeno sorriso. — Eu não tenho problema em morar bem. Valente soltou uma risada curta. — Você chama isso aqui de morar bem? Ela olhou ao redor do escritório. — Casa grande. — Segurança. — Vista boa. — Dono do lugar perigoso. Ela deu de ombros. — Já vi piores. Valente balançou a cabeça. — Você é impossível. Ela respondeu: — Eu sou prática. Ele caminhou até a porta. — Amanhã começa. — O quê? — Seu grande plano. Ela levantou da cadeira. — Achei que já tivesse começado. Ele abriu a porta. — Amanhã começa de verdade. Ela caminhou até ele. — E você vai deixar eu cuidar de tudo? — Vou. — Confia tanto assim? Ele olhou para ela com um meio sorriso. — Não. — Então por que deixar? Ele respondeu calmamente. — Porque se der certo… todo mundo ganha. Ela cruzou os braços. — E se der errado? Valente inclinou a cabeça. — Você está frita. Silêncio. Ela ficou olhando para ele. Depois… Começou a rir. Não uma risada nervosa. Uma risada divertida. Valente franziu a testa. — Qual é a graça? Ela limpou uma lágrima do canto do olho. — Você. — Eu? — Sim. — Você fica tentando parecer assustador o tempo todo. Ele cruzou os braços. — Eu sou assustador. Ela deu um passo mais perto. — Talvez. — Talvez? — Mas comigo não funciona. Valente apertou os olhos. — Você gosta de provocar, não gosta? Ela sorriu. — Gosto. — Por quê? — Porque você perde a paciência. Ele respirou fundo. — Um dia eu não vou perder só a paciência. Ela inclinou a cabeça. — Vai fazer o quê? Silêncio. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos. Valente percebeu algo irritante. Ela não recuava. Nenhum centímetro. Era como se ela estivesse testando ele o tempo todo. Ele passou a mão no rosto. — Você tem noção de onde está? — No seu morro. — Na sua casa. — Cercada por homens armados. — Dependendo de mim pra continuar viva. Ela respondeu calmamente. — Sim. — E mesmo assim continua tirando onda? Ela sorriu novamente. — Porque funciona. — O quê funciona? — Te irritar. Valente soltou um suspiro pesado. — Você está brincando com fogo. Ela respondeu: — Você também. — Como assim? Ela deu dois passos para trás. — Você trouxe uma estranha para dentro da sua casa. — Deu acesso ao seu escritório. — Deixou ela falar com seus homens. Ela apontou para ele. — Quem está correndo risco aqui é você. Silêncio. Valente começou a rir. Baixo. Divertido. — Você realmente acredita nisso. — Eu acredito que você está apostando alto. — E você não? Ela respondeu: — Sempre. Os dois ficaram se olhando. Havia algo estranho naquele momento. Não era apenas provocação. Era tensão. Algo elétrico no ar. Valente quebrou o silêncio. — Seu quarto é no corredor da esquerda. Ela ergueu a sobrancelha. — Eu tenho um quarto? — Não esperava? — Achei que fosse me colocar em uma cela. Ele sorriu. — Ainda dá tempo. Ela começou a caminhar até a porta. — Relaxa. — Eu sou uma hóspede educada. Valente riu. — Você é qualquer coisa menos educada. Ela parou na porta e olhou para trás. — Você gosta. — Não gosto. — Gosta sim. — Não gosto. Ela deu um sorriso provocador. — Você só ainda não percebeu. E saiu do escritório. Valente ficou olhando a porta fechada por alguns segundos. Depois passou a mão no rosto. — Essa mulher vai me enlouquecer… Ele saiu do escritório e caminhou pelo corredor. Quando passou perto do quarto onde ela estava, ouviu o som de gavetas abrindo. Ela estava explorando a casa. Como se fosse dela. Ele encostou na parede e cruzou os braços. — Você não tem medo de mexer nas coisas dos outros? A voz dele fez ela aparecer na porta. — Relaxa. — Só estou vendo onde vou morar. — Morar? — Temporariamente. Ele apontou para o quarto. — Isso não é hotel. Ela respondeu: — Ainda bem. — Hotéis são impessoais. Valente suspirou. — Tenta não quebrar nada. Ela apoiou o braço na porta. — Prometo tentar. — Tentar? — Não faço milagres. Ele balançou a cabeça. — Você realmente não tem medo de mim. Ela respondeu calmamente. — Eu tenho respeito. — Mas medo não ajuda em nada. Silêncio. Ele ficou olhando para ela. Depois falou: — Dorme bem. — Amanhã começa. Ela sorriu. — Amanhã você vai ver que eu estava certa. Ele respondeu antes de ir embora: — Ou vou ver que trouxe a maior dor de cabeça da minha vida pra dentro de casa. Ela respondeu baixinho: — Provavelmente as duas coisas. Valente saiu andando pelo corredor. Mas havia algo diferente dentro dele agora. Curiosidade. Desconfiança. E algo mais difícil de explicar. Porque aquela mulher… Tinha acabado de entrar no centro do mundo dele. E parecia completamente confortável ali. Como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Mesmo que não tivesse. Mesmo que não devesse. E isso… Podia mudar tudo.
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