O escritório finalmente ficou em silêncio.
A porta se fechou atrás do último homem, deixando apenas duas pessoas na sala.
Valente.
E a mulher que tinha acabado de dar instruções para metade do morro.
Barbie fechou o notebook com calma, como se tivesse acabado de terminar uma reunião comum em qualquer empresa da cidade.
Mas não era.
Do lado de fora daquela casa existia um morro inteiro.
E dentro dele… um mundo que podia engolir qualquer pessoa viva.
Valente encostou na mesa, cruzando os braços.
Ele ficou olhando para ela por alguns segundos.
A loira parecia tranquila demais.
Aquilo incomodava.
— Você percebe o que acabou de fazer?
Ela levantou os olhos para ele.
— Sim.
— Fiz uma apresentação.
Valente soltou uma risada seca.
— Apresentação?
— Você acabou de dar direção para homens que resolveriam metade dos problemas deles com uma bala.
Ela inclinou a cabeça levemente.
— Mas não resolveram.
Ele estreitou os olhos.
— Porque eu estava ali.
— Porque você falou que confiava em mim.
Silêncio.
Valente respirou fundo.
Ele caminhou lentamente até a janela do escritório e olhou o morro lá embaixo.
Casas espalhadas pelas ladeiras.
Música vindo de algum lugar.
Moto passando.
Gente andando nas ruas estreitas.
Tudo aquilo funcionava como uma pequena cidade.
Mas era a cidade dele.
Ele se virou novamente para ela.
— Você vai ficar aqui.
Barbie arqueou a sobrancelha.
— Aqui onde?
— Na minha casa.
Ela apoiou o cotovelo na mesa.
— Convite formal?
— Ou sequestro? Cárcere privado?
Valente caminhou até ela.
— Nenhuma das opções.
— Condição.
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Explica.
Ele apoiou as mãos na mesa e falou devagar.
— Você prometeu recuperar o dinheiro que foi perdido.
— Prometeu melhorar as coisas aqui.
— Prometeu que seu plano funciona.
Ela assentiu.
— Sim.
— Prometi.
— Então você vai ficar aqui.
Ela estreitou os olhos.
— Me vigiando?
— Me protegendo?
— Ou me controlando?
Ele respondeu sem emoção.
— Garantindo.
— Garantindo o quê?
— Que você não desapareça se as coisas ficarem difíceis.
Ela soltou uma risada baixa.
— Você acha que eu fugiria?
— Eu acho que você é inteligente.
— E gente inteligente sabe quando sair de um lugar perigoso.
Ela deu de ombros.
— Talvez.
Valente apontou para ela.
— Então vamos facilitar.
Ele falou firme.
— Você fica aqui.
— Na minha casa.
— Até recuperar o dinheiro que prometeu.
Silêncio.
Ela analisou o rosto dele.
— Você gosta de controlar tudo, não gosta?
— Eu gosto de garantir resultados.
Ela sorriu de lado.
— E se eu disser não?
Valente também sorriu.
Mas o sorriso dele não era amigável.
— Você não vai.
— Por quê?
Ele se aproximou um pouco mais.
— Porque você entrou no meu território.
— Mexeu com o dinheiro de gente perigosa.
— Prometeu resultados.
Ele falou mais baixo.
— Agora você não sai até entregar.
Silêncio.
Barbie sustentou o olhar dele.
Depois respirou fundo.
— Tá.
Valente franziu a testa.
— Tá?
— Tá.
Ela pegou o notebook da mesa.
— Eu fico.
Ele parecia quase desconfiado.
— Só isso?
— Sem drama?
Ela deu um pequeno sorriso.
— Eu não tenho problema em morar bem.
Valente soltou uma risada curta.
— Você chama isso aqui de morar bem?
Ela olhou ao redor do escritório.
— Casa grande.
— Segurança.
— Vista boa.
— Dono do lugar perigoso.
Ela deu de ombros.
— Já vi piores.
Valente balançou a cabeça.
— Você é impossível.
Ela respondeu:
— Eu sou prática.
Ele caminhou até a porta.
— Amanhã começa.
— O quê?
— Seu grande plano.
Ela levantou da cadeira.
— Achei que já tivesse começado.
Ele abriu a porta.
— Amanhã começa de verdade.
Ela caminhou até ele.
— E você vai deixar eu cuidar de tudo?
— Vou.
— Confia tanto assim?
Ele olhou para ela com um meio sorriso.
— Não.
— Então por que deixar?
Ele respondeu calmamente.
— Porque se der certo… todo mundo ganha.
Ela cruzou os braços.
— E se der errado?
Valente inclinou a cabeça.
— Você está frita.
Silêncio.
Ela ficou olhando para ele.
Depois…
Começou a rir.
Não uma risada nervosa.
Uma risada divertida.
Valente franziu a testa.
— Qual é a graça?
Ela limpou uma lágrima do canto do olho.
— Você.
— Eu?
— Sim.
— Você fica tentando parecer assustador o tempo todo.
Ele cruzou os braços.
— Eu sou assustador.
Ela deu um passo mais perto.
— Talvez.
— Talvez?
— Mas comigo não funciona.
Valente apertou os olhos.
— Você gosta de provocar, não gosta?
Ela sorriu.
— Gosto.
— Por quê?
— Porque você perde a paciência.
Ele respirou fundo.
— Um dia eu não vou perder só a paciência.
Ela inclinou a cabeça.
— Vai fazer o quê?
Silêncio.
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos.
Valente percebeu algo irritante.
Ela não recuava.
Nenhum centímetro.
Era como se ela estivesse testando ele o tempo todo.
Ele passou a mão no rosto.
— Você tem noção de onde está?
— No seu morro.
— Na sua casa.
— Cercada por homens armados.
— Dependendo de mim pra continuar viva.
Ela respondeu calmamente.
— Sim.
— E mesmo assim continua tirando onda?
Ela sorriu novamente.
— Porque funciona.
— O quê funciona?
— Te irritar.
Valente soltou um suspiro pesado.
— Você está brincando com fogo.
Ela respondeu:
— Você também.
— Como assim?
Ela deu dois passos para trás.
— Você trouxe uma estranha para dentro da sua casa.
— Deu acesso ao seu escritório.
— Deixou ela falar com seus homens.
Ela apontou para ele.
— Quem está correndo risco aqui é você.
Silêncio.
Valente começou a rir.
Baixo.
Divertido.
— Você realmente acredita nisso.
— Eu acredito que você está apostando alto.
— E você não?
Ela respondeu:
— Sempre.
Os dois ficaram se olhando.
Havia algo estranho naquele momento.
Não era apenas provocação.
Era tensão.
Algo elétrico no ar.
Valente quebrou o silêncio.
— Seu quarto é no corredor da esquerda.
Ela ergueu a sobrancelha.
— Eu tenho um quarto?
— Não esperava?
— Achei que fosse me colocar em uma cela.
Ele sorriu.
— Ainda dá tempo.
Ela começou a caminhar até a porta.
— Relaxa.
— Eu sou uma hóspede educada.
Valente riu.
— Você é qualquer coisa menos educada.
Ela parou na porta e olhou para trás.
— Você gosta.
— Não gosto.
— Gosta sim.
— Não gosto.
Ela deu um sorriso provocador.
— Você só ainda não percebeu.
E saiu do escritório.
Valente ficou olhando a porta fechada por alguns segundos.
Depois passou a mão no rosto.
— Essa mulher vai me enlouquecer…
Ele saiu do escritório e caminhou pelo corredor.
Quando passou perto do quarto onde ela estava, ouviu o som de gavetas abrindo.
Ela estava explorando a casa.
Como se fosse dela.
Ele encostou na parede e cruzou os braços.
— Você não tem medo de mexer nas coisas dos outros?
A voz dele fez ela aparecer na porta.
— Relaxa.
— Só estou vendo onde vou morar.
— Morar?
— Temporariamente.
Ele apontou para o quarto.
— Isso não é hotel.
Ela respondeu:
— Ainda bem.
— Hotéis são impessoais.
Valente suspirou.
— Tenta não quebrar nada.
Ela apoiou o braço na porta.
— Prometo tentar.
— Tentar?
— Não faço milagres.
Ele balançou a cabeça.
— Você realmente não tem medo de mim.
Ela respondeu calmamente.
— Eu tenho respeito.
— Mas medo não ajuda em nada.
Silêncio.
Ele ficou olhando para ela.
Depois falou:
— Dorme bem.
— Amanhã começa.
Ela sorriu.
— Amanhã você vai ver que eu estava certa.
Ele respondeu antes de ir embora:
— Ou vou ver que trouxe a maior dor de cabeça da minha vida pra dentro de casa.
Ela respondeu baixinho:
— Provavelmente as duas coisas.
Valente saiu andando pelo corredor.
Mas havia algo diferente dentro dele agora.
Curiosidade.
Desconfiança.
E algo mais difícil de explicar.
Porque aquela mulher…
Tinha acabado de entrar no centro do mundo dele.
E parecia completamente confortável ali.
Como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
Mesmo que não tivesse.
Mesmo que não devesse.
E isso…
Podia mudar tudo.