Empresário

1227 Palavras
O bunker ainda estava cheio de caixas quando Alice voltou a se sentar diante do notebook. A madrugada já tinha virado manhã de novo, mas ninguém ali parecia ligar muito para o relógio. O que importava era resolver o problema que estava diante deles. Valente encostou numa pilha de caixas separadas. Dioguinho estava sentado numa cadeira girada ao contrário, apoiando os braços no encosto, observando Alice trabalhar. Ela já estava completamente focada. Os dedos voavam pelo teclado. Planilhas. Sites. Documentos. Janelas sendo abertas e fechadas. Valente inclinou a cabeça. — O que você tá fazendo agora? Alice respondeu sem parar de digitar. — Criando nossa empresa. Dioguinho riu. — Assim? Ela levantou um dedo. — Não me interrompe. Mais alguns cliques. Alguns segundos de silêncio. Depois ela abriu uma nova aba. — Primeiro precisamos de uma identidade empresarial convincente. Valente cruzou os braços. — Traduz. Alice finalmente olhou para ele. — Uma empresa que pareça real. Ela começou a enumerar nos dedos. — Nome. — Área de atuação. — Receita estimada. — Histórico. — Contato. — Site. Dioguinho arregalou os olhos. — Site também? Alice respondeu: — Claro. — Empresas reais têm site. Valente murmurou: — Eu nunca pensei nessas coisas. Alice sorriu de leve. — Eu pensei. Ela começou a digitar novamente. — Nome da empresa… Ela ficou alguns segundos pensando. Depois digitou. — LogiVale Distribuição e Armazenagem Ltda. Dioguinho repetiu devagar. — Logi… Vale… Ele apontou para Valente. — Vale… Valente. Alice deu um pequeno sorriso. — Coincidência conveniente. Valente riu. — Gostei. Alice continuou. — Área de atuação: logística e armazenagem de produtos agrícolas. Valente franziu a testa. — Por quê agrícola? Ela respondeu imediatamente: — Porque envolve carga. — Sacas. — Caminhões. — Armazéns. — E ninguém questiona quantidade. Dioguinho levantou as sobrancelhas. — Inteligente. Alice abriu outra página. — Agora precisamos de números. Valente perguntou: — Que números? Ela respondeu: — Faturamento. — Funcionários. — Capital social. Ela começou a digitar novamente. Algumas planilhas surgiram. Ela pegou dados médios de empresas do setor. Fez alguns cálculos rápidos. Depois digitou. — Faturamento anual estimado: 8,4 milhões de reais. Valente arregalou os olhos. — Tudo isso? Alice respondeu calmamente: — Uma empresa de logística pequena pode faturar isso. Ela continuou. — Lucro médio: 18%. — Funcionários: 14. — Frota: 4 caminhões terceirizados. Dioguinho murmurou: — Parece real mesmo. Alice abriu um editor de site. — Agora precisamos de presença online. Valente riu. — Você vai criar um site agora? Alice respondeu: — Sim. Ela começou a montar páginas simples. Página inicial. Quem somos. Serviços. Contato. Fotos de galpões genéricos. Fotos de caminhões. Textos institucionais. Dioguinho ficou olhando impressionado. — Caralh0. — Isso parece empresa de verdade. Alice respondeu: — Essa é a ideia. Valente se aproximou. — E o dono? Alice virou a cadeira para ele. — Você. Silêncio. Dioguinho caiu na gargalhada. — Eu sabia! Valente levantou as sobrancelhas. — Eu? Alice assentiu. — Diretor. — Fundador. — Empreendedor. Dioguinho bateu no ombro dele. — Parabéns, empresário. Valente revirou os olhos. Alice continuou. — Agora precisamos de renda comprovada. Ela abriu uma nova planilha. Começou a montar relatórios. Fluxo de caixa. Faturamento mensal. Notas fiscais simuladas. Contratos fictícios de transporte. Tudo extremamente detalhado. Valente ficou olhando aquilo surgir diante dos olhos dele. — Isso é absurdo. Alice respondeu: — Isso é verossimilhança. Dioguinho comentou: — Fala português. Ela suspirou. — Significa parecer real o suficiente para ninguém questionar. Mais alguns minutos de digitação. Então ela se recostou na cadeira. — Pronto. Valente perguntou: — Já? Alice girou o notebook na direção deles. — Tudo pronto. Na tela havia: Site da empresa. Dados institucionais. Documentos. Relatórios financeiros. Dioguinho ficou olhando impressionado. — Se eu não soubesse… — Eu acreditava. Alice fechou o notebook. — O proprietário também vai acreditar. Valente perguntou: — Proprietário? Alice respondeu: — Do galpão. Ela pegou o celular. — Eu já marquei reunião. Silêncio. Valente piscou. — Quando? Alice respondeu calmamente: — Hoje à tarde. Dioguinho quase caiu da cadeira. — HOJE? Alice assentiu. — Quanto antes resolvermos isso, melhor. Valente passou a mão no rosto. — Eu tô com cara de quem levou uma surra. Alice levantou. Caminhou até ele. Observou o rosto machucado. — Vai melhorar depois de um banho e um pouco de maquiagem leve. Ela cruzou os braços. — E outra coisa. Valente esperou. Alice falou: — Você precisa se vestir como um empresário. Dioguinho abriu um sorriso malicioso. — Ih… Já vai andar de maquiagem e arrumadinho, vai perder a moral de marginal. Valente suspirou. — Lá vem. Alice continuou: — Roupa certa. — Postura. — Aparência. Ela olhou para ele de cima a baixo. — Nada de boné virado pra trás. Dioguinho começou a rir. Alice completou: — Quase como aquele dia que você acabou conhecendo meu pai. Valente arregalou os olhos. — Aquilo foi um desastre, não era pra ter acontecido. Alice respondeu: — Exatamente. — Só que agora tem que ser melhor. Dioguinho já estava gargalhando. — Empresário Valente! — Diretor da LogiVale! Valente empurrou ele de leve. — Cala a boca. Alice fechou o notebook. — Vamos. Dioguinho perguntou: — Pra onde? Alice respondeu: — Casa do Valente. — Banho. — Roupa limpa. Ela pegou a mochila. — Depois vamos para a cidade. Valente franziu a testa. — Cidade? Alice assentiu. — Você precisa de um terno. Dioguinho levantou. — Isso eu quero ver. Algum tempo depois, os três chegaram na casa de Valente. O sol já estava alto. O morro estava vivo. Crianças brincando. Música em algumas casas. Mas os três estavam focados. Valente entrou primeiro. — Cada um toma um banho rápido. Dioguinho já foi direto para o banheiro. — Eu primeiro. Alice riu. — Vai logo. Valente pegou roupas limpas. Foi para outro banheiro. Dez minutos depois, ele saiu. Cabelo molhado. Camisa simples. Mas pelo menos estava limpo. Dioguinho saiu logo depois. — Pronto. Alice foi a última. Quando saiu do banheiro, parecia outra pessoa. Cabelo preso. Rosto lavado. Postura firme. Ela pegou as chaves do carro, aquela mesma SUV chique. — Vamos. A viagem até a cidade levou uns vinte minutos. Conforme o carro descia do morro e entrava nas avenidas largas, o ambiente mudava completamente. Prédios. Lojas. Trânsito. Dioguinho olhava tudo pela janela. — Faz tempo que eu não venho aqui. Alice estacionou perto de uma avenida cheia de lojas. Valente olhou ao redor. — Aqui? Alice assentiu. — Aqui. Ela apontou para uma vitrine enorme. Ternos elegantes. Manequins bem vestidos. Uma loja claramente de alto padrão. Dioguinho abriu um sorriso enorme. — Ih… — Hoje tem desfile. Valente suspirou. — Eu odeio isso. Alice saiu do carro. — Anda. Eles entraram na loja. O ambiente cheirava a perfume caro. Luzes suaves. Música ambiente. Um vendedor bem vestido se aproximou imediatamente. — Boa tarde. Alice respondeu com naturalidade. — Boa tarde. Ela apontou para Valente. — Ele precisa de um terno. O vendedor analisou Valente rapidamente. — Claro. — Alguma ocasião especial? Alice respondeu: — Reunião empresarial. O vendedor sorriu, o preconceito escorrendo pelo ralo apenas ao ouvir a palavra "empresarial" . — Então vamos encontrar algo perfeito. Dioguinho cochichou no ouvido de Valente: — Empresário… Valente revirou os olhos. Mas Alice apenas cruzou os braços e observou. Porque naquela tarde… Valente ia precisar parecer exatamente aquilo que ela tinha criado no computador. Um empresário convincente.
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