Planejando

1551 Palavras
O escritório ainda estava silencioso depois que o moleque saiu. A porta fechou com um estalo seco, e por alguns segundos ninguém falou nada. Valente ficou parado perto da janela, olhando o movimento do galpão lá embaixo. A rotina seguia normal — caixas sendo carregadas, gente passando, vozes misturadas — mas dentro da cabeça dele a engrenagem já tinha começado a girar. Devagar. Pesada. Perigosa. Dioguinho quebrou o silêncio primeiro. — Eu ainda não gosto disso. Valente não virou. — Eu sei. Barbie — ou Alice, dependendo de quem chamava — estava sentada na cadeira atrás da mesa. Os cotovelos apoiados na madeira, os dedos entrelaçados perto da boca. Ela não parecia nervosa. Parecia… pensando. Analisando. — Repete — ela disse de repente. Dioguinho olhou para ela. — O quê? — Tudo que o moleque falou. Dioguinho suspirou. — Que os caras do morro vizinho fizeram um pedido grande de matéria-prima. Valente virou lentamente. — A mesma que a gente tá zerado. Dioguinho continuou. — Que a carga chega hoje à noite… escondida em caminhões de farmácia. Barbie assentiu. — Disfarce inteligente. — E que os caminhões vão parar num galpão na cidade antes de subir pro morro deles — completou Dioguinho. Ela ficou alguns segundos quieta. Os olhos fixos em um ponto da mesa. Depois falou: — Então vamos organizar isso. Valente puxou uma cadeira e sentou de frente pra ela. — Tô ouvindo. Barbie levantou, pegou uma folha grande de papel e uma caneta. Espalhou a folha sobre a mesa. — Primeiro… — ela começou — precisamos assumir duas coisas. Ela desenhou um ponto no papel. — Um: a informação pode ser verdadeira. Desenhou outro ponto. — Dois: pode ser armadilha. Dioguinho apontou. — Eu fico mais com a segunda. Ela ignorou o comentário. — Agora… se for verdade… Ela desenhou uma linha entre os pontos. — A gente tem uma oportunidade. Valente inclinou o corpo para frente. — Grande. Barbie concordou. — Muito grande. Ela rabiscou outro ponto no papel. — Esse é o galpão onde os caminhões vão parar. Valente observava o desenho. — Cidade grande. Tem centenas de galpões. — Mas o moleque falou um bairro específico — respondeu ela. Dioguinho coçou o queixo. — Ainda assim… é arriscado. Barbie continuou desenhando. — Agora vamos pensar no que aconteceria se a gente simplesmente tentasse pegar os caminhões. Ela desenhou duas linhas saindo do galpão. — Eles chegam. — Parados. — Carregados. Ela levantou os olhos para os dois. — E provavelmente vigiados. Valente concordou. — Sempre tem alguém. Dioguinho completou: — Ou gente armada. Barbie apoiou a caneta no papel. — Então invadir o galpão direto seria barulhento. Ela desenhou um X. — Não é ideal. Valente inclinou a cabeça. — Então qual a tua ideia? Barbie respirou fundo. E então começou a desenhar novamente. Duas caixas. — Caminhões. Valente estreitou os olhos. — Continua. — A gente não pega a carga no galpão. Dioguinho franziu a testa. — Então onde? Ela olhou para os dois. — No caminho. O silêncio voltou. Valente sorriu devagar. — Emboscada. Barbie apontou para ele com a caneta. — Exato. Ela começou a desenhar uma estrada. — Os caminhões vão sair do galpão e subir em direção ao morro deles. Desenhou uma curva. — Aqui. Valente olhou o ponto. — Estrada industrial. — Pouco movimento à noite — completou Barbie. Dioguinho cruzou os braços. — E? Barbie voltou a desenhar. Duas caixas novas no papel. — A gente coloca dois caminhões nossos aqui. Valente inclinou o corpo sobre a mesa. — Caminhões nossos? — Da favela. — Parados nesse ponto. Ela fez um círculo. — Ponto estratégico. Dioguinho começou a entender. — Espera… Valente abriu um sorriso lento. — A gente intercepta. Barbie assentiu. — Vocês param os caminhões deles. — Rápido. — Sem muito barulho. Ela continuou: — Tiram os motoristas. Dão um jeito neles. — Pegam os caminhões. — E dirigem até esse ponto aqui. Ela apontou para o círculo onde estavam os caminhões deles. Valente já estava imaginando tudo na cabeça. A estrada escura. Os faróis. O susto. A velocidade. — E aí? — perguntou ele. Barbie respondeu sem hesitar: — Transferência. Dioguinho arregalou os olhos. — No meio da estrada? — Não. Ela apontou outro ponto. — Terreno abandonado. Valente olhou. — Aquele depósito velho? Barbie assentiu. — Exatamente. Dioguinho passou a mão na nuca. — Carregar dois caminhões inteiros leva tempo. — Não se tiver gente suficiente — disse ela. Valente estava cada vez mais interessado. — Quantos? Barbie pensou alguns segundos. — Uns dez homens. — Rápidos. — Organizados. Dioguinho balançou a cabeça. — E depois? Barbie girou a caneta entre os dedos. — Depois que a carga estiver nos caminhões nossos… Ela fez um pequeno gesto de explosão com a mão. — Os caminhões deles deixam de existir. Valente deu uma risada baixa. — Fogo. — Fogo — confirmou ela. — Queima tudo. — Provas. — Rastros. — Tudo. Dioguinho respirou fundo. — E os caminhões nossos? Barbie respondeu sem hesitar: — Sobem direto pro Morro das Garças. Valente completou: — Pro bunker. O bunker. O lugar escondido dentro do morro. Concreto. Metal. Câmeras. Ninguém de fora sabia daquilo. Exceto gente grande, que não se metia com qualquer traficante, tipo o Tubarão, ele não confiava em gente de fora pra investir. Confiou em Valente após muito tempo, por isso era tão complicado perder o dinheiro dessa gente. Barbie assentiu. — A carga entra. — E desaparece, ou seja, vira mercadoria, que ninguém pode provar que você fez com material roubado. Silêncio. Os três ficaram olhando o papel. O plano desenhado ali. Cru. Simples. E extremamente arriscado. Dioguinho foi o primeiro a falar. — Isso é loucura. Valente deu uma risada. — É genial. Dioguinho virou para ele. — Tu tá esquecendo uma coisa. — O quê? — Os caras são rivais. Valente deu de ombros. — Eu sei. — Eles vão vir atrás se desconfiarem. — Talvez. Barbie cruzou os braços. — Eles não vão saber quem foi. Dioguinho apontou o desenho. — Caminhões queimados… emboscada… roubo de carga… — Quem mais teria interesse nisso? Tu mesma falou. Valente respondeu antes dela: — Muita gente. Barbie sorriu de leve. — Exatamente. Da mesma forma que o Valente teria interesse, qualquer rival teria. Ela bateu de leve na mesa. — Essa cidade tem muitos jogadores. Dioguinho suspirou. — Ainda assim… Valente se levantou. Caminhou até a janela novamente. Ficou alguns segundos olhando. Depois falou: — A gente precisa dessa carga. Dioguinho também se levantou. — Eu sei. — Mas pode virar guerra. Valente virou de volta. — Guerra já existe. Barbie observava os dois. — A diferença — ela disse — é que agora a gente tem chance de ganhar vantagem. Ela voltou a olhar o papel. — Se esse plano funcionar… Valente terminou a frase: — A gente sai do zero. — E eles ficam no prejuízo. O que faz a gente ganhar mais clientes - os deles, que vão ficar sem matéria-prima para produzir. Dioguinho passou a mão pelo rosto. Pensando. Pesando. Calculando. — Quantos caminhões? Barbie respondeu: — Dois. Valente assentiu. — Eu arrumo. Dioguinho apontou. — Motoristas? Valente sorriu. — Eu dirijo um. Dioguinho bufou. — Claro que dirige. — Tu dirige o outro. — Eu sabia. Barbie voltou a escrever. — Precisamos também de equipe de transferência. Ela começou a listar nomes. Homens confiáveis. Rápidos. Discretos. Valente reconhecia todos. — Esses são bons. — Eu sei, você não faria nenhuma loucura — disse ela. Dioguinho apontou para o mapa. — E o horário? Barbie respondeu: — O moleque disse entre meia-noite e duas. Valente assentiu. — Então a gente começa a se mover antes. Dioguinho respirou fundo. — Isso vai ser uma madrugada longa. Barbie guardou a caneta. — Vai. Valente pegou o papel. Dobrou. Guardou no bolso. — Então tá decidido. Dioguinho ainda parecia inquieto. — Se der errado… Valente abriu um sorriso torto. — Não vai dar. Barbie levantou uma sobrancelha. — Confiança demais costuma dar azar. Valente deu de ombros. — Ou sorte. Ela caminhou até a porta do escritório. Antes de abrir, virou para os dois. — Comecem a preparar os caminhões. — Eu vou organizar o resto. Valente perguntou: — E se a informação for mentira? Barbie abriu a porta. — Então a gente perde uma noite de sono. Ela saiu. Do lado de fora, o galpão continuava cheio de vida. Alice voltou a andar entre as caixas e pessoas como se nada estivesse acontecendo. Mas dentro da cabeça dela o plano já estava sendo montado peça por peça. Enquanto isso, dentro do escritório, Dioguinho olhou para Valente. — Tu percebeu? — O quê? — Ela não hesitou, essa menina veio da cidade, de faculdade, de empresa e não se assusta nada com essa vida de crime. Valente sorriu. — Essa é a Barbie. Dioguinho soltou uma risada curta. — Patricinha do morro. Valente caminhou até a porta também. — A melhor contadora que esse lugar já teve. Ele abriu a porta. — Agora vamos ver se o plano dela funciona. Lá fora, Alice levantou os olhos novamente. E dessa vez o olhar dela encontrou o de Valente com uma intensidade diferente. Como se os dois soubessem. Que naquela noite. O jogo ia mudar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR