O escritório ainda estava silencioso depois que o moleque saiu.
A porta fechou com um estalo seco, e por alguns segundos ninguém falou nada.
Valente ficou parado perto da janela, olhando o movimento do galpão lá embaixo. A rotina seguia normal — caixas sendo carregadas, gente passando, vozes misturadas — mas dentro da cabeça dele a engrenagem já tinha começado a girar.
Devagar.
Pesada.
Perigosa.
Dioguinho quebrou o silêncio primeiro.
— Eu ainda não gosto disso.
Valente não virou.
— Eu sei.
Barbie — ou Alice, dependendo de quem chamava — estava sentada na cadeira atrás da mesa. Os cotovelos apoiados na madeira, os dedos entrelaçados perto da boca.
Ela não parecia nervosa.
Parecia… pensando.
Analisando.
— Repete — ela disse de repente.
Dioguinho olhou para ela.
— O quê?
— Tudo que o moleque falou.
Dioguinho suspirou.
— Que os caras do morro vizinho fizeram um pedido grande de matéria-prima.
Valente virou lentamente.
— A mesma que a gente tá zerado.
Dioguinho continuou.
— Que a carga chega hoje à noite… escondida em caminhões de farmácia.
Barbie assentiu.
— Disfarce inteligente.
— E que os caminhões vão parar num galpão na cidade antes de subir pro morro deles — completou Dioguinho.
Ela ficou alguns segundos quieta.
Os olhos fixos em um ponto da mesa.
Depois falou:
— Então vamos organizar isso.
Valente puxou uma cadeira e sentou de frente pra ela.
— Tô ouvindo.
Barbie levantou, pegou uma folha grande de papel e uma caneta.
Espalhou a folha sobre a mesa.
— Primeiro… — ela começou — precisamos assumir duas coisas.
Ela desenhou um ponto no papel.
— Um: a informação pode ser verdadeira.
Desenhou outro ponto.
— Dois: pode ser armadilha.
Dioguinho apontou.
— Eu fico mais com a segunda.
Ela ignorou o comentário.
— Agora… se for verdade…
Ela desenhou uma linha entre os pontos.
— A gente tem uma oportunidade.
Valente inclinou o corpo para frente.
— Grande.
Barbie concordou.
— Muito grande.
Ela rabiscou outro ponto no papel.
— Esse é o galpão onde os caminhões vão parar.
Valente observava o desenho.
— Cidade grande. Tem centenas de galpões.
— Mas o moleque falou um bairro específico — respondeu ela.
Dioguinho coçou o queixo.
— Ainda assim… é arriscado.
Barbie continuou desenhando.
— Agora vamos pensar no que aconteceria se a gente simplesmente tentasse pegar os caminhões.
Ela desenhou duas linhas saindo do galpão.
— Eles chegam.
— Parados.
— Carregados.
Ela levantou os olhos para os dois.
— E provavelmente vigiados.
Valente concordou.
— Sempre tem alguém.
Dioguinho completou:
— Ou gente armada.
Barbie apoiou a caneta no papel.
— Então invadir o galpão direto seria barulhento.
Ela desenhou um X.
— Não é ideal.
Valente inclinou a cabeça.
— Então qual a tua ideia?
Barbie respirou fundo.
E então começou a desenhar novamente.
Duas caixas.
— Caminhões.
Valente estreitou os olhos.
— Continua.
— A gente não pega a carga no galpão.
Dioguinho franziu a testa.
— Então onde?
Ela olhou para os dois.
— No caminho.
O silêncio voltou.
Valente sorriu devagar.
— Emboscada.
Barbie apontou para ele com a caneta.
— Exato.
Ela começou a desenhar uma estrada.
— Os caminhões vão sair do galpão e subir em direção ao morro deles.
Desenhou uma curva.
— Aqui.
Valente olhou o ponto.
— Estrada industrial.
— Pouco movimento à noite — completou Barbie.
Dioguinho cruzou os braços.
— E?
Barbie voltou a desenhar.
Duas caixas novas no papel.
— A gente coloca dois caminhões nossos aqui.
Valente inclinou o corpo sobre a mesa.
— Caminhões nossos?
— Da favela.
— Parados nesse ponto.
Ela fez um círculo.
— Ponto estratégico.
Dioguinho começou a entender.
— Espera…
Valente abriu um sorriso lento.
— A gente intercepta.
Barbie assentiu.
— Vocês param os caminhões deles.
— Rápido.
— Sem muito barulho.
Ela continuou:
— Tiram os motoristas. Dão um jeito neles.
— Pegam os caminhões.
— E dirigem até esse ponto aqui.
Ela apontou para o círculo onde estavam os caminhões deles.
Valente já estava imaginando tudo na cabeça.
A estrada escura.
Os faróis.
O susto.
A velocidade.
— E aí? — perguntou ele.
Barbie respondeu sem hesitar:
— Transferência.
Dioguinho arregalou os olhos.
— No meio da estrada?
— Não.
Ela apontou outro ponto.
— Terreno abandonado.
Valente olhou.
— Aquele depósito velho?
Barbie assentiu.
— Exatamente.
Dioguinho passou a mão na nuca.
— Carregar dois caminhões inteiros leva tempo.
— Não se tiver gente suficiente — disse ela.
Valente estava cada vez mais interessado.
— Quantos?
Barbie pensou alguns segundos.
— Uns dez homens.
— Rápidos.
— Organizados.
Dioguinho balançou a cabeça.
— E depois?
Barbie girou a caneta entre os dedos.
— Depois que a carga estiver nos caminhões nossos…
Ela fez um pequeno gesto de explosão com a mão.
— Os caminhões deles deixam de existir.
Valente deu uma risada baixa.
— Fogo.
— Fogo — confirmou ela.
— Queima tudo.
— Provas.
— Rastros.
— Tudo.
Dioguinho respirou fundo.
— E os caminhões nossos?
Barbie respondeu sem hesitar:
— Sobem direto pro Morro das Garças.
Valente completou:
— Pro bunker.
O bunker.
O lugar escondido dentro do morro.
Concreto.
Metal.
Câmeras.
Ninguém de fora sabia daquilo. Exceto gente grande, que não se metia com qualquer traficante, tipo o Tubarão, ele não confiava em gente de fora pra investir. Confiou em Valente após muito tempo, por isso era tão complicado perder o dinheiro dessa gente.
Barbie assentiu.
— A carga entra.
— E desaparece, ou seja, vira mercadoria, que ninguém pode provar que você fez com material roubado.
Silêncio.
Os três ficaram olhando o papel.
O plano desenhado ali.
Cru.
Simples.
E extremamente arriscado.
Dioguinho foi o primeiro a falar.
— Isso é loucura.
Valente deu uma risada.
— É genial.
Dioguinho virou para ele.
— Tu tá esquecendo uma coisa.
— O quê?
— Os caras são rivais.
Valente deu de ombros.
— Eu sei.
— Eles vão vir atrás se desconfiarem.
— Talvez.
Barbie cruzou os braços.
— Eles não vão saber quem foi.
Dioguinho apontou o desenho.
— Caminhões queimados… emboscada… roubo de carga…
— Quem mais teria interesse nisso? Tu mesma falou.
Valente respondeu antes dela:
— Muita gente.
Barbie sorriu de leve.
— Exatamente. Da mesma forma que o Valente teria interesse, qualquer rival teria.
Ela bateu de leve na mesa.
— Essa cidade tem muitos jogadores.
Dioguinho suspirou.
— Ainda assim…
Valente se levantou.
Caminhou até a janela novamente.
Ficou alguns segundos olhando.
Depois falou:
— A gente precisa dessa carga.
Dioguinho também se levantou.
— Eu sei.
— Mas pode virar guerra.
Valente virou de volta.
— Guerra já existe.
Barbie observava os dois.
— A diferença — ela disse — é que agora a gente tem chance de ganhar vantagem.
Ela voltou a olhar o papel.
— Se esse plano funcionar…
Valente terminou a frase:
— A gente sai do zero.
— E eles ficam no prejuízo. O que faz a gente ganhar mais clientes - os deles, que vão ficar sem matéria-prima para produzir.
Dioguinho passou a mão pelo rosto.
Pensando.
Pesando.
Calculando.
— Quantos caminhões?
Barbie respondeu:
— Dois.
Valente assentiu.
— Eu arrumo.
Dioguinho apontou.
— Motoristas?
Valente sorriu.
— Eu dirijo um.
Dioguinho bufou.
— Claro que dirige.
— Tu dirige o outro.
— Eu sabia.
Barbie voltou a escrever.
— Precisamos também de equipe de transferência.
Ela começou a listar nomes.
Homens confiáveis.
Rápidos.
Discretos.
Valente reconhecia todos.
— Esses são bons.
— Eu sei, você não faria nenhuma loucura — disse ela.
Dioguinho apontou para o mapa.
— E o horário?
Barbie respondeu:
— O moleque disse entre meia-noite e duas.
Valente assentiu.
— Então a gente começa a se mover antes.
Dioguinho respirou fundo.
— Isso vai ser uma madrugada longa.
Barbie guardou a caneta.
— Vai.
Valente pegou o papel.
Dobrou.
Guardou no bolso.
— Então tá decidido.
Dioguinho ainda parecia inquieto.
— Se der errado…
Valente abriu um sorriso torto.
— Não vai dar.
Barbie levantou uma sobrancelha.
— Confiança demais costuma dar azar.
Valente deu de ombros.
— Ou sorte.
Ela caminhou até a porta do escritório.
Antes de abrir, virou para os dois.
— Comecem a preparar os caminhões.
— Eu vou organizar o resto.
Valente perguntou:
— E se a informação for mentira?
Barbie abriu a porta.
— Então a gente perde uma noite de sono.
Ela saiu.
Do lado de fora, o galpão continuava cheio de vida.
Alice voltou a andar entre as caixas e pessoas como se nada estivesse acontecendo.
Mas dentro da cabeça dela o plano já estava sendo montado peça por peça.
Enquanto isso, dentro do escritório, Dioguinho olhou para Valente.
— Tu percebeu?
— O quê?
— Ela não hesitou, essa menina veio da cidade, de faculdade, de empresa e não se assusta nada com essa vida de crime.
Valente sorriu.
— Essa é a Barbie.
Dioguinho soltou uma risada curta.
— Patricinha do morro.
Valente caminhou até a porta também.
— A melhor contadora que esse lugar já teve.
Ele abriu a porta.
— Agora vamos ver se o plano dela funciona.
Lá fora, Alice levantou os olhos novamente.
E dessa vez o olhar dela encontrou o de Valente com uma intensidade diferente.
Como se os dois soubessem.
Que naquela noite.
O jogo ia mudar.