Vaga de Emprego

1323 Palavras
O silêncio dentro do escritório parecia pesado. O ar condicionado soprava suavemente. O som era quase imperceptível. Mas naquele momento… Qualquer ruído parecia alto demais. Alice ainda estava parada a alguns passos da mesa do pai. Os braços ao lado do corpo. O olhar alternando entre Valente e o pai dela. O cérebro dela ainda tentava entender exatamente o que estava acontecendo. Porque aquilo… Aquilo tinha escalado rápido demais. Bruno Valente tinha entrado naquela sala como um furacão silencioso. Mentido. Inventado um pai. Inventado uma história. Inventado uma posição social inteira. E o pior… O pai dela estava acreditando. Ou pelo menos fingindo acreditar. E agora… Ele ainda estava ali. No meio da sala. Tranquilo. Relaxado. Como se estivesse acostumado a circular naquele tipo de ambiente. Como se aquele escritório milionário fosse apenas mais um lugar comum na vida dele. Bruno virou levemente o corpo. Olhou para Alice. Como se estivesse vendo ela pela primeira vez. De verdade. E então disse: — Bom… Ele estendeu a mão. — Eu não conheço essa moça. Alice entendeu imediatamente. Era teatro. Puro teatro. Ela deu um passo à frente. E apertou a mão dele. Mas apertou com mais força do que o necessário. Um aviso silencioso. Um “não exagera” ou talvez um "eu te mato". Os olhos azuis dela encontraram os dele por um segundo. E então ela respondeu. Perfeitamente dentro do papel. — Alice. Ela inclinou levemente a cabeça. Elegante. Educada. — Alice Prado. Ela olhou rapidamente para o pai. Depois voltou para Bruno. — Filha do Marcos Prado. O pai dela estava olhando. Confuso. Muito confuso. Porque aquela situação tinha virado algo completamente diferente do que ele esperava. Bruno arregalou levemente os olhos. Como se tivesse acabado de perceber algo. — Ah… Ele soltou uma pequena risada surpresa. — Então você que é a tal Alice. Ele apertou novamente a mão dela. Dessa vez mais breve. — Prazer te conhecer. Alice sustentou o sorriso. Educado. Profissional. Como se fosse apenas uma reunião de negócios. Bruno continuou. — Você apresentou um projeto incrível para o meu pai. Alice quase riu. Mas conseguiu manter a expressão controlada. Bruno seguiu falando. Natural. Confiante. — Ele adorou. O pai dela franziu a testa. Claramente tentando acompanhar a conversa. Bruno olhou novamente para Alice. — Você lida bem com números, né? Ela assentiu. — Eu gosto. Bruno inclinou levemente a cabeça. Como se estivesse analisando. — Já pensou em ser contadora? Alice piscou. Por um segundo. E então respondeu imediatamente. — Já sou. Ela cruzou as mãos na frente do corpo. — Recém formada. O pai dela abriu a boca. Claramente tentando entrar na conversa. — Alice… Mas ela continuou. Ignorando completamente. — Só que… Ela deu um pequeno sorriso educado. — Meu pai não costuma dar muito espaço para eu fazer o que quero nas empresas da família. Você acredita? Eu me formei só pra trabalhar aqui, mas ele prefere colocar a minha irmã pra fazer um monte de burradas, é que ela e marionete dele sabe? O silêncio caiu pesado. O pai dela ficou imóvel. Os olhos dele estreitaram levemente. Valente manteve a expressão neutra. Mas por dentro… Ele estava quase rindo. Alice continuou. — Então estou procurando emprego. Ela olhou diretamente para Bruno. — Você não teria uma vaga nas empresas do seu pai? Já que ele gostou do meu trabalho... Aquilo foi claramente uma provocação. Direta. Cirúrgica. O pai dela percebeu. E o rosto dele ficou mais rígido. Bruno abriu um sorriso. Um sorriso grande. Confiante. — Isso é ótimo. Ele deu um pequeno passo para o lado. — Temos uma vaga sim. Alice inclinou levemente a cabeça. Interessada. — Tem? — Claro. Bruno colocou as mãos nos bolsos da calça. — Meu pai sempre diz que bons profissionais são difíceis de encontrar. Ele olhou para Alice com um ar avaliador. — E alguém que apresentou um projeto como o seu… Ele deu de ombros. — Parece uma boa contratação. O pai dela finalmente interveio. — Eu acho… A voz dele era controlada. Mas claramente tensa. — Que vocês dois podem conversar sobre isso em outro lugar. O tom era educado. Mas havia algo ali. Algo duro. Algo que dizia claramente: Essa conversa acabou. Alice virou a cabeça lentamente. O olhar dela encontrou o do pai. E por um segundo… Os dois ficaram apenas se encarando. Um duelo silencioso. Então Alice respirou fundo. E assentiu. — Tudo bem. Ela voltou o olhar para Bruno. — Podemos conversar sobre isso depois. Vamos trocar contato? Bruno assentiu. — Claro. Ele deu um passo para trás. A postura relaxada. — Foi um prazer conhecer você. Alice sorriu novamente. Profissional. Educada. — Igualmente. Então ela virou. Caminhou até a porta. Bruno esperou um segundo. Como se estivesse dando espaço. E então seguiu atrás. Mas mantendo alguns passos de distância. Como se realmente fossem apenas dois desconhecidos. A porta de vidro se abriu. E se fechou atrás deles. No corredor… O silêncio voltou. O carpete absorvia o som dos passos. As secretárias continuavam trabalhando. Digitando. Falando baixo ao telefone. Como se nada tivesse acontecido. Alice caminhou primeiro. Bruno logo atrás. Alguns metros de distância. Até que viraram a esquina do corredor. E desapareceram do campo de visão do escritório. Alice continuou andando. Rápido. Firme. Até chegar perto dos elevadores. Ela apertou o botão. Esperou. As portas se abriram. Ela entrou. Bruno entrou logo depois. As portas se fecharam. E no momento em que o elevador começou a descer… Alice virou. E olhou para ele. Os olhos dela estavam arregalados. Mistura de surpresa. Irritação. E algo mais. — O que foi aquilo? Bruno deu de ombros. — Improviso. Alice cruzou os braços. — Você inventou um pai. — Foi a primeira coisa que veio na cabeça. — Roberto? — Nome comum. Ela ficou olhando para ele. Ainda tentando processar. — Você mentiu como se fizesse isso todo dia. Bruno inclinou levemente a cabeça. — Mas é que eu faço. Alice piscou. — Como assim? Ele deu um pequeno sorriso. — Negócios. O elevador continuou descendo. Silencioso. Alice soltou o ar lentamente. — Meu Deus… Ela passou a mão no rosto. — Meu pai acreditou. Bruno respondeu com calma. — Ele quis acreditar. Ela olhou para ele. — Como assim? Bruno apoiou as mãos nos bolsos novamente. — Gente como seu pai… Ele inclinou a cabeça levemente. — Tem medo de errar com quem tem dinheiro. Alice ficou em silêncio. Porque… Aquilo fazia sentido demais. O elevador chegou ao térreo. As portas se abriram. Eles saíram. E novamente… Voltaram ao mesmo jogo. Distância. Postura profissional. Como se não se conhecessem. Passaram pela recepção. A recepcionista levantou os olhos. Olhou para Bruno rapidamente. Ele apenas deu um pequeno sorriso discreto. Ela entendeu. E voltou a olhar para o computador. Alice saiu primeiro do prédio. O sol da tarde iluminava a entrada. Bruno saiu logo depois. Os dois caminharam até o SUV preto. Alice parou ao lado da porta. Virou para ele. E então… Finalmente deixou escapar um sorriso verdadeiro. — Aquilo foi… Ela balançou a cabeça. — Impressionante. Bruno abriu a porta do carro para ela. — Eu só improvisei. Ela entrou. — Não. Ela colocou o cinto. — Você salvou a situação. Bruno fechou a porta. Deu a volta. Entrou no lado do motorista. Ligou o carro. O motor roncou suavemente. Ele colocou o cinto. Olhou para frente. E disse com calma: — Agora… Ele colocou o carro em movimento. — Vamos embora antes que seu pai descubra quem eu realmente sou. Alice olhou para ele. Curiosa. — E quem você realmente é, Bruno? Ele deu um pequeno sorriso. Mas não respondeu. O carro saiu do estacionamento. E voltou para a cidade. Enquanto no décimo segundo andar… Dentro do escritório de vidro… Marcos Prado ainda estava parado. O olhar fixo na porta por onde eles tinham saído. E pela primeira vez em muito tempo… Ele estava se sentindo um perdedor.
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