CAPÍTULO 11

581 Palavras
Helena Eu achava que Damian fosse apenas intenso. Achava que seus olhares demorados e seus gestos calculados fossem parte da personalidade dele , o tipo de homem que comandava salas, empresas e até silêncios com a mesma facilidade. Mas agora eu sei, isso não é apenas personalidade. É controle. E, pior ainda… ele está começando a praticar isso comigo. A primeira coisa estranha acontece logo cedo. Quando chego à empresa, antes mesmo de ligar meu computador, encontrei uma pasta organizada sobre minha mesa. Não era para estar ali. Não foi deixada por mim. Julia não faz isso. Ninguém faz. E na capa está escrito: “Relatórios prioritários , para serem revisados HOJE.” Eu franzo a testa. Não lembro de ter recebido nada disso. Nem por e-mail. Quando ainda estou tentando entender, a porta se abre. — Vejo que já encontrou sua nova rotina — a voz dele corta o ar como uma lâmina. Eu congelo. Damian está encostado no batente da porta, mãos nos bolsos, expressão indecifrável, e aquele olhar preso em mim como se estivesse avaliando até a forma como respiro. — Eu, não sabia que isso era para hoje — respondo, tentando manter a voz firme. — Agora sabe. — Ele dá um passo para dentro da sala. — Prefiro que tenha tudo sob controle logo cedo. “Prefiro.” “Que tenha.” Tão natural, tão simples. Como se ele tivesse o direito de decidir o ritmo da minha vida. Ele se aproxima de minha mesa e coloca outro envelope, este menor. — E a partir de hoje, você vai almoçar nos horários recomendados. — O som da voz dele não admite discussão. — Não quero você saindo sozinha pela cidade. Eu estreito os olhos. — Isso não é… parte do meu trabalho. — Não. — Ele inclina a cabeça, como alguém que observa um animal arisco. — É parte da sua segurança. A palavra fica presa no ar. Segurança. Ele diz como se fosse algo pessoal. Como se eu pertencesse ao campo de preocupação dele. Ou pior como se eu fosse dele. — Damian, não precisa se preocupar comigo. Ele sorri. Mas não é um sorriso normal. É um sorriso lento, perigoso. Um sorriso que diz exatamente o contrário: Eu já me preocupo. E você não tem como impedir. — Preocupo sim — ele diz, aproximando-se mais um passo. — É inevitável. Meu coração dispara. — Você está exagerando. — Não. — O tom dele é suave demais para ser tranquilizador. — Estou apenas cuidando do que é meu. Eu sinto o chão sumir. — Eu não sou “sua”. Ele inclina o corpo para frente, ficando a poucos centímetros do meu rosto. O cheiro dele — madeira escura, algo proibido — me envolve. — Ainda não — ele murmura. Aquela frase ricocheteia dentro de mim, me tirando o ar. E enquanto ele sai da minha sala, deixando para trás um rastro de tensão e perguntas que eu não consigo formular, percebo que esse foi apenas o começo. Ele está começando pequeno, meus horários, minhas tarefas, meus passos. Mas, se eu não tomar cuidado. Logo serão minhas escolhas. Minha vida. E talvez até meu coração , mesmo que eu lute contra isso. Porque, no fundo, algo me diz que Damian nunca faz nada por acaso. Cada “preocupação”, cada “orientação”, cada “recomendação”, é um fio. E ele está começando a tecer a teia ao meu redor.
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