Helena
Eu achava que Damian fosse apenas intenso.
Achava que seus olhares demorados e seus gestos calculados fossem parte da personalidade dele , o tipo de homem que comandava salas, empresas e até silêncios com a mesma facilidade.
Mas agora eu sei, isso não é apenas personalidade.
É controle.
E, pior ainda… ele está começando a praticar isso comigo.
A primeira coisa estranha acontece logo cedo.
Quando chego à empresa, antes mesmo de ligar meu computador, encontrei uma pasta organizada sobre minha mesa.
Não era para estar ali. Não foi deixada por mim. Julia não faz isso. Ninguém faz.
E na capa está escrito:
“Relatórios prioritários , para serem revisados HOJE.”
Eu franzo a testa.
Não lembro de ter recebido nada disso. Nem por e-mail.
Quando ainda estou tentando entender, a porta se abre.
— Vejo que já encontrou sua nova rotina — a voz dele corta o ar como uma lâmina.
Eu congelo.
Damian está encostado no batente da porta, mãos nos bolsos, expressão indecifrável, e aquele olhar preso em mim como se estivesse avaliando até a forma como respiro.
— Eu, não sabia que isso era para hoje — respondo, tentando manter a voz firme.
— Agora sabe. — Ele dá um passo para dentro da sala.
— Prefiro que tenha tudo sob controle logo cedo.
“Prefiro.”
“Que tenha.”
Tão natural, tão simples.
Como se ele tivesse o direito de decidir o ritmo da minha vida.
Ele se aproxima de minha mesa e coloca outro envelope, este menor.
— E a partir de hoje, você vai almoçar nos horários recomendados.
— O som da voz dele não admite discussão.
— Não quero você saindo sozinha pela cidade.
Eu estreito os olhos.
— Isso não é… parte do meu trabalho.
— Não. — Ele inclina a cabeça, como alguém que observa um animal arisco.
— É parte da sua segurança.
A palavra fica presa no ar.
Segurança.
Ele diz como se fosse algo pessoal.
Como se eu pertencesse ao campo de preocupação dele.
Ou pior como se eu fosse dele.
— Damian, não precisa se preocupar comigo.
Ele sorri. Mas não é um sorriso normal.
É um sorriso lento, perigoso.
Um sorriso que diz exatamente o contrário:
Eu já me preocupo. E você não tem como impedir.
— Preocupo sim — ele diz, aproximando-se mais um passo.
— É inevitável.
Meu coração dispara.
— Você está exagerando.
— Não. — O tom dele é suave demais para ser tranquilizador.
— Estou apenas cuidando do que é meu.
Eu sinto o chão sumir.
— Eu não sou “sua”.
Ele inclina o corpo para frente, ficando a poucos centímetros do meu rosto.
O cheiro dele — madeira escura, algo proibido — me envolve.
— Ainda não — ele murmura.
Aquela frase ricocheteia dentro de mim, me tirando o ar.
E enquanto ele sai da minha sala, deixando para trás um rastro de tensão e perguntas que eu não consigo formular, percebo que esse foi apenas o começo.
Ele está começando pequeno, meus horários, minhas tarefas, meus passos.
Mas, se eu não tomar cuidado.
Logo serão minhas escolhas.
Minha vida.
E talvez até meu coração , mesmo que eu lute contra isso.
Porque, no fundo, algo me diz que Damian nunca faz nada por acaso.
Cada “preocupação”, cada “orientação”, cada “recomendação”, é um fio.
E ele está começando a tecer a teia ao meu redor.