CAPÍTULO 1

1543 Palavras
O Suv da família Willis estava saindo da cidade grande para uma cidade pequena. Thomas tinha sido chamado para ser o novo xerife da cidade. Annabella observou a placa de metal enferrujada balançar com o vento: Bem-vindos a Silver Falls. O GPS do celular já não tinha sinal há quilômetros, mas ela não precisava dele para saber que estava longe de casa. O silêncio daquela floresta era pesado, quase sólido. Thomas está focado na estrada, tentando convencer a todos (e a si mesmo) de que essa mudança é o melhor para o futuro deles. Abigail está tentando ser a otimista, organizando a nova casa mentalmente, mas Annabella está com o rosto colado no vidro, vendo os prédios serem substituídos por árvores gigantescas. Annabella, querida, você vai ver... o ar aqui é mais puro. Vai ser ótimo para os seus estudos — disse Abigail, virando-se para o banco de trás com um sorriso encorajador. — É, "puro" e gelado, mãe — Annabella respondeu, observando a neblina começar a lamber o capô do carro. — Dá uma chance, Bella — Thomas interveio, olhando pelo retrovisor. — Silver Falls (ou o nome que você escolher para a cidade) pode não ter shoppings em cada esquina, mas tem história. E a faculdade onde você vai estudar é uma das mais respeitadas da região. O SUV da família Willis parou diante da nova casa, uma construção vitoriana que parecia observar a floresta. Thomas desligou o motor e suspirou, ajustando o coldre na cintura. — Nova cidade, nova vida — disse ele, tentando soar otimista para Abigail e Annabella. — Aqui é calmo, Bella. Sem perseguições em alta velocidade, sem crimes de gangues. O máximo que vou ter que enfrentar é um urso atravessando a rua. Abigail sorriu, apertando a mão do marido, mas Annabella olhou para as árvores densas que cercavam a propriedade. Ela teve a sensação estranha de que os olhos da floresta estavam devolvendo o olhar. — Só espero que os ursos daqui sejam amigáveis, pai — murmurou Annabella, saindo do carro e sentindo o ar gelado bater em seu rosto. Thomas e Abigail estão dentro da casa, discutindo onde ligar o aquecedor e como organizar a cozinha. Annabella, querendo um momento de paz, vai até o porta-malas do SUV para pegar sua caixa de equipamentos fotográficos (ou livros favoritos). O sol já se pôs, e a luz da lua começa a filtrar entre os pinheiros. O ar de Silver Falls era diferente de tudo o que Annabella conhecera na cidade grande. Era pesado, úmido e carregava um cheiro metálico de terra molhada. Ela lutava com uma caixa de papelão pesada no porta-malas quando o silêncio da propriedade foi quebrado. Crec. Um galho seco partiu sob um peso considerável. Annabella congelou. Seus olhos varreram a linha das árvores, onde as sombras pareciam se mover. Um calafrio, que não era apenas pelo frio de 5°C, subiu por sua espinha. Mas, antes que pudesse gritar pelo pai, uma silhueta alta emergiu da penumbra. — Precisa de ajuda com as caixas? A voz era rouca, profunda, com uma vibração que Annabella sentiu no próprio peito. Ela se virou bruscamente. Era um rapaz. Ele aparentava ter a idade dela, mas havia algo de ancestral em seu olhar. Usava apenas uma camiseta de flanela aberta sobre uma regata, revelando braços fortes e uma pele que parecia brilhar sob a lua. Enquanto Annabella tremia sob camadas de lã, ele parecia estar em um dia de verão. O vapor que saía de sua boca era a única prova de que o ar estava gelado. — Eu... eu dou conta — ela gaguejou, mas as mãos de Dylan já alcançavam a caixa. Quando os dedos dele roçaram os dela, Annabella quase deu um salto. Não foi um toque comum. Foi como encostar em uma brasa viva. O calor que emanava dele era tão intenso, tão vital, que o frio ao redor pareceu desaparecer por um segundo. — Sou o Dylan. Dylan Cooper — ele disse, mantendo os olhos fixos nos dela. — Moro logo depois daquela trilha. Annabella sentiu uma eletricidade estranha percorrer seus braços. Ela não sabia explicar, mas algo naquela proximidade parecia perigoso e, ao mesmo tempo, inevitável. Depois que Dylan entrega a última caixa e se despede com aquele olhar intenso que parece atravessar a alma de Annabella, ele caminha em direção à linha das árvores. Annabella ficou paralisada por alguns segundos, sentindo o calor de Dylan ainda vibrando em suas palmas, apesar do vento gélido de Silver Falls ter voltado a fustigar seu rosto. Ela o observou caminhar com uma leveza estranha para um homem daquele tamanho. Ele não parecia lutar contra o terreno acidentado; ele fluía por ele. — Dylan! — ela chamou, sem saber exatamente por quê. Talvez apenas para ouvir aquela voz rouca mais uma vez. Mas não houve resposta. Em um piscar de olhos, entre o tronco de um carvalho e a sombra de um pinheiro, ele simplesmente... sumiu. Não foi como se tivesse corrido; foi como se a própria floresta o tivesse engolido. Intrigada e com o coração batendo rápido, Annabella deu alguns passos em direção à trilha onde ele estivera parado um segundo atrás. Ela pegou o celular, usando a lanterna para iluminar o chão lamacento e coberto por uma fina camada de geada. — Mas o quê...? — ela sussurrou para si mesma. Onde deveriam estar as marcas de botas pesadas ou pegadas humanas nítidas, havia algo diferente. As marcas eram leves demais para o peso dele, quase imperceptíveis, e logo à frente, onde a floresta se fechava, Annabella viu algo que a fez recuar: uma única pegada, grande e profunda, que lembrava a de um animal enorme, mas com uma anatomia que ela não conseguia identificar. Antes que pudesse analisar melhor, um uivo baixo e prolongado ecoou vindo das profundezas da mata. Não era um som de dor, era um chamado. — Annabella! Entre agora! — a voz de Thomas, firme e autoritária da varanda, quebrou o transe. O Xerife estava com a mão no coldre, os olhos fixos na escuridão onde Dylan desaparecera. — Eu já disse que esses ursos não são brincadeira. Annabella está em seu novo quarto. As caixas ainda estão semimontadas, mas ela já colocou suas câmeras sobre a escrivaninha. A casa range com o vento, um som que ela ainda não aprendeu a ignorar. Annabella apagou a luminária, mas o quarto não ficou escuro. A lua, em uma fase que parecia grande demais para ser real, banhava tudo com um brilho prateado e frio. Ela se aproximou da janela e encostou a testa no vidro gelado, olhando para a linha das árvores onde Dylan desaparecera. Suas mãos ainda formigavam. Ela olhou para as palmas, esperando ver alguma marca do calor de Dylan, mas não havia nada além de sua própria pele pálida. Lá fora, o silêncio da floresta era absoluto, até que um vulto escuro cruzou a clareira em uma velocidade impossível. É o cansaço, Bella. Apenas o cansaço — sussurrou para si mesma, puxando o edredom até o queixo. Mas, antes de fechar os olhos, ela teve a nítida sensação de que não estava sozinha. Alguém, ou algo, estava lá fora, protegendo-a... ou esperando por ela. E o eclipse, ela sabia, estava apenas começando a projetar sua sombra sobre Silver Falls. O sol de Silver Falls era tímido, escondido atrás de uma camada perpétua de nuvens cinzentas. Annabella apertou as alças da mochila, sentindo-se pequena diante dos arcos góticos da Faculdade de Direito. O prédio parecia um castelo medieval transplantado para o meio do nada. Lá dentro, o burburinho dos estudantes ecoava nos corredores de mármore. Diferente da floresta, aqui tudo tinha regras, horários e lógica. Ou pelo menos era o que ela pensava até se perder no terceiro andar, procurando a sala de Introdução ao Estudo do Direito. — Você está no bloco errado, sabia? A voz não era rouca como a de Dylan. Era límpida, polida e carregava uma nota de diversão aristocrática. Annabella se virou e deu de cara com Luke Foster. Enquanto todos ao redor pareciam apressados e levemente desgrenhados, Luke parecia ter saído de uma pintura. Ele não carregava livros, apenas um tablet elegante, e sua pele tinha a textura do alabastro. O ar ao redor dele era curiosamente frio, um contraste gritante com o calor que ainda parecia queimar na memória de Annabella desde a noite anterior. — O bloco C fica para o outro lado, Annabella Willis. Ela se sobressaltou. Um rapaz estava parado a poucos passos, encostado em uma pilastra de mármore. Ele era pálido, com traços tão perfeitos que pareciam esculpidos, e vestia um suéter escuro que parecia caro demais para um estudante comum. — Como você sabe o meu nome? — ela perguntou, tentando controlar o ritmo do coração. Ele deu um passo à frente, e o som dos seus sapatos no chão foi quase imperceptível. O sorriso dele não chegava aos olhos, que eram de um castanho tão profundo que pareciam quase pretos. — Eu vi a lista de chamada. Sou Luke Foster, o monitor da sua turma — ele disse, com uma voz calma e melodiosa. — Você parece um pouco... perdida. Deixe-me acompanhá-la.
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