Capítulo 2

1124 Palavras
Nos dias que se seguiram, Lara tentou fingir que nada tinha mudado. Acordava cedo, tomava café olhando pela janela, seguia para o escritório, do escritório direto para a faculdade e voltava para casa, lia algumas páginas de um livro qualquer e dormia tarde demais. Tudo como antes. Mas havia um ruído novo entre os pensamentos, uma lembrança persistente — o som da voz dele, o olhar que parecia atravessar até o que ela mesma escondia. Dam. Ela repetia o nome em silêncio, como quem experimenta uma palavra que não devia dizer em voz alta. Não sabia se aquele era mesmo o nome dele. Mas era o que ele deixara, e bastava. Nos primeiros dias, prometeu a si mesma que não voltaria à marina. O lugar era seu refúgio — o espaço onde pensava, escrevia, respirava. Agora, no entanto, estava contaminado por uma presença. Voltar seria admitir que sentia falta. E sentir falta de alguém que m*l conhecia parecia uma fraqueza. Mesmo assim, nas noites em que o sono se tornava impossível, ela se via olhando para o relógio e calculando quanto tempo levaria até lá. Vinte e cinco minutos. Vinte e cinco minutos até o mesmo pôr do sol, o mesmo vento, talvez o mesmo homem. Mas ela não ia. Pelo menos não nos primeiros dias. Dam, por outro lado, também tentava se manter distante. Desde o primeiro encontro, algo nele havia desajustado. Não era o tipo de homem que se deixava afetar facilmente. Tinha o hábito de controlar tudo, palavras, emoções, horários, distâncias. Mas Lara tinha entrado em sua vida como o vento que muda o rumo das águas: leve, inesperado e impossível de conter. Nos dias que seguiram, evitou a marina. Cada vez que pensava em voltar, lembrava do olhar dela, aquele olhar curioso, quase inocente, que o fazia sentir culpa e desejo ao mesmo tempo. Era perigoso. Ele sabia. Tentou ocupar a mente com o trabalho, com os problemas pendentes, com o irmão que adorava se meter em encrenca. Mas nada preenchia. À noite, a lembrança dela voltava, insistente. O som da risada, o jeito como o cabelo dela caía sobre o ombro, a forma como ela o observava como quem tenta decifrar um enigma. Uma noite, encostado na janela do apartamento, olhou o reflexo do próprio rosto no vidro e pensou: “Ela é o tipo de pessoa que não devia cruzar o meu caminho. E é justamente por isso que cruzou.” No quinto dia, Lara cedeu. Não admitiria, nem para si mesma, que esperava encontrá-lo. Saiu mais cedo do trabalho, dirigiu até a marina e estacionou longe, como se a distância pudesse mascarar a intenção. O céu estava tingido de dourado e rosa, o vento trazia o cheiro de água e grama. Ficou alguns minutos dentro do carro, olhando o reflexo do lago, tentando se convencer de que só precisava respirar. Mas o coração batia rápido demais para ser apenas isso. Quando finalmente desceu, o barulho dos próprios passos sobre a madeira pareceu alto demais. O lugar estava vazio. Ela sorriu, sem saber se por alívio ou decepção. Parte dela esperava vê-lo, mesmo que tivesse prometido o contrário. E parte se sentia tola por isso. Sentou-se na beira do deque e deixou as pernas balançarem sobre a água. O reflexo do sol fazia o lago parecer líquido de ouro. E, pela primeira vez, ela se deu conta de que não se lembrava direito do rosto dele — apenas dos olhos. Os olhos eram o que mais a perturbava. Ficou ali até o sol sumir por completo, tentando convencer o coração de que o acaso já havia cumprido seu papel. Mas, enquanto voltava para o carro viu o carro dele estacionado no mesmo ponto em que havia quebrado antes. Dam estava encostado no capô, de braços cruzados, usando jeans escuro, camiseta simples, o cabelo bagunçado pelo vento. O coração de Lara falhou uma batida. Por um instante, nenhum dos dois falou. O tempo pareceu segurar a respiração. Lara parou a alguns metros, surpresa e, ao mesmo tempo, estranhamente calma. - Vim tentar devolver o silêncio que tirei de você da última vez - Dam disse em fim sorrindo de leve erguendo o olhar e encontrando os dela. — E vai conseguir ? — perguntou ela, cruzando os braços. — Acredito que não. — Ele deu um passo à frente. — O silêncio já foi quebrado novamente. O vento soprou forte, bagunçando o cabelo dela e levantando o cheiro doce do seu shampoo Dam observou cada gesto, a forma como ela desviava o olhar, o jeito inquieto das mãos. Ela era jovem demais, e ele sabia disso. Mas havia uma força nela que o desarmava, algo entre curiosidade e coragem. — Achei que não voltaria — ela começou, mas a voz falhou. — — Eu também achei. — Ele deu um meio sorriso. — Mas parece que fiquei - péssimo em manter distância. - ele deu um sorriso irônico — Você não devia estar aqui sozinha — disse ele, por fim. — E você não devia voltar pra um lugar que não é seu. — rebateu ela. Dam riu baixo. — Toque justo - Ele se aproximou, devagar. — Talvez eu tenha pego o caminho errado novamente — E o que você vai fazer a respeito disso? - perguntou ela provocando — Nesse momento estou inclinado a fingir que não percebi o caminho errado. O silêncio voltou, mas era outro tipo de silêncio. Um que carregava algo invisível, uma tensão que nem o vento conseguia dissipar. — Então... Dam é seu nome mesmo? -perguntou ela para quebrar o silêncio cheio de tensão entre os dois. Ele deu um meio sorriso. — É o suficiente por enquanto. Lara retribuiu o sorriso, mas dentro dela algo se embaralhava. Não era apenas curiosidade. Era como se o desconhecido nele a atraísse mais do que o que ela já sabia sobre o mundo. O sol começou a se pôr, tingindo o céu de cobre e violeta. Dam olhou o relógio, suspirou. — Tenho que ir. — Tao rápido — ela murmurou, quase sem querer. Ele a olhou por um instante longo demais, como se quisesse responder, mas não pudesse. — Às vezes é mais seguro assim — disse, antes de entrar no carro. Quando o motor ligou e o carro começou a se afastar, Lara sentiu o coração apertar. Sabia que ele não era o tipo de homem que aparecia por acaso. E, ainda assim, desejava que voltasse. Enquanto o som do motor se perdia na estrada, ela percebeu que a marina o seu santuário já não era mais um refúgio. Era o ponto de partida de algo que ela não sabia nomear, mas que, de alguma forma, já a tinha tomado por completo.
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