Capítulo 19

1133 Palavras
O relógio marcava quase duas da manhã quando Dam estacionou o carro em frente à casa. A brisa fria da madrugada cortava o ar, mas o que realmente o gelava vinha de dentro. As mãos ainda tremiam sobre o volante, e a lembrança do toque de Lara o gosto, o cheiro, o olhar parecia tatuada na pele. Fechou os olhos, respirando fundo, tentando conter o turbilhão. O peito doía. Culpa, desejo e amor se misturavam em um nó impossível de desfazer. O que eu fiz… A voz dele soou baixa, rouca, quase irreconhecível. Por mais que tentasse se convencer de que aquele beijo havia sido um impulso, ele sabia, não havia sido fraqueza. Era amor. Um amor que não deveria mais existir. Quando entrou em casa, encontrou Gabriel, sentado no sofá, Gabriel levantou a cabeça assim que o viu. O olhar do irmão mais novo misturava alívio e preocupação. — Cara, onde você se enfiou? — a voz de Gabriel veio calma, mas havia um fundo de preocupação. — Tentei te ligar várias vezes. Dam passou a mão pelo rosto, exausto. — Saí pra clarear a cabeça. Só isso. Como você entrou aqui. — A chave extra que me deixou antes de partir - Ele apontou para a chave jogada em cima da mesa. - Tá com uma cara de quem carregou o mundo nas costas. — Gabriel riu, mas o olhar era sério. — Você está bem? Dam hesitou. Havia algo diferente um cansaço que ia além do físico. Dam soltou uma risada curta, sem humor. — Nem sei o que é estar bem ultimamente. Gabriel se encostou no sofá, cruzando os braços. — Quer falar sobre isso? Dam hesitou. Parte dele queria calar, enterrar tudo, apagar o beijo, o nome dela, o peso que carregava desde que voltara. Mas a outra parte, a parte cansada de fugir precisava dizer algo, qualquer coisa, antes de implodir. — Você já amou alguém a ponto de sentir que respirar dói? Gabriel franziu o cenho. — Já. — E já teve que abrir mão dessa pessoa… por algo que parecia maior que o próprio sentimento? Gabriel pensou em Lara por um instante, mas o tom do irmão o impediu de interromper. Dam desviou o olhar, não conseguia encarar o irmão agora. O silêncio entre eles se estendeu. Gabriel o observava com curiosidade, mas também com empatia genuína. Sempre fora assim o irmão que ouvia, o que tentava entender, o que perdoava. Dam o invejava por isso. Pela leveza. Pela pureza de quem ainda acreditava que o amor podia ser simples. — Então é sobre alguém.— disse Gabriel, enfim. — Uma mulher. Dam riu, sem humor. — Sempre é, não é? — E ela é... importante? — Importante não é nem a palavra. — Dam respirou fundo, os olhos vagando até o vazio. — Ela é a única. Eu tentei fazer o certo, sabe? Fui embora achando que estava protegendo todo mundo. Que o tempo ia apagar o que eu sentia. Fez uma pausa longa. — Mas o tempo só fez piorar. Gabriel o observava em silêncio, atento. A sinceridade na voz do irmão o comoveu.— E por que a deixou? — perguntou. — Se ela era tão importante, por que deixar? Dam olhou para o copo, como se as respostas estivessem afogadas ali. — Porque às vezes o certo é o que mais machuca. — E agora? — Agora eu não sei. — suspirou. — Voltei achando que conseguiria seguir em frente, mas... é como se o destino tivesse decidido brincar comigo. Como se cada esquina me lembrasse do que eu não devia sentir. — Se é alguém que te marcou assim, talvez valha a pena tentar consertar. Dam engoliu em seco, a frase ecoando como um castigo. Consertar. A garganta apertou. Ele não respondeu apenas assentiu, como quem agradece por um conselho que jamais poderá seguir. Gabriel encostou-se no sofá, pensativo. — Você parece dividido. — Porque eu Tô. — Dam admitiu. — Entre o que quero e o que devo. Entre o amor e a lealdade. — Lealdade? — Gabriel arqueou a sobrancelha. — A quem? Dam o fitou, e por um segundo — É difícil explicar — respondeu por fim desviando o olhar. Gabriel assentiu lentamente, respondeu, sorrindo de leve. — Mas eu acredito que o amor não deveria doer desse jeito. Se tá te matando, talvez não seja amor. Dam olhou para ele com uma tristeza silenciosa. — Não é o amor que está me matando — corrigiu Dam, quase num sussurro. — É saber que talvez ela já tenho outro para amar. Que alguém que a encontrou quando eu a deixei para trás, que a faz sorrir como antes eu fazia. Gabriel ficou imóvel, as palavras ecoando em algum ponto entre o peito e o estômago. Por um instante, o ar pareceu rarefeito. — E você vai deixar assim? — perguntou, a voz baixa. — Não vai tentar reconquistar? Dam fechou os olhos, apertando o copo nas mãos. — Eu não posso. — Por quê? Ele respirou fundo, e quando respondeu, a voz saiu quebrada. — Porque ela não quer ser reconquistada, porque às vezes o certo e o justo não são a mesma coisa. Um silêncio espesso se formou entre eles. Os olhos de Dam estavam marejados; os de Gabriel, cheios de compaixão. Gabriel se levantou, pousando uma mão sobre o ombro do irmão. — Seja lá o que for, você não tá sozinho. Eu tô aqui. Dam levantou o olhar, com um sorriso cansado. — Sempre esteve. E é isso que. Complica ainda mais nas coisas Gabriel franziu o cenho. — Por quê? Dam balançou a cabeça, desviando o assunto. — Nada. Só… esquece. Tô só cansado. Gabriel assentiu, respeitando o silêncio do irmão, e se despediu e foi embora deixando Dam sozinho olhando fixamente para o copo vazio. O relógio marcava duas e quarenta e sete da manhã. O mundo dormia, mas a mente dele continuava gritando. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, os dedos pressionando o rosto. “Se ele não fosse o meu irmão, eu…” A lembrança do beijo veio como um golpe. A força, o desespero, o gosto agridoce de amor e arrependimento. E agora, ali, sentado a poucos metros de Gabriel, ele sentia o peso da própria ruína. “Como é que eu olho nos olhos dele depois disso?” A resposta era simples. Não olharia. Não sem carregar o inferno nos olhos. Mas havia algo mais forte que a culpa. Algo que, mesmo em silêncio, ainda o puxava para ela o amor que ele jurou esquecer, mas nunca conseguiu. Dam fechou os olhos e sussurrou, como uma prece que ninguém devia ouvir: — Me perdoa, irmão. Porque no fundo, ele sabia. A partir daquela noite, não havia mais volta.
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