O dia seguinte parecia não caber em si.
Lara acordou tarde, o corpo preguiçoso, a mente inquieta — e, no meio daquele torpor, o pensamento constante de Gabriel. Cada lembrança vinha em flashes: o toque, o sorriso torto, o olhar intenso. O beijo.
Durante todo o domingo ela tentou distrair-se. Saiu com as amigas, revisitou lugares conhecidos, mas em todos eles, havia algo que a fazia lembrar dele.
O café na esquina parecia ter o mesmo aroma da colônia que ele usava; o som de uma risada distante tinha o mesmo timbre leve que o dele.
Era como se Gabriel estivesse por toda parte — uma presença constante, mesmo ausente.
No início da noite, o celular vibrou.
Gabriel: “Se eu disser que estou tentando não pensar em você, acredita?”
Lara: “Depende… está tentando com força?”
Gabriel: “Força não falta. O problema é que não está funcionando.”no
Ela riu sozinha, o coração acelerando.
Lara: “Então talvez precise de uma distração melhor.”
Gabriel: “Topa ser ela?”
Lara: “Já sou, aparentemente.”
Menos de uma hora depois, ele estava lá.
O som da buzina curta ecoou pela rua tranquila. Lara olhou pela janela — o carro dele parado, o farol baixo refletindo na fachada da casa.
Ela pegou a bolsa com pressa, o coração batendo rápido demais, e saiu.
Gabriel desceu do carro, as mãos nos bolsos da jaqueta, aquele sorriso que parecia familiar demais para alguém que ela m*l conhecia há alguns dias.
— Eu ia mandar mensagem, mas percebi que as palavras não dariam conta — disse ele, assim que a viu. — Então achei melhor aparecer.
— E se eu dissesse que não estava em casa? — provocou ela, cruzando os braços.
— Eu esperaria — respondeu ele, sem hesitar. — O tempo que fosse preciso.
Havia algo na voz dele — firme, verdadeira, quase vulnerável — que fez o coração dela vacilar.
Lara suspirou, tentando esconder o sorriso.
— Então, para onde é essa “distração”?
— Você vai ver. — Ele abriu a porta do carro. — Confia em mim?
Ela hesitou por um instante. E depois, simplesmente assentiu.
— Confio.
O trajeto foi leve, cheio de pequenas brincadeiras e trocas de olhares.
Gabriel dirigia com uma calma curiosa, o rádio tocando uma música suave ao fundo.
A estrada os levou para fora do centro, até um campo aberto na parte alta da cidade, onde as luzes urbanas se perdiam no horizonte e o céu se abria em um manto de estrelas.
— Meu lugar favorito — disse ele, estacionando. — Quando quero pensar, venho pra cá.
Lara saiu do carro, sentindo o vento frio tocar a pele. O cheiro da grama molhada, o som distante da cidade, o céu imenso — tudo parecia mais vivo ali.
Ela se encostou ao capô, como na noite anterior.
— É lindo, Gabriel.
— É — disse ele, mas o olhar dele não estava no céu — estava nela.
O silêncio entre os dois era confortável, cheio de coisas não ditas. Lara sentia cada batida do próprio coração ecoar alto demais.
— Você sempre faz isso? — perguntou, tentando disfarçar o nervosismo. — Trazer garotas para ver estrelas?
— Não — respondeu ele, sem hesitar. — Só as que me tiram o sono.
Ela riu, sem graça, mas o riso logo morreu ao ver a seriedade no olhar dele.
— É verdade — continuou ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Desde aquela noite, você está em tudo. E eu não sei o que é isso, Lara. Mas não quero que acabe.
Ela o olhou por um instante, tentando formular algo.
O vento balançava o cabelo dela, e Gabriel estendeu a mão, afastando uma mecha do rosto dela com delicadeza.
O toque foi leve, quase reverente.
— Sabe o que é estranho? — disse ela, enfim. — Eu também não sei o que é isso. Mas me sinto… segura.
— Então talvez devêssemos parar de tentar entender — disse ele, se aproximando um pouco mais. — E só sentir.
Ela sorriu, e antes que pudesse responder, ele a puxou levemente pela cintura.
Os corpos se encontraram num abraço silencioso, firme, natural.
Por um instante, o mundo pareceu suspenso. Não havia tempo, nem passado, nem medo.
Só o presente — e a respiração sincronizada de dois corações que começavam a se reconhecer.
— O que você está fazendo comigo, Gabriel? — sussurrou ela, os olhos fechados, a voz trêmula.
— Talvez a pergunta certa seja o que você está fazendo comigo — respondeu ele, encostando a testa na dela. — Porque eu, sinceramente, já não sei mais onde acabo e onde você começa.
Lara sentiu o chão fugir por um instante.
O beijo que veio em seguida foi mais profundo que o primeiro.
Não tinha a leveza do início, mas a entrega de quem começa a se permitir.
Mãos que se encaixam, respirações entrecortadas, o gosto doce e salgado da incerteza.
Quando se separaram, os olhos dela ainda estavam marejados.
— Isso é perigoso — murmurou, com um sorriso fraco. — Eu posso me acostumar com isso.
Gabriel segurou a mão dela, entrelaçando os dedos.
— Então promete uma coisa?
— O quê?
— Que se for pra se acostumar, a gente faz isso juntos.
Lara sorriu, e o vento levou o som suave da risada dela pelo campo aberto.
Ele a puxou novamente, dessa vez apenas para abraçá-la — sem pressa, sem palavras.
O abraço durou o tempo que o silêncio permitiu.
E quando ela finalmente deitou a cabeça no ombro dele, olhando o céu, entendeu que talvez se apaixonar fosse isso: não o caos das primeiras emoções, mas a calma que vem quando alguém nos encontra e simplesmente fica.
Naquela noite, quando ele a deixou em casa, o beijo de despedida foi longo, demorado, cheio de promessas que nenhum dos dois ainda ousava colocar em palavras.
Gabriel esperou ela entrar, acenou, e só depois partiu.
Lara encostou na porta fechada, o coração ainda acelerado, e sussurrou para si mesma:
— Acho que não tem mais volta.
E pela primeira vez desde Dam, ela não sentiu culpa por sentir