Capítulo 9

1033 Palavras
O dia seguinte parecia não caber em si. Lara acordou tarde, o corpo preguiçoso, a mente inquieta — e, no meio daquele torpor, o pensamento constante de Gabriel. Cada lembrança vinha em flashes: o toque, o sorriso torto, o olhar intenso. O beijo. Durante todo o domingo ela tentou distrair-se. Saiu com as amigas, revisitou lugares conhecidos, mas em todos eles, havia algo que a fazia lembrar dele. O café na esquina parecia ter o mesmo aroma da colônia que ele usava; o som de uma risada distante tinha o mesmo timbre leve que o dele. Era como se Gabriel estivesse por toda parte — uma presença constante, mesmo ausente. No início da noite, o celular vibrou. Gabriel: “Se eu disser que estou tentando não pensar em você, acredita?” Lara: “Depende… está tentando com força?” Gabriel: “Força não falta. O problema é que não está funcionando.”no Ela riu sozinha, o coração acelerando. Lara: “Então talvez precise de uma distração melhor.” Gabriel: “Topa ser ela?” Lara: “Já sou, aparentemente.” Menos de uma hora depois, ele estava lá. O som da buzina curta ecoou pela rua tranquila. Lara olhou pela janela — o carro dele parado, o farol baixo refletindo na fachada da casa. Ela pegou a bolsa com pressa, o coração batendo rápido demais, e saiu. Gabriel desceu do carro, as mãos nos bolsos da jaqueta, aquele sorriso que parecia familiar demais para alguém que ela m*l conhecia há alguns dias. — Eu ia mandar mensagem, mas percebi que as palavras não dariam conta — disse ele, assim que a viu. — Então achei melhor aparecer. — E se eu dissesse que não estava em casa? — provocou ela, cruzando os braços. — Eu esperaria — respondeu ele, sem hesitar. — O tempo que fosse preciso. Havia algo na voz dele — firme, verdadeira, quase vulnerável — que fez o coração dela vacilar. Lara suspirou, tentando esconder o sorriso. — Então, para onde é essa “distração”? — Você vai ver. — Ele abriu a porta do carro. — Confia em mim? Ela hesitou por um instante. E depois, simplesmente assentiu. — Confio. O trajeto foi leve, cheio de pequenas brincadeiras e trocas de olhares. Gabriel dirigia com uma calma curiosa, o rádio tocando uma música suave ao fundo. A estrada os levou para fora do centro, até um campo aberto na parte alta da cidade, onde as luzes urbanas se perdiam no horizonte e o céu se abria em um manto de estrelas. — Meu lugar favorito — disse ele, estacionando. — Quando quero pensar, venho pra cá. Lara saiu do carro, sentindo o vento frio tocar a pele. O cheiro da grama molhada, o som distante da cidade, o céu imenso — tudo parecia mais vivo ali. Ela se encostou ao capô, como na noite anterior. — É lindo, Gabriel. — É — disse ele, mas o olhar dele não estava no céu — estava nela. O silêncio entre os dois era confortável, cheio de coisas não ditas. Lara sentia cada batida do próprio coração ecoar alto demais. — Você sempre faz isso? — perguntou, tentando disfarçar o nervosismo. — Trazer garotas para ver estrelas? — Não — respondeu ele, sem hesitar. — Só as que me tiram o sono. Ela riu, sem graça, mas o riso logo morreu ao ver a seriedade no olhar dele. — É verdade — continuou ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Desde aquela noite, você está em tudo. E eu não sei o que é isso, Lara. Mas não quero que acabe. Ela o olhou por um instante, tentando formular algo. O vento balançava o cabelo dela, e Gabriel estendeu a mão, afastando uma mecha do rosto dela com delicadeza. O toque foi leve, quase reverente. — Sabe o que é estranho? — disse ela, enfim. — Eu também não sei o que é isso. Mas me sinto… segura. — Então talvez devêssemos parar de tentar entender — disse ele, se aproximando um pouco mais. — E só sentir. Ela sorriu, e antes que pudesse responder, ele a puxou levemente pela cintura. Os corpos se encontraram num abraço silencioso, firme, natural. Por um instante, o mundo pareceu suspenso. Não havia tempo, nem passado, nem medo. Só o presente — e a respiração sincronizada de dois corações que começavam a se reconhecer. — O que você está fazendo comigo, Gabriel? — sussurrou ela, os olhos fechados, a voz trêmula. — Talvez a pergunta certa seja o que você está fazendo comigo — respondeu ele, encostando a testa na dela. — Porque eu, sinceramente, já não sei mais onde acabo e onde você começa. Lara sentiu o chão fugir por um instante. O beijo que veio em seguida foi mais profundo que o primeiro. Não tinha a leveza do início, mas a entrega de quem começa a se permitir. Mãos que se encaixam, respirações entrecortadas, o gosto doce e salgado da incerteza. Quando se separaram, os olhos dela ainda estavam marejados. — Isso é perigoso — murmurou, com um sorriso fraco. — Eu posso me acostumar com isso. Gabriel segurou a mão dela, entrelaçando os dedos. — Então promete uma coisa? — O quê? — Que se for pra se acostumar, a gente faz isso juntos. Lara sorriu, e o vento levou o som suave da risada dela pelo campo aberto. Ele a puxou novamente, dessa vez apenas para abraçá-la — sem pressa, sem palavras. O abraço durou o tempo que o silêncio permitiu. E quando ela finalmente deitou a cabeça no ombro dele, olhando o céu, entendeu que talvez se apaixonar fosse isso: não o caos das primeiras emoções, mas a calma que vem quando alguém nos encontra e simplesmente fica. Naquela noite, quando ele a deixou em casa, o beijo de despedida foi longo, demorado, cheio de promessas que nenhum dos dois ainda ousava colocar em palavras. Gabriel esperou ela entrar, acenou, e só depois partiu. Lara encostou na porta fechada, o coração ainda acelerado, e sussurrou para si mesma: — Acho que não tem mais volta. E pela primeira vez desde Dam, ela não sentiu culpa por sentir
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