Ao recobrar a consciência tive certeza que o pesadelo era real. Fui me apoiando na pedra da pia para me erguer do chão. Ainda estava tonta. O carro dele não estava mesmo lá, ele partira de vez.
O celular na bancada da copa vibrou e atendi rapidamente. Era mamãe.
- Devo visitar você no domingo. Estará em casa?
O que eu diria a ela sobre o fim do meu casamento?
- Estarei. - passei a mão na testa com certo desespero.
- Roger está bem?
Eu ia gaguejar .
- Sim. Está. - falei pausadamente e mamãe não notou nada.
Obviamente que eu iria mentir sobre meu divórcio. Já era o suficiente sofrer por ter sido largada. Acho que não aguentaria mamãe me dando um sermão e me lembrando que eu fazia tudo errado ou que não fora capaz de salvar meu casamento.
- Devo chegar umas dez da manhã e ajudo com o almoço. Mande lembranças ao Roger.
- Mandarei, mãe. Fica bem.
Estava completamente sem fome. Sentia meu estômago embrulhado e as vezes chorava quando me recordava de Roger. Eu o amava tanto.
Talvez já estivesse com outra oficialmente. Aquela loura que ele trouxera no dia anterior parecia ser uma escolha para ele. O que eu não tinha? O que faltava em mim?
O espelho do quarto mostrava meu reflexo. Cabelo preso num r**o de cavalo. Jeans gasto. Um suéter cor limão e por baixo uma regatinha branca. Não que fosse f**a, mas não podia dizer que eu estava atraente naquele momento.
Aos poucos o oxigênio dentro daquela imensa casa pareceu faltar. Tudo lembrava meu marido. Ou ex marido. Peguei meu livro que já lia há alguns dias e fui para a praça da cidade. Precisava tomar um ar.
O parque não estava muito cheio, talvez porque fosse quinta feira. O banco perto da árvore estava vazio e sentei-me. Já estava bem avançada no livro e faltava poucos capítulos para terminar. Até que consegui me distrair um pouco.
- Morro dos ventos uivantes???? - a voz aguda daquela garota fez tirar os olhos da página e encara-la.
Era alta e esguia. Cabelo Chanel preto que lembrava uma francesa. Vestia uma saia highschool e meia calça preta. Blusinha de mangas bufantes e coturno nos pés. Descrevendo assim não parecia tão boa, mas as roupas funcionavam bem naquela garota. Em mim provavelmente ficaria péssimo.
- Sim, sim! Já estou lendo pela terceira vez!!! - respondi retribuindo o sorriso.
- Eu li várias vezes. Sempre com uma perspectiva diferente. Posso me sentar ao seu lado?
- claro - disse chegando para a esquerda.
- o dia está lindo nesse fim de tarde, né?
- Está sim. O por do sol é bonito. A luz batendo na água do lago - observei.
- Sou Mièrra, prazer!
- Samantha. - apertei a mão dela.
- Sou nova na cidade. Cheguei há algumas semanas - Mierra inspirou fundo, parecendo apreciar a vista.
- E está gostando? Aqui é bem pacato, não acha?
- Sim. E foi exatamente essa razão pela qual me mudei da capital pra cá. Vida agitada, correria, violência. Olha essa calmaria, Samantha - os olhos dela brilhavam - isso sim é qualidade de vida.
Ela tinhá razão. A cidade era bonita, limpa e segura.
- Só não temos muitas opções de lojas e comércios aqui. - Me queixei.
- Nem tudo é perfeito. Mas achei estranho ter um hotel como aquele nessa cidade tão parada. - Mierra apontou para o imenso prédio do outro lado da rua.
Era uma construção suntuosa e muito chique para os padrões da cidade. A observação dela era interessante e eu nunca havia parado para pensar.
- Os hotéis da família Monroe. Há vários deles pelo país - explicava.
- É, eu soube. Estranho mesmo é o maior de todos estar aqui. Não faz sentido.
- Não mesmo. - eu ri.
- Ei, Samantha. Amanhã estava querendo visitar uma cafeteria no lado sul da cidade.
- A Coffee Breath? - indaguei.
- Essa mesma. É boa???
- Ah, Mierra, você vai amar. É muito boa sim. O capuccino deles é incrível.
- Perfeito. Que tal irmos juntas?
Bom, eu já não tinha mais marido ou qualquer responsabilidade. Por que não?
- Pode ser. Que horas está pensando ir?
- Umas cinco da tarde. Já estará mais fresco e o por do sol provavelmente será lindo de novo.
- Fechado! As cinco.