Capítulo 23 — Trégua e o Corpo em Brasas

1512 Palavras
“O coração é um prato teimoso que insiste em queimar no fogo alto, mesmo quando a razão implora para desligar o fogão" Luccas AshFord Eu tinha acabado de arrumar a mala para a viagem a Miami. Não queria ir, mas não posso esquecer que faz parte do meu trabalho. A Jazz e o Chris confiaram em mim e me deram essa oportunidade. Não quero decepcionar as pessoas que estiveram ao meu lado quando mais precisei por causa de um babaca chamado Enzo Romano. O autoproclamado Rei da Cozinha Italiana e das camas das damas nova-iorquinas. Ouvi a campainha tocar e imaginei que fosse a pizza que havia pedido para jantar. Não tive tempo de cozinhar nada hoje e minha mente estava exausta demais para lidar com fogão. Atendo a porta e me deparo com a assombração que tem me atormentado nos últimos meses: Enzo Romano em carne, osso e espírito. Ele parecia cansado, mas ainda irritantemente impecável. — Oi... — ele diz, segurando uma sacola do Aurora com comida e uma garrafa de vinho. — O que você quer, senhor Romano? — pergunto, cruzando os braços e escorando no batente da porta. Não tenho a menor intenção de deixá-lo entrar e contaminar meu ar. — Eu vim em paz, Luccas. Nós precisamos conversar — seu tom de voz era calmo, mas continha o mesmo ar autoritário que eu, infelizmente, não conseguia ignorar. — Se veio com a intenção de me enrolar com suas explicações fajutas, é melhor ir embora — rebato, sentindo o nó na garganta apertar. — Só... me deixa entrar e vamos conversar. Depois você decide se acredita em mim ou não — ele pede, e há uma nota de vulnerabilidade na sua voz que eu não esperava encontrar. Me afasto da porta, dando permissão silenciosa para que ele entre. Enzo cheira a sândalo, com um toque amadeirado. Ele veste uma calça de sarja escura e uma camisa de linho azul-marinho levemente aberta no colarinho. É um visual informal, mas carregado de classe e conforto. A simples presença dele já abala minhas estruturas. Esse cheiro gostoso dos infernos me faz questionar se vou resistir às investidas dele. — Eu já pedi pizza para jantar. Não precisava trazer comida — tento ser indiferente, mas meu corpo inteiro está em alerta, reagindo à proximidade do homem que me destruiu e me incendiou. Enzo segue em direção à cozinha, que ele já conhece de cor. Só de lembrar o que fizemos ali, em cima daquela bancada, sinto um calor subindo e um arrepio na nuca. Ele coloca as embalagens sobre a ilha de granito e começa a procurar pratos e talheres nos armários. Antes disso, coloca o vinho na geladeira com uma naturalidade que me irrita profundamente. — Vai ficar aí me olhando invadir sua cozinha como se fosse minha ou vem me ajudar a colocar a mesa? — ele pergunta, usando aquele jeito ácido e mandão de sempre. Caminho até ele, mantendo uma distância segura. Não quero que ele perceba que meu coração está tentando pular para fora do peito só por estar no mesmo raio de dois metros que ele. — Você não tem o direito de agir como se nada tivesse acontecido, Enzo — digo, pegando as taças com as mãos levemente trêmulas. — Eu ouvi o áudio. Eu senti o perfume de outra mulher em você. — O áudio foi editado, Luccas. Aquelas cobras me gravaram sem eu saber e cortaram as partes onde eu as mandava para o inferno — ele diz, parando o que está fazendo e me encarando. — E o perfume? Também foi editado? — sinto as lágrimas de mágoa queimarem. — Você me usou para se sentir vivo e depois correu para uma massagista para se sentir "normal", não foi? — Eu fui um covarde, Luccas. Eu tive e ainda tenho medo do que eu estou sentindo por você e tentei fugir da forma mais estúpida possível — ele admite, dando um passo em minha direção. — Mas não houve prazer com elas. Só foi alívio, tá legal. — Vazio? Alívio? Você tentou comprar o silêncio da minha família! — grito, a dor transbordando. — Você me vê como um problema que precisa de um suborno para não manchar sua reputação de mestre cuca! — Eu nunca quis te comprar! — ele rebate, a voz subindo de tom. — Eu queria protegê-lo daquelas hienas. Eu queria que elas sumissem para que você pudesse ter paz. Eu fiz tudo errado, mas o motivo foi você. Ele abre as embalagens e o cheiro de um Risotto de Aspargos com Raspas de Limão Siciliano invade a cozinha. É o meu prato favorito. O desgraçado sabe exatamente como me atingir pelos sentidos. — Coma comigo — ele pede, servindo o risoto nos pratos. — Vamos fazer uma trégua. Temos uma inauguração em Miami em dois dias. O projeto é maior que esse nosso desastre pessoal. — Uma trégua profissional? — pergunto, sentando-me à mesa com a guarda alta. O risoto parece divino, mas meu apetite está travado pela tensão s****l que flutua entre nós. — Sim. Uma trégua. Eu não vou te pressionar a me perdoar agora, mas não podemos trabalhar com esse clima de guerra. — A Jazz tem trabalhado muito nesse projeto e confia em você. Ela não merece isso — ele serve o vinho branco gelado. O jantar ocorre em um silêncio carregado. Cada vez que nossos talheres batem ou nossos olhares se cruzam, sinto um choque elétrico. Por dentro, estou pegando fogo. Desejo esse homem com a mesma intensidade que o odeio. Lembro-me de suas mãos me prendendo, de sua voz obscena no meu ouvido, e meu baixo ventre lateja. É uma tortura estar tão perto de quem você quer beijar e esmurrar ao mesmo tempo. Enzo come devagar, observando-me com aqueles olhos castanhos claros que parecem ler minha alma. Ele percebe meu estado. Ele sempre percebe quando estou perdendo a batalha contra o meu próprio desejo. — O risoto está bom? — ele pergunta, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente rouca. — Está... aceitável — minto, forçando uma indiferença que não sinto. O risoto está perfeito, como tudo o que ele faz. — Mentiroso — ele sorri de lado, um sorriso predatório que faz minhas pernas fraquejarem sob a mesa. — Você adora o meu tempero, Luccas. Em todos os sentidos. — Não comece, Enzo. Temos uma trégua, lembra? — tento manter a voz firme, mas ela sai um pouco mais trêmula do que eu gostaria. Terminamos de comer e ele me ajuda a limpar a mesa. O roçar de nossos braços enquanto guardamos as coisas é como encostar em fios de alta tensão. Eu quero que ele vá embora e, ao mesmo tempo, quero que ele me jogue contra essa parede. Enzo termina o vinho e caminha em direção à porta. Ele para por um segundo, olhando para a minha mala pronta no canto da sala. Ele suspira e se vira para mim, a centímetros de distância. — Eu vou provar que o áudio é mentira, Luccas — ele diz, a voz baixa, quase um segredo. — E vou provar que nenhuma daquelas mulheres pode me dar o que você me dá apenas ao respirar perto de mim. Ele levanta a mão e, por um instante, acho que ele vai me tocar. Eu fecho os olhos, esperando pelo contato que meu corpo implora, mas ele se detém. Ele apenas respira o meu cheiro, um suspiro pesado. — Esteja pronto às sete da manhã. O motorista do Aurora vai nos buscar e levar ao aeroporto — ele avisa, abrindo a porta do apartamento. — Estarei pronto — respondo, sentindo o ar frio do corredor entrar. Enzo sai, fechando a porta com um clique suave. Fico parado no meio da sala, sentindo o silêncio pesar toneladas. O cheiro de sândalo dele ainda flutua no ar, misturado ao aroma do vinho e do risoto. Meu corpo está em brasa. Sinto uma frustração latente, uma fome que a comida não saciou. Caminho até a janela e vejo o carro dele partir, sumindo nas luzes de Manhattan. Miami será um inferno. Se em Nova York eu já estou desmoronando, como vou sobreviver a dias de sol, hotéis luxuosos e a presença constante do homem que é o meu maior vício e minha maior ruína? Sento-me no sofá e enterro o rosto nas mãos. Eu odeio o Enzo Romano por me fazer sentir tão vivo e tão miserável ao mesmo tempo. E odeio ainda mais saber que, amanhã, estarei ao lado dele em um avião, fingindo que não quero rasgar suas roupas. A trégua está assinada, mas a guerra interna está longe de acabar. E eu tenho a sensação de que, em Miami, um de nós não sairá ileso desse banquete de mágoas e desejos. O relógio marca as horas, e o sono não vem. Só o pensamento de que, em poucas horas, estarei confinado com ele a dez mil pés de altitude, onde não haverá massagistas, nem família de hienas, nem áudios... apenas nós dois.
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