Capítulo 50 – O Tempo Depois

712 Palavras
Cinco anos. O tempo passou sem pedir licença, levando o que precisava levar e devolvendo o que era essencial. Henrique agora morava em uma casa menor, próxima ao mar. O barulho das ondas havia se tornado o som de fundo de seus dias — constante, sereno, infinito. Escrevia todas as manhãs, um hábito que virou quase um ritual. Começava cedo, com o sol nascendo pela janela, e só parava quando as palavras paravam de doer. Seus textos, antes cheios de arrependimento, agora falavam sobre recomeços. Sobre pessoas que se perdiam e se achavam. Sobre o amor como ponte, e não prisão. Às vezes, ele ainda lembrava de Isadora. Mas a lembrança era calma, sem o peso do que poderia ter sido. Ela existia ali — entre as linhas, em alguma cor de céu, em algum café da tarde. A Nova Rotina Na vila, Henrique era conhecido como o “escritor do cais”. Ajudava no mercadinho local, escrevia colunas para o jornal da cidade, e nas noites de domingo lia trechos de seus textos no bar à beira-mar. Falava com voz baixa, como quem conversa com o próprio passado. “Algumas histórias não pedem continuação. Só pedem que a gente as lembre com carinho, e depois as deixe ir.” O público sempre se emocionava. Mas só ele sabia de quem falava. Do Outro Lado A quilômetros dali, Isadora vivia num apartamento pequeno, com janelas que davam para um jardim interno. Era professora de arte para crianças. Pintava com elas, ria com elas, e via nos olhos curiosos o mesmo brilho que um dia perdeu e reencontrou. Às vezes, ao fim da aula, ficava sozinha na sala, olhando as pequenas mãos sujas de tinta. E pensava em como a vida era generosa com quem aprende a recomeçar. No canto, um quadro novo — cores suaves, traços leves. No verso, uma frase que só ela sabia de quem era: “Ficar inteiro é o que resta depois do amor.” Era fim de tarde. Henrique caminhava pela praia, os pés descalços tocando a areia fria. O mar estava calmo, refletindo o tom dourado do céu. Ele carregava o mesmo caderno de sempre, agora já gasto, com a capa manchada de sal e o cheiro leve de papel antigo. Sentou-se sobre uma pedra e começou a escrever. As palavras vinham com facilidade, como se o vento soprasse junto. “Há amores que se tornam bússolas. Mesmo distantes, continuam apontando o norte.” Fechou o caderno e sorriu. Não sabia por que escrevera aquilo naquele dia, mas sentiu que precisava. Do Outro Lado da Cidade Naquele mesmo instante, Isadora estava em uma livraria. Acompanhava seus alunos numa pequena visita ao espaço de leitura. Enquanto as crianças folheavam os livros coloridos, ela se afastou por um momento, olhando uma prateleira de títulos novos. Um deles chamou sua atenção: “O Amor Depois do Amor – Crônicas do Silêncio.” O autor: Henrique Duarte. O coração dela deu um pequeno salto. Pegou o livro nas mãos, passando o polegar pela capa simples. O nome soava familiar e distante ao mesmo tempo. Folheou as páginas até encontrar uma dedicatória. “Para quem me ensinou que o silêncio também é diálogo.” Isadora respirou fundo, sorriu com os olhos marejados e fechou o livro devagar. Não era nostalgia — era reconhecimento. Henrique tinha encontrado as palavras que, um dia, nenhum dos dois soube dizer. Comprou o livro, não por saudade, mas por gratidão. O Fio Invisível À noite, de volta ao apartamento, colocou o livro sobre a mesa e acendeu uma vela ao lado. Não como homenagem, mas como símbolo de luz. Pegou um pincel e começou a pintar outra vez. No fundo da tela, traçou um céu dividido em duas cores, e, bem no centro, uma linha tênue de luz. Enquanto isso, Henrique, lá na praia, observava o mesmo céu — as mesmas cores, a mesma luz. Eles não sabiam, mas, de algum modo, a vida ainda os unia por um fio invisível. Não o fio da paixão, nem o da espera, mas o da paz que nasce quando duas almas finalmente aprendem a deixar o amor ser leve. E, naquele instante, cada um, em seu canto do mundo, sussurrou, sem saber, a mesma palavra: — Obrigado.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR