Henrique ficou no apartamento de Maya apenas o tempo necessário para respirar.
Não houve abraço.
Não houve beijo.
Não houve nada físico.
Mas houve compreensão.
E essa era a parte mais perigosa.
Maya o olhou na porta antes que ele saísse.
— Vai devagar, Henrique. Ela está frágil.
— Eu sei.
— E… fala a verdade.
Ele engoliu seco.
— A verdade pode destruir tudo.
Maya respondeu com uma dor tranquila:
— A mentira já está destruindo.
Ele saiu.
E essa frase ficou ecoando dentro dele como uma sentença.
De Volta ao Lar
Quando abriu a porta de casa, encontrou Isadora sentada no chão do corredor.
As costas encostadas na parede.
Os joelhos dobrados.
O olhar perdido no vazio.
Ela não se mexeu ao vê-lo entrar.
Não correu, não perguntou, não exigiu.
Apenas acompanhou seus passos com olhos cansados demais para alguém tão jovem.
Henrique se ajoelhou diante dela.
— Isa…
A voz dele falhou antes da segunda sílaba.
— Eu voltei pra gente conversar.
Ela respirou fundo, com esforço.
— Conversar… ou pedir desculpas?
Henrique hesitou.
E naquele microsegundo, Isadora viu a resposta.
— Então não é desculpa — ela murmurou, desviando o rosto.
A Conversa Torta
Ele sentou ao lado dela, encostando a cabeça na parede.
— Isa… eu fui porque achei que era o certo. Eu tinha prometido ajudar a Maya.
— Você sempre tem um motivo para ela — Isadora respondeu, sem elevar a voz. — Sempre tem uma justificativa. Sempre existe uma explicação. Mas, para mim, ultimamente… só resta o silêncio.
Henrique fechou os olhos, sentindo a verdade pesar.
— Eu estou confuso.
— Eu sei — ela respondeu. — Mas sua confusão está me destruindo.
Ele virou o rosto para ela.
Isadora parecia frágil de um jeito que ele nunca viu.
Como se estivesse segurando o próprio coração com as mãos.
— Isa, eu te amo.
Ela mordeu os lábios, como quem recebe uma facada lenta.
— Eu também te amo, Henrique. Mas amar… não está sendo suficiente.
Ele tentou pegar a mão dela.
Ela deixou — mas não apertou.
A Sinceridade Crua
Henrique respirou fundo.
Foi sincero demais.
Cru demais.
Verdadeiro demais.
— Isa… eu sinto alguma coisa pela Maya.
Isadora fechou os olhos.
As lágrimas caíram silenciosas, como se já esperassem por isso.
Ele continuou, com a voz quebrada:
— Eu tentei negar. Tentei apagar. Tentei controlar. Mas… quando estou com ela… eu me sinto inteiro. Me sinto visto. Me sinto… eu mesmo.
Isadora virou o rosto lentamente, encarando-o com um olhar que ele nunca esqueceria.
— E quando está comigo? — ela perguntou, quase num sussurro.
Henrique hesitou.
E esse foi o golpe final.
— Henrique. Quando você está comigo… você se sente o quê?
A pergunta cortou o ar.
Não havia como escapar.
Ele respondeu a verdade — e destruiu tudo sem perceber:
— Quando estou com você… eu me sinto pressionado a não quebrar. A ser forte. A ser o homem que você acredita que eu sou.
Isadora prendeu a respiração, sufocada.
Ele completou:
— E eu tenho medo de decepcionar você.
Foi como se o chão desaparecesse sob os pés dela.
O Colapso de Isadora
Isadora levou a mão ao peito, tentando conter a dor.
— Então é isso… — murmurou. — Você não consegue ser vulnerável comigo.
— Isa…
— Você só consegue ser você com ela.
Ela se levantou com dificuldade, tropeçando nas próprias pernas.
Henrique tentou segurá-la.
Ela recuou, ferida como nunca antes.
— Não me toca.
A voz dela não tinha agressividade.
Tinha desespero.
— Isa, por favor…
— Eu te amo. Eu te amo tanto que aceitei dividir você quando nunca quis. Eu tentei ser forte, tentei ser compreensiva, tentei não prender você. Mas agora… agora você está me dizendo que só consegue respirar ao lado dela.
Ela caiu de joelhos novamente, desta vez sozinha.
— E eu? — ela sussurrou, tremendo. — Eu sou o quê então? O peso que te impede de existir?
Henrique se sentou no chão diante dela, desesperado.
— Não fala assim…
— Eu não estou falando assim, Henrique. É você que está dizendo. Do seu jeito.
O silêncio entre eles era insuportável.
A Ferida Aberta
— Eu vou perder você, não vou? — Isadora perguntou, sem olhar para ele.
— Não… não, Isa. Eu te amo.
— Mas ama ela também.
Henrique não respondeu.
Não conseguia.
Isadora respirou fundo, tentando controlar o tremor.
— Eu não posso competir com isso. Não posso competir com quem te vê sem máscara. Eu… eu não consigo ser tudo ao mesmo tempo.
— Você não precisa competir — ele tentou dizer, tocando seu rosto.
Ela virou o rosto devagar, escapando do toque.
— Mas você está me fazendo competir, Henrique.
— Isa…
— E eu estou perdendo.
Foi a primeira vez que ele chorou na frente dela desde que tudo começou.
Mas Isadora não o abraçou.
Não dessa vez.
O Encerramento Amargo
Isadora se levantou de novo, mais firme.
— Me dá um tempo. — Ela disse com a voz fraca.
— Isa, por favor, eu…
— Me dá um tempo. Se você quiser lutar por nós dois, vai ter que fazer isso sem me destruir no processo.
Henrique ficou paralisado.
Isadora completou, com a voz queimada:
— E decide, Henrique… decide se você quer um casamento ou quer sobreviver por meio de alguém que não sou eu.
Ela subiu as escadas.
Henrique ficou sentado no chão.
O coração dividido entre duas mulheres…
e a sensação devastadora de que estava prestes a perder ambas.