Capítulo 37 – O Último Teste

707 Palavras
A tranquilidade que Henrique vinha construindo era delicada. Dias inteiros sem sobressaltos, sem segredos. Isadora começava a confiar um pouco mais, a sorrir sem hesitar. Ele acreditava que, enfim, as coisas estavam no lugar. Até o som do celular quebrar o silêncio da manhã. Henrique estava no escritório, escrevendo no caderno, quando o visor acendeu. Um nome que ele não via há meses. Maya. Por um instante, o ar pareceu desaparecer. As mãos suaram. O coração disparou. Ele olhou a tela, congelado. Sabia que bastava um toque para abrir. Mas também sabia o que esse toque poderia destruir. Respirou fundo e leu o início da mensagem que aparecia na notificação: “Senti falta de conversar com você. Acho que nunca te disse o quanto gosto de me envolver com homens que sabem o que querem. A maioria não entende o jogo como você entendia…” Henrique fechou os olhos. O corpo reagiu antes da razão. Um arrepio de lembrança, misturado com culpa. A parte de si que ele tentava apagar sussurrou: “Ela ainda pensa em você.” Mas outra voz, mais firme, respondeu: “E o que você vai fazer com isso agora?” O Conflito Henrique largou o celular na mesa e se afastou, andando em círculos. Podia fingir que não viu. Apagar a mensagem e seguir em frente. Mas o simples fato de ela existir já o deixava inquieto. A tentação não era o desejo — era o ego. Era o velho impulso de querer ser desejado, admirado, controlando o jogo. O mesmo que tinha quase destruído tudo. Ele olhou para o retrato sobre a estante: Isadora no ateliê, sorrindo, a testa suja de tinta. O tipo de sorriso que só quem perdoa consegue dar. Henrique sentiu o peso das escolhas. Fechou os punhos. — Não — murmurou, baixo. — Não de novo. A Resposta Pegou o celular de novo. Leu a mensagem completa — longa, insinuante, repleta de lembranças disfarçadas. Maya dizia sentir falta da “intensidade”, do “perigo”, da “liberdade” que tinham juntos. Mas, no meio das entrelinhas, havia algo ainda mais claro: ela queria testar se ele ainda era o mesmo homem de antes. Henrique digitou devagar, respirando entre as palavras. “Maya, eu não sou mais esse cara. E não quero mais esse tipo de contato. Cuida de você, por favor. Eu estou cuidando do que quase perdi.” Leu e releu a mensagem. Antes de enviar, hesitou. O medo do retorno, o medo de Isadora descobrir, o medo de se arrepender. Mas então lembrou do olhar dela quando o perdoou — e apertou “enviar”. O Depois O coração batia forte. Esperou. Minutos. Nada. Nenhuma resposta. E pela primeira vez, ele sentiu paz. Não porque tudo estava resolvido, mas porque, finalmente, ele tinha escolhido o lado certo. Henrique apagou o número de vez. Bloqueou. Fechou os olhos. Era um gesto simples, mas simbólico: ele estava fechando a porta que mantinha aberta só por orgulho. A Verdade e o Silêncio Mais tarde, quando Isadora chegou, encontrou-o tranquilo, sentado na sala com o caderno aberto. Ela percebeu a serenidade diferente e sorriu de leve. — Você parece mais leve hoje — disse. Henrique pensou em contar. Na mensagem. Na resposta. No gesto. Mas ficou em silêncio. Não por esconder — mas porque, pela primeira vez, a decisão correta não precisava ser exibida. Era só dele. Ele levantou o olhar e sorriu. — Acho que finalmente entendi o que é escolher a paz. Isadora se aproximou e sentou ao lado dele. — Paz dá trabalho, sabia? — Eu sei — respondeu, rindo baixinho. — Mas eu estou disposto a trabalhar por ela. E, enquanto a tarde caía devagar pela janela, Henrique entendeu o que a terapia tentava ensinar há meses: que o amor não é o prêmio da redenção — é o que a gente tenta proteger depois de errar. O Fim de Um Ciclo Mais tarde, sozinho, ele abriu o caderno e escreveu uma nova linha: “Hoje, pela primeira vez, eu fechei uma porta sem precisar olhar pra trás.” E, ao fechar o caderno, percebeu que a culpa que o acompanhava há tanto tempo finalmente tinha começado a ir embora.
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