Talvez Eu Quisesse...

1875 Palavras
Ivyna Baranov Era uma manhã ensolarada, consegui perceber depois de tomar um banho e me vestir para o café da manhã. Em uns minutos que briguei comigo mesmo sobre descer as escadas, antes que meu estômago roncasse, consegui ir até a sacada do quarto e ver o sol lá no alto. Tímido. Em pleno inverno. Fechei os olhos enquanto desejava não sentir fome, não queria ver a cara do... Viktor. Ele estava tentando fazer uma lavagem cerebral em mim, e se fosse muito empenhado, conseguiria, já que joga com tudo o que eu necessito há tempos. Amor. Carinho. Cuidado. Atenção... Pois é, a vida não anda fácil para garotinhas com problemas familiar. Movo meu corpo para fora do quarto. Antes mesmo de descer as escadas sinto o aroma de café vindo... De algum lugar... Era uma mistura de cheiros que faziam meu estômago cantar bem alto. — Bom dia, senhorita Baranov. Uma das empregadas diz em um tom gentil, e aponta o caminho com a mão. — Bom dia — alargo um sorriso, e a julgar pela expressão surpresa, a mulher não esperava que eu fosse educada. — O Senhor Baranov já lhe aguarda. Isso deveria me tranquilizar? Vemos nitidamente que não! Minhas mãos tremiam, e eu sentia medo de começar a suar de uma forma indesejada. Tinha passado a noite inteira recapitulando o dia, o casamento, os votos. Os sorrisos do cretino que, mais pareciam sinceros. Mas o que mais rodava em minha mente era a parte do cuidado que teve comigo, e o desejo que tive de ter dormido nos braços dele, e não sozinha naquele quarto enorme. E era exatamente esses desejos que eu não podia me dar o luxo de sentir. Era como cair em uma armadilha. Quando adentrei ao que parecia uma sala de jantar secundária, Viktor que lia um jornal, se levantou e sorriu, deixando o papel de lado. Olhei para trás, apenas pra ter a certeza de que ele sorria para mim mesmo, e era! Desviei o olhar para o chão e pigarreei baixinho para controlar o tom de voz. — Bom dia, Viktor. — Bom dia, senhorita Baranov. Minha garganta queima, gostava do meu nome antigo, o de solteira. O que nunca deveria ter mudado. — Por favor, sente- se — ele aponta de forma gentil a cadeira, eu me sento e só depois ele faz o mesmo — como passou a noite? — Como um pássaro que trocou o ninho por uma gaiola. Ele ri enmquanto dois empregados servem nossas xícaras com café. Sinto o calor do vapor tocar meu rosto. — É uma bela analogia, mas pensei que o quarto fosse grande o suficiente, pensei que não ficaria sufocada. — Depende do ponto de vista — dou de ombros — cabe a sua arrogância? Se sim, posso julgar ser grande mesmo. Vejo quando o rosto dele se contorce em algo beirando ao desgosto. Isso. É exatamente isso que quero! Fazer ele mostrar quem ele é de verdade, ter justificativas plausíveis para não confiar nele. E de quebra, tirar de mim o desejo de ter Viktor ao meu lado, como desejei essa noite. — O que posso fazer para te deixar mais a vontade, minha querida? — ele beberica o café, a voz paciente me pegando de surpresa. — Quê? — era tudo o que eu conseguia dizer. — Não responda perguntas com outras perguntas, não acho isso muito educado, Ívyna — pisco os cílios de forma confusa — oh, me desculpe... Passei tanto tempo dando ordens aos meus sunbordinados que... — ele suspira — esqueço como me dirigir a uma dama, me perdoe, minha esposa. Fico em silêncio quando desejava gargalhar do teatro que ele fazia. Acredito que tenha perdido o medo total de enfrentar esse cana.lha. — Precisamos disso mesmo? Já não teve o que queria, Viktor? Já tirou a princesinha do papai que devia você... Pra que continuar esse jogo?Já estou presa a você sem muitas opções do que fazer, não é como se precisasse me conquistar para eu não fugir. Então. Para! Só para! Ele umedece os lábios com os olhos fixos em mim. Era isso. A fera estava quase pronta para sair da jaula e me atacar! Mas... O que acontece foi totalmente diferente do que eu esperava. Viktor suspirou e vi quando a feição mudou para algo triste, e isso revirou o meu estômago. — Eu... eu realmente pensei que tínhamos feito progresso ontem. — respirou fundo e ficou em silêncio enquanto bebericava o café. Um silêncio que começava a me incomodar — eu não sei, não sei o que fazer para conquistar, ao menos um por cento da sua confiança. Sinto algo atravessado em minha garganta, a luta entre ser respondona e sentir algo como remorço, brigavam dentro de mim. Viktor pegou a geleia de amora e passou com toda a calma do mundo em uma torrada. O silêncio começando a me assustar muito mais do que quando ele falava. — Eu... — me forcei a dizer algo, mesmo que a garganta queimasse — gosto de passeios ao jardim antes do café da manhã — ele direciona o olhar a mim, muito rápido, e eu me amaldiçoo por estar dando material para ele. — gosto... mesmo no frio... ver as flores ainda úmidas graças ao orvalho, gosto do cheiro que tem... E seria. Bom. Ter. Companhia. Digo quase engasgando, pois era uma mentira. A parte de ter companhia era pura mentira. Na minha ntiga vida eu costumava ir para o jardim para pensar, ou para me sentir pertencente e parte de alguma coisa. Gostava do silêncio. Gostava de ficar sozinha. — É. Um bom começo, senhora Baranov. Ele diz e vejo um sorriso... Não era falso, parecia sincero. Como de uma criança que acaba de descobrir algo novo sobre um brinquedo no qual possui apreço. E eu ainda não entendia os motivos de sentir o estômago gelar. — Quer dizer mais alguma coisa que goste, querida? Dou de ombros e faço que não com a cabeça. Eu realmente não queria dar material a ele. — Bem, vamos inverter por hoje. Acabando aqui, será um prazer andar pelo jardim da mansão. — ele olha ao redor — Lurdes? Uma das empregadas, a mesma senhora que me deu bom dia e me trouxe até aqui aparece, ela parecia ser a responsável pelos outros empregados. Era um conjunto de coisas que me fazia suspeitar disso. Ia para além da postura, e idade. — Sim, senhor? — Peça para que arrumem a mesa do almoço entre as flores, e em todas as manhãs sem chuva, quero que o café seja servido no jardim. — Sim, senhor — percebo quando o olhar dela desvia para mim, a senhora sorri, satisfeita, e eu me pego perguntando o que de mais eu tinha feito — Mais alguma coisa? — Sim, mude a decoração da casa, bem... A minha esposa gosta de flores, e quero que ela veja flores em cada lugar que andar. — Sim, senhor. Senhorita Baranov, quais flores gosta? Eu basicamente engasgo. Não estava planejando mudar as coisas, apenas compartilhar algo sobre mim, isso para não ver Viktor definhar em tristeza na minha frente. Sendo ffingida ou não, me incomodava. — Ah, no geral, todas — sorrio, mas a senhora continuava me olhando como quem quisesse algo a mais — bem, as papoulas, e lírios... — Qual a sua favorita? — não esperava essa pergunta vindo dele, então o olho com um pouco de surpresa. — As peônias — pigarreio ao lembrar o porque amava — eu... acho... lindas. Viktor sorri e acena para a empregada que pede licença e sai da sala de jantar. — São lindas... Olho para ele e sem querer sorrio, de lábios fechados, mas sorrio. E é claro que me odiei por isso. — Elas são... Ele volta ao café, e eu faço o favor a mim mesma de comer. ~*~ — Existe algum motivo por trás disso? — Viktor pergunta, curvando um pouco o corpo e fazendo uma concha com a mão por cima da testa, tentando bloquear os raios de sol que caem sobre o rosto dele. — Por trás do quê? — retruco, sem entender de imediato. — De acordar cedo pra olhar as flores. — Ele ergue uma sobrancelha, o tom leve, quase provocador. — Não me parece um hábito de quem está em paz. Solto um suspiro e deixo o olhar vagar pelo jardim. O ar está fresco, e o cheiro das rosas vermelhas me envolve — intenso, doce, quase hipnótico. É o único canto dessa casa que me traz algum tipo de conforto. Penso um pouco antes de responder. Não queria entregar nada que ele pudesse usar contra mim. — Não existe nada por trás disso — digo, simples. — Já falei que gosto das flores. Do cheiro... e do orvalho nas pétalas. Um silêncio tranquilo se instala. Ou quase tranquilo. O som distante das cigarras e o farfalhar leve das folhas preenchem o ar entre nós. E então, de repente, sinto o toque. A mão dele toca meu rosto. Congelo. Meu corpo fica imóvel, como se o tempo tivesse parado por um instante. Ele se inclina um pouco, o rosto próximo demais, os olhos fixos em mim com uma calma que não sei decifrar. Os dedos dele roçam minha pele com cuidado — lento, preciso — e por um momento, não penso em mais nada. O coração bate forte, denunciando o que tento esconder. Ele afasta a mão, sorrindo de leve. — Me desculpe — diz, num tom suave demais. — Tinha um farelo de torrada aqui. Meu mundo demora alguns segundos pra voltar a girar. — Ah... obrigada. — Tento soar natural, mas a voz sai baixa demais. Ele me observa por mais um tempo, como se saboreasse o desconforto que causa, ou talvez apenas gostasse da reação. — De nada — responde, sem pressa, e o sorriso dele cresce um pouco. Olho de volta para o jardim, tentando esconder o rubor que sinto subir. Percebo ele observando o mesmo canteiro de flores que eu. O vento brinca com os fios dourados do cabelo dele. — Sabia que as rosas precisam de cuidado, mas também de espaço pra crescer? — ele diz, a voz mais baixa agora, quase um sussurro. — Se alguém toca demais, elas murcham. Mas se ninguém toca… morrem sozinhas. O olhar dele se encontra com o meu, e por algum motivo não consigo desviar. Há algo naquela calma ensaiada que me desconcerta, como se cada palavra tivesse sido colocada ali pra abrir uma fresta em mim. — Eu não quero que você murche, Ívyna. — Ele estende a mão, devagar, e prende uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. O gesto é simples, mas o toque quente faz meu estômago se contorcer. — Só quero aprender a não te machucar. Fico sem resposta. O silêncio pesa, o coração bate rápido demais. Ele se afasta um passo. — Um dia você vai acreditar que tudo o que faço, é genuíno, e não um jogo de manipulação. E quando ele vira o rosto, voltando o olhar para o horizonte, me pego presa na noite anterior. E, por um instante, só um instante, penso que talvez eu quisesse beijá-lo.
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