Ívyna Laurent
Paris - Janeiro - 2018
O relógio marcava quase uma hora, e eu ainda estava tentando controlar o calor que subia pelas bochechas, sabia que minha mãe, Élodie, já estava preparando o terreno mental para me cortar antes mesmo de eu entrar na sala de jantar. Suspirei, ajustando o vestido que usava ao corpo enquanto queria desaparecer naquele instante.
A sala de jantar parecia saída de uma pintura do século XIX: lustres de cristal, porcelanas finas, talheres alinhados como soldados, toalha branca imaculada sobre a mesa longa de mogno, cada detalhe gritava tradição, riqueza, perfeição, e eu sentia que cada um deles me julgava antes mesmo de abrir a boca.
Eu me aproximei hesitante, sentindo o peso de todos os olhares. Minha mãe, Élodie, estava no final da mesa, me observando como se eu fosse um quadro m*l pintado de um artista amador.
— Finalmente resolveu aparecer, Ívyna? — disse ela, a voz afiada como lâmina cortando meus ouvidos. — Pensei que tivesse esquecido que a tradição desta família exige pontualidade.
Engoli em seco, tentando não corar de raiva.
— Me desculpe, mãe… apenas me atrasei um pouco.
Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos percorrendo-me da cabeça aos pés. — “Um pouco”? — repetiu, a entonação carregada de desprezo.
— Olhe para você… tão pálida, sem um fio de joia, o cabelo nem sequer penteado direito. Como espera que alguém leve a sério esta família?
Senti minhas bochechas queimarem, mas mantive a postura rígida, tentando que minha voz não tremesse.
— Eu não sabia que… que deveria… — Meu pai me lançou um olhar preocupado, quase implorando silêncio para evitar mais confronto, mas minha mãe não deu trégua.
— Não sabia? — riu de forma breve e c***l, batendo os dedos na mesa. — Natural. Mas saiba que não saber não é desculpa. Você representa esta mesa, cada olhar, cada palavra… cada deslize seu nos reflete de volta. Já devia estar acostumada, já que todos os dias repito as mesmas coisas.
Enquanto falava, notei o contraste entre nós. Ela estava impecável... cabelos loiros presos em um coque perfeito, joias brilhando discretamente, postura rígida, elegante até nos movimentos mínimos. E eu… tão vulnerável. O vestido simples e claro parecia me fundir à toalha branca, minha pele pálida contrastando com o luxo ao redor. Me senti pequena, infantil...
Nunca entendi a necessidade de estar arrumada como se fosse para um evento chique apenas para almoçar com meus pais, e com os empregados de pé em volta da mesa.
— Élodie… talvez seja demais. Ela está tentando… — Meu pai, Henri, finalmente falou, com a voz baixa, quase tímida.
— Tentando não é suficiente, Henri! — cortou minha mãe, sem nem olhar para ele. — Em uma família como a nossa, nunca é suficiente.
O almoço seguiu com pratos luxuosos... foie gras, salmão defumado, saladas delicadas e vinhos importados que jamais ousaria provar. Enquanto minha mãe manipulava a conversa, fazendo comentários sutis sobre gastos desnecessários, investimentos e políticas de prestígio, eu permanecia quieta, mastigando cada garfada como se estivesse engolindo pedras enormes que ficariam atravessadas em minha garganta.
— Você ainda insiste em perder tempo com piano? Ou parou com essa coisa inútil? — ela disse de repente, como se tivesse adivinhado meus pensamentos. — A dança é sua obrigação, Ívyna. Não me venha com hobbies inúteis... Perder tempo com isso vai te atrasar, na sua idade eu já estava em palcos internacionais ganhando pretígio e prêmios.
Engoli em seco. Meu pai me olhou mais uma vez como quem pedia silênci, preocupado, mas não disse nada com palavras, não precisava. Ele sabia que qualquer intervenção direta só aumentaria a hostilidade da minha mãe.
Senti vontade de desaparecer, de me perder em algum lugar onde ninguém pudesse me medir, me julgar, me alfinetar. Mas respirei fundo, tentando manter a compostura, tentando existir naquele ambiente que parecia feito para me esmagar.
Depois que saí da mesa, cada passo silencioso me levou pelo corredor longo da mansão.Havia um salão de festas um tanto afastado na mansão, e lá tínham alguns instrumentos musicais, o meu favorito, era o piano que meu avô me deu quando só tinha cinco anos... O último presente que ganhei dele antes de morrer de um câncer agressivo... O piano me esperava, imponente e silencioso, e com ele, minha pequena liberdade... Me sentia mais próxima de meu avô quando estava ali, depois de sua morte evitamos ao máximo usar o salão de festas, pois era algo que fazia meu pai definhar de saudades, e minha mãe mesmo sendo esse monstro sem coração, se importava muito com os sentimentos dele.
O piano de cauda preto parecia brilhar só para mim, toquei as teclas suavemente antes de me sentar no banco, só para sentir o som vibrar sob meus dedos, como se o instrumento me sussurrasse que aqui é um lugar seguro e livre de julgamentos.
Comecei a tocar Somewhere Only We Know, a versão melancólica de Gustixa, e logo minha voz se juntou às notas, tremendo no início, mas ganhando força a cada acorde. Cada som preenchia o salão vazio, cada frase musical dissipava o peso do almoço no ar, e isso era bom, me fazia esquecer. Eu me perdia na melodia, esquecendo a mesa impecável, os olhares de reprovação, a perfeição que me sufocava.
Quando a última nota desapareceu entre as paredes do grande salão, fiquei parada, mãos pairando sobre as teclas, coração acelerado por ter se liberto das provocações de mais cedo. Um aplauso súbito quebrou o silêncio atravessando o espaço-tempo e me alcançando — não era imaginário.
— Muito bom, minha filha. — A voz do meu pai estava ali, calorosa, profunda, quase rouca. Eu me virei rapidamente. Ele estava apoiado na porta, discreto, mas com um sorriso orgulhoso nos lábios. — Seu avô sempre soube que seu talento para piano era algo... Louvável. Eu vejo...
Senti meu peito apertar. Um misto de alívio, vergonha e carinho me invadiu, pensei que levaria uma bronca, mas lembrei que meu pai não é como minha mãe. Ele se aproximou, elegante, calmo, mas havia algo humano ali que raramente via nesta casa, a preocupação genuína pelo que eu sentia.
— Pai… — comecei, mas as palavras falharam.
Ele sacudiu a cabeça suavemente.
— Eu deveria estar mais presente, não é? — disse, isso era como um pedido de desculpas, certo?. — E sinto muito… pelo que minha postura, e a da sua mãe às vezes, possa ter causado a você, os pais erram bastante. Eu sei que é difícil, Ívyna. Mas você precisa saber que, mesmo distante, estou sempre aqui.
As lágrimas ameaçaram cair, mas eu as contive. Nunca ouvira essas palavras tão sinceras, tão diferentes do peso das palavras que saíam dos lábios da mamãe, do julgamento da tradição. Meu coração se aqueceu por um breve momento.
— Obrigada, pai — murmurei, e ele sorriu novamente, aproximando-se mais, como se o espaço entre nós diminuísse todo o peso da mansão. — E nunca se sinta culpado por isso. Eu… eu sinto falta de você, mas sei que trabalha por nós. Pra não deixar faltar nada, tenho orgulho de ser sua filha...
Ele assentiu, silencioso por alguns segundos, apenas me observando.
— É um equilíbrio difícil, filha. Mas nunca quero que você se esqueça de que eu te amo, genuínamente... Que és valiosa demais para mim — Ele fez uma pausa, olhando para o piano, para minhas mãos ainda trêmulas. — e admiro tudo o que ama fazer, não espero que siga o futuro que eu idealizo, só quero que seja feliz com suas escolhas.
Era bom ouvir essas palavras, era importante na verdade... Me fazia olhar pra mim mesma com outros olhos, o que era muito mais importante...
— Eu também amo você! Mais do que tudo...
Um beijo é estalado em minha testa, e ele faz um sinal com as mãos para que eu continuasse a tocar, lembrei de acordar no meio da tarde e ver ele sentado na sala de estar escutando uma música... Sorri, iria tocar ela...
Toco as teclas de leve, e meu pai fecha os olhos com um sorriso leve.
— I've never seen you looking so lovely as you did tonigth, i've never seen you shine so bright, hum hum... (Nunca te vi tão linda quanto hoje à noite, nunca te vi brilhar tão intensamente, hum hum...)— ele alarga o sorriso e cantarola junto comigo — I've never seen so many men ask you wanted to dance, they're looking for a little romance, given half a chance. And i have never seen that dress you're wearing, or the highlights in your hair that catch your eyes (Nunca vi tantos homens te pedindo para dançar, todos procurando um pouco de romance, se tivessem metade de uma chance. E eu nunca tinha visto esse vestido que você está usando, nem os reflexos no seu cabelo que fazem seus olhos brilharem.) — suspirei — I have been blind. (Eu estive cego.)
— Lady in red, is dancing with me, cheek to cheek (Dama de vermelho, está dançando comigo, bochecha com bochecha. )— sorria ao ver ele cantar baixinho com um sorriso bobo nos lábios — there's nobody here, its just you and me, it's where i wanna be, But i hardly know, this beauty by my side. I'll never forget the way you look tonight... (Não há mais ninguém aqui, é só você e eu, é onde eu quero estar. Mas m*l conheço esta beleza ao meu lado. Nunca vou esquecer a forma como você está esta noite...)
Paro de tocar, gostava de ver como ele parecia mais suave ao ouvir essa canção.
— Te via ouvindo essa música, parecia gostar tanto dela...
— E gosto, minha filha... Lady in red... Acredite ao não, sua mãe era essa mulher de vermelho... Uma perfeita dama quando a vi pela primeira vez em um baile de máscaras que fui com seus avós... — ele fecha os olhos mais uma vez e ria enquanto se lembrava — quando disse que tiraria a bailarina pra dançar, seu avô riu e apostou cem Euros.
— Nossa... não acreditou mesmo no seu potêncial...
— E nem eu — rimos juntos — mas eu fui até ela, mesmo me tremendo... Seu avô apostou que ela não aceitaria o pedido de casamento.
— E o que aconteceu?
— Foi um casamento luxuoso bancado por ele — meu pai abbriu os olhos e deu uma risada — sua mãe sempre foi muito rigorosa com a imagem, sempre preocupada em estar tudo perfeito, e eu consegui entender ela desse jeito, e a amo incondicionalmente! Mesmo depois de trinta anos juntos.
Sorri, mesmo não conseguindo imaginar nada de muito bom vindo dela. No meu conto de fadas, mamãe é a rainha má!
— Ela foi uma mãe maravilhosa pra você, você deu felicidade a essa casa, já tínhamos, mas você completou... E sabe, assim como nossa primeira dança foi com essa música, e nossa segunda dança no casamento também foi a primeira, eu fiz questão de colocar ela quando você chegou a essa casa, dançamos de vagar os três, olhando o quanto uma simples dança nos trouxe a essa família linda. Não ligue muito para o mau humor dela, sua mãe é assim mesmo, mas ela te ama!
Mesmo não conseguindo acreditar muito que ela me ama, sorri, porque em algum momento no passado sei que esse amor era genuíno e real.