Angelina narrando.
Sou tirada do carro nos braços do padrinho mais uma vez quando chegamos na fazenda, e dessa vez sorrio pelo arrepio que me causa, mas Lorenzo ainda está irritado.
Não falou nada durante o trajeto, nem foi r**m assim para tanta reação, ele me coloca na varanda da casa e retorna buscando as compras.
Eu devo fazer o almoço agora, espero que minhas mãos não ardam, a moça que fez minhas unhas cortou minha pele em vários lugares, diz ela que era cutícula, eu nem sabia que tinha isso.
Mas ficou bonito, me sinto uma boneca com isso, escolhi rosa claro e gostei, nunca tinha pintado as unhas, eu só tinha cortado na minha vida.
Lavo as mãos e prendo o cabelo estranhando o corte, foi tirado dois palmos, ainda está abaixo dos meus s***s, mas o coque já fica diferente.
Começo a mexer nas panelas e escuto o padrinho passar, ele vai três vezes para o meu quarto até acabar as sacolas, estou até envergonhada com tanta coisa, não queria dar esse gasto a ele.
— Angel, vou cuidar dos cavalos até o almoço, não precisa me esperar para comer, pode deixar meu prato separado. — ele manda e não tenho tempo para responder antes dele sair.
Poxa meu senhor, o padrinho é um homem maravilhoso, eu sempre sonhei com um principe, vindo me salvar daquele convento.
Imaginava ele como nas histórias que as meninas de boa família nos contavam, elas ouviam de suas babás em casa sobre homens loiros, altos, olhos azuis e montado em um cavalo branco.
O padrinho é forte, alto, mas ele é sombrio, parece até malvado quando só se vê, os cabelos são castanhos como mel, os olhos escuros como madeira, e ele ainda se veste só de coisa escura, mas ele é tão lindo.
Mais lindo do que qualquer homem que já vi, e ele é tão bom, gentil.
Ele até se estressa, mas é culpa minha, a madre sempre disse que eu irritava a todos, eu preciso ser mais grata a ele, apenas hoje ele já me deu mais do que em uma vida inteira eu teria.
[...]
Me sento no chão como sempre, recosta na parede e cruzo as pernas, faço minha oração por tudo o que recebi hoje, grata a Deus por me proporcionar tudo isso, faço a cruz em meu corpo.
— Licença dona — abro os olhos assustada para o homem na entrada de serviço, ele tira o chapéu e me olha sorridente.
Saio do chão rapidamente me levantando com a laranja e faca que eu tinha em mãos, estava pronta para comer, arrumo o meu vestido quando ele olha para minhas pernas rapidamente.
— Oie, o padrinho não está. — digo baixo e fico confusa em como agir, a Madre dizia para manter a cabeça baixa se um de fora chega, mas o padrinho não manda eu abaixar a cabeça.
— Eu sei, vi o patrão com o cavalo, eu vim é saber se tem uma boia sobrando, esqueci a minha, e o cheiro daqui da casa grande se espalhou até os peão.
— Ah. — agora eu entendo, bem, a madre fala para não negar comida aos de fora, para tirarmos de nossa boca para dar ao próximo, e como o padrinho nunca disse nada sobre isso eu sigo o que aprendi antes. — Posso colocar em um pote?
— Como a dona quiser.
Me abaixo pegando u pote descartável grande e destampo as panelas, apenas o feijão eu deixo mais tempo para engrossar mais, mas eu tiro para o rapaz em sua marmita.
Monto bem generosamente deixando o do padrinho, espero que ele não fique bravo de eu fazer isso, depois irei procurar saber qual a sua ordem sobre isso.
— Aqui, coloquei um pouco de tudo. — digo entregando o pote a ele que demora segurando em minha mão.
— Obrigada dona, você é uma formosura, é afilhada do patrão? — ele questiona e puxo minha mão as escondendo em minhas costas.
— Sim, ele me abrigou e me tirou do convento, agora eu tomo conta da casa, limpo e cozinho.
— Então a moça é para casar. — ele diz e vejo o padrinho vindo por trás dele.
Eu apenas o observo chegar irritado, rápido e sem paciência, não respondo o que o moço continua perguntando e falando, focada em como a luz fica no padrinho.
Ele fica tão bonito assim, suado, sua pele brilhando dourada, a camisa um pouco aberta deixa o seu peito grande à mostra.
Sinto meu rosto queimar o observando e me assusto com o moço a minha frente tocando meu cabelo, dou um passo para trás o olhando feio.
— Você já recebeu a comida, pode ir agora. — digo e ele nem tem tempo de responder com a chegada do maior.
— Que p***a você está fazendo aqui? — ele fala bem irritado puxando o homem pelo ombro.
— Patrão, eu vim aqui pedir uma comida e. — ele não termina de falar ao ser puxado pela gola da camisa agora, o padrinho está muito bravo.
— Ninguém chega perto dela nessa casa, p***a! — a voz do padrinho ecoa como um trovão, grossa e pesada, vibrando na madeira das paredes e no meu peito apertado, dou um passo para trás assustada, e o rapaz se não estivesse segurado faria o mesmo.
Vejo o moço arregalar os olhos, sem entender se deve falar ou fugir. Não dá tempo de decidir. O padrinho empurra o ombro dele com tanta força que o pobre se desequilibra e quase tropeça nos próprios pés.
— Some daqui antes que eu te faça engolir cada dente, está avisado. — ele cospe as palavras, com o maxilar apertado, as veias do pescoço saltando, os olhos escuros queimando como carvão em brasa.
O homem não pensa duas vezes, vira nos calcanhares e dispara porta afora, tropeçando no batente. Ouço o barulho das botas correndo pelo terreno, levantando poeira, e só então percebo que estou sem respirar.
Fico imóvel, com as mãos escondidas nas costas, os olhos no chão, sem coragem de erguer o rosto pra ele. Sinto meu corpo pequeno encolher ainda mais quando ele para na minha frente. Ele não diz nada no primeiro momento, só respira forte, pesado... quente. E quando enfim fala, sua voz é um arrastar grosso, profundo, que me arrepia até o fio de cabelo mais escondido.
— Faça o que quiser de boa ação Angel... mas não deixa nunca mais outro homem respirar o mesmo ar que você assim tão perto. — Ele pausa e eu sinto o peso da sua mão quente encostando no meu rosto, seus dedos ásperos deslizando pela curva da minha bochecha até segurarem firme meu queixo, me forçando a olhá-lo. — E se alguém encostar nesses cabelos de novo... vai ser a última vez que eles encostam em qualquer coisa nessa vida.
Minha boca se abre devagar, mas nenhuma palavra sai. O coração martela tão alto que parece que vai explodir dentro de mim. Eu só consigo assentir, um movimento pequeno e confuso com a cabeça, quase sem pensar, sem entender por que ele me olha desse jeito, ou por que minha pele queima onde ele me segura. Meus olhos grudam nos dele, e o peso do olhar dele é tanto que tenho que me segurar pra não baixar de novo a cabeça.
Ele solta meu rosto devagar, mas não se afasta muito. Respira fundo, fechando os olhos por um instante, como se controlasse alguma coisa que quer sair.
— Algo está queimando— ordena, mais baixo agora, a voz ainda firme, mas menos pesada.
Assinto de novo e me viro sem hesitar, indo até as panelas. Minhas mãos tremem levemente, mas me concentro em desligar as bocas do fogão, sem saber qual agora queima. Espero ele sair, mas ele continua ali, atrás de mim, até que diz:
— Vou subir pra um banho rápido. — Sua voz é diferente agora, mais calma, mas ainda mandona. — Você vai almoçar comigo na mesa depois.
Eu não respondo. Ele já saiu está subindo as escadas, os passos pesados ecoando até lá em cima.
Observo que um bife extra que queimava, e dessa vez menos culpada eu pego dois ovos os fritando para mim. Preparo o prato do padrinho e tenho que parar e respirar algumas vezes para parar de tremer nervosa, ainda abalada pela proximidade.
Levo o prato dele até a mesa de jantar, deixando tudo arrumado, do jeitinho certo, como aprendi no convento, o copo, bebida, talheres nos respectivos lugares, guardanapo dobrado… e então volto a minha cozinha.
Misturo arroz com ovo para eu comer e me recuso a ir para a sala de jantar, o padrinho é de boa família, não pode sentar a mesa comigo, eu na verdade que não posso sentar em qualquer mesa para comer, depois permanecer no chão.
Me sento no cantinho que antes eu dormi, cruzo as pernas como sempre faço, e pego meu prato. Faço meu sinal da cruz antes de comer, orando baixinho em agradecimento.
Estou terminando a oração quando escuto a voz dele outra vez.
— Por que você come no chão? — ele pergunta, sem raiva agora, só com aquele jeito de quem manda e espera resposta.
Levanto os olhos devagar, vejo ele parado ali, encostado na porta, ainda secando os cabelos com a toalha jogada no ombro, apenas usando uma calça jeans e nada mais, algumas gostas de água escorrem e se divertem em seu abdômen, me deixando perdida por instantes. Engulo seco antes de falar.
Mas a cena me atrai, cada músculo fica mais evidente com a forte iluminação do dia, o padrinho é mais do que lindo, ele é uma obra prima, algo desenhado pelo senhor.
— Eu... eu nunca tive esse hábito, padrinho — respondo baixo, desviando os olhos de novo pro prato, ele não pode estar tão bonito assim perto de mim.
Ele suspira fundo, passa a mão pelo rosto como se estivesse cansado, e então ele sai, quando começo a comer me assusto com seu rápido retorno. Com o prato dele se aproximando sem dizer nada, vem caminhando até onde estou e, sem que eu possa impedir, se senta no chão comigo. Ele estica as pernas, encosta as costas na parede, imitando a minha posição.
— Se você quer sentar assim e não junto de mim, Angel... então eu vou fazer igual — diz ele, com aquele olhar firme, desafiador, como se não tivesse escolha pra mim além de aceitar.
— Padrinho... não precisa... o senhor não precisa fazer isso. Eu não mereço sentar junto do senhor na mesa, esse é o meu lugar, não o seu. — Tento argumentar, ainda sem entender esse lugar que ele me dá, esse espaço que parece não caber em mim, o padrinho me como alguém melhor que jamais serei.
Mas ele só n**a com a cabeça, sem paciência pra discussão, e começa a comer, me deixando sem palavras.
Fico quieta, observando ele mastigar devagar, olhando pro nada, como se tivesse esquecido a raiva de antes. Eu não sei o que fazer, então apenas volto a comer meu arroz com ovo, sentada no chão ao lado dele, rezando em silêncio pra não fazer mais nada de errado.
Mas no fundo... algo em mim aquece com o jeito que ele me olha, com a forma como ele me coloca perto, como se quisesse me proteger de tudo.
Mesmo que eu não entenda. Ainda.