Revelações inesperadas

1090 Palavras
O papel entre as minhas mãos treme, como se os meus próprios nervos fossem capazes de atravessar a folha fina. M*al consigo respirar enquanto leio as primeiras palavras, cada uma escrita com a precisão característica de Fernando. A sua caligrafia, impecável, não reflete a gravidade do conteúdo que pouco a pouco começa a se desenrolar diante dos meus olhos. Querida Sofia, se você está lendo isto, é porque eu já não estou mais com você. Dói-me pensar na dor que você pode estar sentindo neste momento, mas também sei que esta carta, e outras que deixei para você, trarão algumas respostas que você precisa. A menção do meu nome e o tom tão ínti*mo da carta fazem com que a minha garganta se feche por um instante. Respiro fundo e continuo lendo, enquanto o meu coração bate forte. Quero que saiba que o nosso casamento, apesar de tudo o que possam dizer, foi muito importante para mim. Desde o primeiro momento em que te conheci, soube que você era diferente. Despertaste em mim um sentimento paternal e de proteção tão forte, um sentimento que eu não sentia há muito tempo. As lágrimas começam a se acumular nos meus olhos. Havia passado tanto tempo me convencendo de que o meu relacionamento com Fernando tinha sido um fardo para ele, que ler essas palavras me desarma. Talvez, afinal, ele tivesse sentido algo mais profundo por mim. Sei que você se encontrou no meio de uma situação difícil com o Alex. Ele é um homem complexo, e embora a atitude dele em relação a você tenha sido dura, não posso culpá-lo. Perdi muito tempo com ele, tempo que jamais poderei recuperar. O nosso distanciamento é, em grande parte, culpa minha, e temo que você tenha pago por isso. No entanto, quero que saiba que o incluí no testamento não apenas por obrigação. Fiz isso porque acredito que, à sua maneira, ele também pode aprender algo com você, e também protegê-lo dessas pessoas... Essas pessoas? O que ele quer dizer com isso? Sofia, você precisa saber mais alguma coisa. Há um motivo pelo qual estabeleci essas condições no testamento. Não só queria garantir que ambos recebessem o que lhes é devido, mas há algo mais em jogo. Um segredo que guardei por muito tempo e que, infelizmente, não tive a oportunidade de te revelar antes. Na minha escrivaninha, dentro do compartimento oculto na parte inferior da gaveta direita, você encontrará mais respostas. Espero que, quando descobrires a verdade, possas perdoar-me. O último parágrafo me deixa gelada. Um segredo? O que mais Fernando tinha estado escondendo? De repente, sinto como se estivesse presa num romance de mistério, numa trama tecida com decisões e erros do passado. Apresso-me em direção à mesa de Fernando. As minhas mãos tremem enquanto abro as gavetas, procurando o compartimento secreto mencionado na carta. Após alguns instantes de frustração, finalmente o encontro. Com cuidado, retiro o fundo falso e descubro um envelope selado e um conjunto de documentos. O envelope é mais grosso que a carta. Quando o abro, o conteúdo me deixa de boca aberta. Entre os papéis há fotos minhas desde que eu era criança, fotos do meu pai, dos meus meio-irmãos e da minha madrasta... Será possível que Fernando tenha descoberto a verdade? Aquela verdade que tanto me esforcei para esconder. Não, não pode ser... Se eu soubesse, ele não teria se casado comigo, muito menos me deixado a sua herança. Mas junto com as fotos também há uma carta dirigida a Alex. Deixo a carta de lado e me concentro na pilha de documentos. Antes que eu possa começar a ler, ouço passos. Alex. O som dos sapatos dela no corredor me alerta, e por um momento o pânico me invade. Rapidamente guardo tudo de volta no compartimento e fecho a gaveta bem antes da porta abrir. — O que você está fazendo aqui? A voz de Alex, carregada de suspeita, corta o ar. Viro-me, tentando manter a calma. Está de pé no limiar, com os braços cruzados e um olhar frio. A tensão no seu corpo é palpável. — Não conseguia dormir. Respondo, com uma serenidade fingida. — Pensei que aqui poderia encontrar um pouco de paz. Alex me observa por um longo tempo, avaliando cada gesto. Avança lentamente em direção à mesa, e sinto o ar na sala ficar mais denso. Cada passo seu o aproxima mais da verdade que devo esconder a todo custo. — Este lugar está cheio de lembranças. Ele comenta finalmente, embora o seu tom sugira que nem todas são agradáveis. — Isso te traz paz ou mais dúvidas? Trago saliva, consciente do peso que levo comigo. Alex não deve saber quem eu sou. Não sei como responder, e temo que os meus olhos me entreguem. — Ambas as coisas, suponho. Murmuro, evitando o seu olhar. Ele para em frente à escrivaninha, deslizando uma mão sobre a superfície de madeira, como se evocasse memórias da sua infância. O silêncio que nos envolve é denso, carregado de palavras não ditas. — Meu pai guardava muitos segredos. Ele diz de repente, quebrando o silêncio. — Talvez mais do que você possa imaginar. Olho para ele surpresa. Acaso ele também sabe algo? Ou ele está simplesmente projetando a sua desconfiança em mim? — Todos temos segredos. Respondo com cautela, medindo cada palavra. Alex sorri, mas não há calor no seu gesto. É um sorriso amargo, cheio de ressentimento. — Suponho que sim. Ele dâ meia-volta e caminhe em direção à porta, mas antes de sair ele para e me lança um olhar por cima do ombro. — Só espero que, quando os seus vierem à tona, não nos destruam a ambos. E com essas palavras, Alex sai do escritório, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. A sala parece mais escuro agora, como se os segredos que guardo tivessem absorvido toda a luz. Permaneço de pé, imóvel. Sei que, de alguma forma, tudo está prestes a mudar, e que se Fernando descobrir o meu segredo, isso não só afetará o meu relacionamento com Alex, mas também tudo o que eu achava saber sobre ele. O passado voltou para reivindicar o seu lugar no presente, e devo decidir se estou disposta a enfrentá-lo... ou a continuar escondendo-o. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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