Não confio em você

1172 Palavras
A tensão na casa torna-se palpável a cada dia que passa. Os funcionários caminham com passos silenciosos, cuidando para não estarem no mesmo lugar que nós ao mesmo tempo. Sabem que qualquer palavra fora do lugar pode acender a faísca para um novo conflito. Alex continua sem aparecer na mansão, sempre com alguma desculpa de trabalho ou reunião de negócios. Eu, por minha parte, comecei a me sentir como um fantasma, movendo-me pelos corredores em silêncio, cuidando das plantas na estufa, lendo os livros que Fernando um dia apreciava. Sentindo-me muito sozinha, sentindo cada dia mais a falta dele. Uma noite, Alex chegou mais tarde do que o habitual. O som da porta principal abrindo ressoa por toda a casa, e eu, que estou na cozinha me servindo uma xícara de chá, sinto o meu corpo tensionar. Não o vejo o dia todo, e embora me esforce para evitá-lo, cada encontro com ele é inevitavelmente doloroso. Ouço os seus passos se aproximando. Não tenho intenção de sair correndo, mas meu coração bate forte quando Alex entra na cozinha. Ele está vestido com o seu traje habitual, mas seu rosto parece mais cansado do que o normal, como se o peso da suas responsabilidades estivesse desgastando-o aos poucos. — Tarde? Pergunto, tentando soar casual, embora os meus olhos o estudem com cuidado. Alex não responde imediatamente. Vá direto para a geladeira e pegue uma garrafa de água. A tensão na sua mandíbula é evidente enquanto ele bebe, seus movimentos calculados, como se estivesse tentando me ignorar completamente. — Trabalho. Ele murmura finalmente, sem me olhar. Sento-me, mantendo o olhar fixo na minha xícara de chá. Não espero uma conversa, muito menos uma explicação. Afinal, Alex sempre deixou claro que as nossas vidas, embora legalmente unidas, permanecem completamente separadas. — Imagino que é difícil levar tudo sozinho. Digo, mais para quebrar o silêncio do que por outra coisa. Alex deixa a garrafa sobre a bancada com um baque seco. Os seus olhos finalmente encontram os meus, e a intensidade do seu olhar me obriga a endireitar um pouco mais. A raiva que normalmente o acompanha foi substituída por uma espécie de exaustão. — Não preciso da sua compaixão, Sofia. Ele responde com um tom áspero, embora haja algo diferente desta vez. — Tudo isso, a empresa, as decisões... é minha responsabilidade. Meu pai me deixou isso porque confiava em mim. Não em você. Então poupe os seus comentários. O desprezo nas suas palavras me atinge como uma rajada de ar frio, mas já estou tão acostumada a esse tipo de resposta. Quase que eu esperava por isso. — Não era compaixão. Digo, mantendo a voz calma. — Só estava tentando ser gentil. Alex solta uma risada curta e sem humor. Apoia-se na bancada, cruzando os braços à sua frente, a sua postura dominante e desafiadora. — Gentil. Ele repete. — Isso é novo em você. Tudo o que você fez desde que chegou nesta casa foi com um objetivo. Até mesmo casar com meu pai foi um movimento calculado, e agora isso... tudo o que você faz é planejado. Olho para ele com os olhos semicerrados, cada palavra que sai da sua boca está carregada de veneno. Durante semanas tenho tentado raciocinar com ele, tenho tentado não cair no seu jogo de insultos e acusações, mas desta vez algo dentro de mim se quebra. Endireito-me completamente, deixando a xícara de chá sobre a mesa com mais força do que pretendia. — Você realmente acha que eu planejei tudo? Perguntei com a voz mais baixa, mas cheia de raiva contida. — Você realmente acha que casar com Fernando foi uma decisão fria e calculada? Que tipo de pessoa você acha que eu sou, Alex? Ele se aproxima, os seus olhos ne*gros fixos nos meus, e o espaço entre nós se encurta perigosamente. A tensão é palpável, e a proximidade de Alex me faz sentir presa. — O mesmo tipo de pessoa que se casaria com um homem que tem o dobro da idade dela por dinheiro. Ele responde com frieza. — Você não passa de uma oportunista, e sabe disso. Sinto a raiva ferver nas minhas veias, e antes que eu possa me deter, dou um passo em direção a ele, plantando-me firme diante do seu peito. Os meus olhos o desafiam a continuar, mas desta vez não vou recuar. — Você não tem ideia do que foi meu relacionamento com o Fernando! Exclamei, com uma mistura de dor e raiva na minha voz. — Eu o amava, e não pelo dinheiro dele, nem pelo que ele pudesse me dar. Eu o amava porque ele me fez sentir viva quando eu mais precisava. Me deu um lar quando eu não tinha nada, e você, Alex... Olho para ele com uma mistura de frustração e tristeza. — Você não consegue ver além do seu ódio. Você não consegue ver o que ele foi para mim porque está cego demais pelo seu rancor. Alex aperta os punhos, sua mandíbula tensa, mas não diz nada. Pela primeira vez, parece não ter uma resposta pronta, como se as minhas palavras o tivessem desestabilizado. O silêncio entre nós é espesso, e o meu pulso ressoa nos meus ouvidos enquanto o observo, esperando que ele reaja. Finalmente, Alex se afasta, quebrando o contato visual. Dá um passo para trás, com os olhos escurecidos, e respira fundo antes de falar. — Isso não muda nada. Ele diz com uma voz mais controlada, mas ainda carregada de tensão. — Não importa o que você diga ou o que tente fazer, Sofia. Não confio em você. E jamais o farei. Sinto que um nó se forma na minha garganta, mas me recuso a deixar que ele veja o quanto as suas palavras me afetam. Sento-me lentamente, sem baixar o olhar. — Não estou pedindo que confie em mim. Respondo, com uma calma que m*al consigo manter. — Só te peço que, por uma vez, tente ver a verdade. Mas claro... suponho que isso é pedir demais. Alex me olha por mais um instante, como se quisesse dizer algo, mas em vez disso se vira e sai da cozinha sem dizer mais uma palavra. Os seus passos se desvanecem pelos corredores da mansão, deixando-me sozinha, com o eco das minhas palavras ressoando no ar. Sento-me lentamente em uma das cadeiras, o meu corpo ainda tremendo pela intensidade do confronto. Pergunto-me se algum dia Alex conseguirá ver além do seu ódio, se algum dia será capaz de compreender que o que sentia por Fernando era real. Mas enquanto contemplo o vapor que escapa da minha xícara de chá, não posso deixar de me perguntar se essa guerra silenciosa acabará destruindo nos dois, antes que essa hora chegue. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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