Entre o ódio e o dever

1085 Palavras
Fico em silêncio, olhando para Alex enquanto ele atravessa a sala com passos furiosos, como se apenas andar pudesse quebrar as paredes daquele escritório. O advogado observa a cena com a mesma calma com que acabou de ler o testamento. Para ele, isso é apenas um trâmite, mas para mim, é o início de um infe*rno que jamais imaginei. — Não vou cumprir isso. Murmura Alex, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto para em frente a uma das janelas do escritório. A luz do sol entra a jorrar, mas nada no ambiente pode acalmar a sua fúria. Observo-o do outro lado da sala, sentindo uma mistura de angústia e desconforto. — É o que seu pai desejava. Responde o advogado, impassível, como se não notasse o vulcão prestes a explodir na figura de Alex. Ainda não consigo processar o que aconteceu. Há poucos dias enterrei meu marido, o único homem que me deu estabilidade numa vida cheia de incertezas, e agora estou diante do meu pior pesadelo: casar com Alex, um homem que me odeia tanto que parece gostar de cada insulto que me dirige. Fernando nunca me havia falado sobre esta última vontade, e isso me deixa mais confusa. Por que ele faria algo assim? Por que eu teria querido me unir ao homem que me despreza tanto? — Se você não cumprir. Acrescenta o advogado, voltando o olhar para Alexandro. — Ambos perderão tudo. As empresas, as propriedades, tudo será transferido para obras de caridade. Sinto um nó se formando no meu estômago. As empresas de Fernando eram seu legado, o trabalho de toda a sua vida. Ele sempre foi um homem generoso, mas nunca pensei que ele imporia uma condição tão estranha para sua herança. Pergunto-me se ele fez isso por amor, para garantir que ela estivesse protegida, ou se houve outro motivo mais profundo que não consigo entender. Alex, com os punhos cerrados, gira sobre os calcanhares e olha para mim. Os seus olhos escuros, cheios de desprezo, estudam-me como se eu fosse a fonte de todos os seus problemas. O ar se enche de uma tensão que parece apertar cada canto da sala. — Não posso acreditar que isso está acontecendo. Ele diz com a mandíbula apertada. — Isso é culpa sua, Sofia. Sempre soube que você estava atrás do dinheiro do meu pai, mas nunca imaginei que você chegaria tão longe. Olho para ele fixamente, tentando não me deixar intimidar por sua atitude agressiva. Alex sempre me tratou como uma intrusa, alguém que não merece estar na família, e agora o seu ódio parece ter se intensificado. — Eu não sabia nada disso. Respondo, com voz firme, embora o meu interior esteja tremendo. — Fernando nunca me disse nada sobre o seu testamento. Isso é uma surpresa para mim tanto quanto é para você. Ele solta uma risada amarga, como se as minhas palavras fossem a confirmação de uma grande piada. — Claro. Você acha que eu vou acreditar nisso? Você é uma atriz tão boa, Sofia. Sempre foi. Você sabe muito bem como manipular as coisas a seu favor. O advogado, vendo que a conversa está prestes a ficar mais pessoal do que o necessário, intervém. — Recomendo que tirem uns dias para pensar na decisão. O casamento é um requisito para herdar, mas vocês têm tempo para considerar isso. Alex não dá importância. Ele está muito concentrado no ódio que sente por mim. Ele se aproxima de onde estou, cada passo fazendo com que a distância entre nós se torne insuportável. Quando está perto o suficiente, ele abaixa a voz e, com um olhar de puro rancor, murmura: — Aproveite a sua pequena vitória. Porque se você acha que vou tornar isso fácil para você, está enganada. Você nunca fará parte desta família. Olho nos olhos dele, tentando manter a calma. Não posso ne*gar que Alex me intimida, mas também sei que ele está sofrendo. Perdeu o pai, e embora ultimamente a relação deles não fosse tão próxima, o vazio da morte dele intensificou o ódio dele. Ainda assim, não estou disposta a me deixar ser pisoteada. — Não se trata de uma vitória, Alex. Respondo, com mais calma do que sinto. — Isso é um desastre para ambos. Alex se vira, frustrado, e sai do escritório, deixando para trás um rastro de raiva contida. Respiro fundo, tentando me recompor. Não consigo evitar pensar que tudo isso é uma armadilha do destino, um teste impossível de superar. O advogado fecha o testamento com um clique suave, guardando os documentos na sua pasta. Antes de ir embora, ele se volta para mim e me dedica um olhar compreensivo. — Vocês têm um mês para decidir. Se não cumprirem a condição, tudo se perderá. Se precisarem do meu conselho, estarei disponível. Sento-me sem dizer uma palavra. Quando o advogado vai embora, a casa parece ficar ainda mais vazia do que já estava. Tudo é demais, rápido demais. A morte de Fernando, este casamento forçado, o ódio implacável de Alex. Sinto-me como se estivesse presa numa tempestade sem saída. Subo lentamente para o quarto que dividia com Fernando, o lugar onde me sentia mais segura. Ao entrar, tudo continua igual: as fotos, os livros que ele tanto amava, o seu aroma impregnado em cada canto. Sento-me na cama, olhando para uma das fotografias na cômoda. É uma foto de nós dois, tirada no nosso primeiro aniversário. Fernando me olha com aquele sorriso caloroso que sempre me dava paz. — Por que você fez isso? Murmuro para o ar, esperando uma resposta que não vem. Deito-me, sentindo o peso do silêncio ao meu redor. O único som é o leve tique-taque do relógio na parede. Sei que não tenho muito tempo para pensar. Se eu perder tudo o que Fernando me deixou, a minha vida voltará ao caos do qual ele me resgatou. Mas casar com Alex, um homem que me odeia com tanta intensidade, parece um pesadelo. Fecho os olhos, tentando encontrar respostas na escuridão. Mas a única coisa que vejo é o rosto de Alex, seu olhar de desprezo, e a certeza de que, se aceitarmos esta união, os próximos meses serão os mais difíceis das nossas vidas. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR