Não posso crer que você o amava de verdade

1218 Palavras
A mansão envolve-se num silêncio opressivo à medida que a noite avança. As sombras dançam nos cantos, alongando-se com a luz tênue das luminárias de chão. O luxo que permeia cada canto da casa não consegue dissipar a sensação de vazio que ficou desde a morte de Fernando. Desloco-me lentamente pelos corredores até chegar à biblioteca, o único lugar onde consigo respirar sem sentir o peso dos olhares ausentes que me perseguem no resto da casa. Paro um momento ao entrar, como se quisesse absorver o aroma de couro e papel velho, lembranças das tardes que passava com Fernando entre aquelas paredes. Eu gostava de ler ao lado dele, embora em algumas ocasiões ficássemos apenas em silêncio, sentindo a paz que ambos encontrávamos na companhia mútua. As cortinas grossas estão fechadas, abafando qualquer ruído do exterior, e as paredes parecem absorver o próprio tempo, fazendo-o passar mais lentamente. Acaricio com delicadeza o lombo de um dos livros antigos. Está gasto, mas bem cuidado, como tudo o que pertencia a ele. Levo-o ao nariz, inspirando o cheiro que me é familiar, como um vestígio do homem que tanto amei e que agora não está. Fecho os olhos, lembrando do seu sorriso e das palavras que costumava sussurrar para mim. Naqueles momentos, Fernando parecia um homem muito diferente daquele que todos conheciam. O leve som da porta abrindo interrompe meus pensamentos. Sem precisar olhar, sei quem é. Alex. Ele sempre consegue aparecer nos momentos mais inoportunos. Não é que eu tenha me acostumado com a presença dele, mas nestes dias tivemos que aprender a coexistir, embora a tensão entre nós seja palpável. Alex se aproxima, os seus passos ressoando no chão de mármore. Há algo na sua forma de andar que exala autoridade e controle, como se quisesse demonstrar que ele, apesar de tudo, ainda é o dono da situação. Sem dizer uma palavra, ele para perto de uma das estantes, observando os livros, embora o seu interesse pareça distante. Continuo de costas, esperando o inevitável comentário mordaz ou o olhar de desprezo com que costuma me receber. Mas desta vez, Alexandro demora mais para falar. — Você sempre vem aqui? Ele pergunta, quebrando o silêncio. A sua voz está mais suave do que o normal, quase abafada. Viro-me lentamente. Alex está em pé em frente a uma estante, com as mãos nos bolsos do seu impecável terno preto, observando os livros com uma expressão pensativa. É uma imagem diferente da que estou acostumada a ver nele, e isso me desconcerta por um momento. — Gosto deste lugar. Respondo finalmente, cruzando os braços. — Era um lugar especial para o seu pai. Ele concorda com a cabeça, mas continua olhando para os livros. Os seus dedos roçam um volume antigo, mas ele não o pega. Observo-o com cautela, tentando decifrar o motivo por trás da sua repentina calma. — Este era o seu refúgio. Diz Alex, como se falasse para si mesmo. — Passava horas aqui, lendo ou simplesmente pensando. Às vezes eu me perguntava em que ele estava tão absorto. Naquele momento, sinto uma pontada de compaixão por ele, mas não deixo essa emoção vir à tona. Alex sempre manteve uma distância emocional, e não tenho certeza de como ele reagiria se percebesse alguma vulnerabilidade da minha parte. — Eu acompanhava ele aqui algumas noites. Comentei com a voz m*al um sussurro. — Ele gostava de discutir sobre livros. Embora, às vezes, simplesmente nos sentássemos em silêncio. Fernando encontrava paz aqui, longe de tudo o mais. Alex fica em silêncio por um momento, a sua mandíbula tensa. Os seus olhos, sempre tão frios e calculistas, parecem perder um pouco da sua dureza. Vejo-o debater-se internamente, lutando entre a desconfiança que sente por mim e as lembranças do pai. — Não sei o que você viu nele. Ele diz, finalmente quebrando o momento de tranquilidade com o seu tom mais azedo. — Ele era muito mais velho que você, e você... não consigo acreditar que o amava. Não, de verdade. Sinto como essas palavras me atravessam, mas mantenho a calma. Já ouvi essas acusações antes, e embora doam, aprendi a ignorá-las. — Não espero que você entenda. Respondo suavemente, mas com firmeza. — E não vou te pedir para fazer isso. Mas o que havia entre Fernando e eu era real. Não era um relacionamento convencional, eu sei, mas não preciso me justificar para você. Alex me olha, e por um instante parece que vai dizer mais alguma coisa. Os seus lábios se entreabrem, mas ele os fecha rapidamente novamente. Em vez disso, ele se afasta da estante e caminha em direção a uma das grandes janelas que dominam a sala, embora as cortinas permaneçam fechadas. Posso sentir o conflito interno nele, a batalha entre a sua necessidade de me desprezar e a sua própria confusão pelos sentimentos contraditórios que me cercam. — Por que você não me disse nada? Ele pergunta finalmente, a sua voz m*al um murmúrio que se mistura com o silêncio pesado da biblioteca. — Se ele realmente te amasse, por que não me falou de você? Respiro fundo antes de responder. É uma pergunta difícil, e embora eu tenha algumas ideias, não tenho certeza de como Alex as receberá. — Talvez ele achasse que você não entenderia. Respondo com sinceridade. — Você e Fernando... sempre tiveram um relacionamento complicado. Talvez ele não quisesse adicionar mais tensão entre vocês. Ou talvez ele pensasse que você nunca aceitaria o que tínhamos. Permanece de pé, olhando para a cortina como se pudesse ver algo além dela. O seu corpo está tenso, seus ombros rígidos, mas há algo na sua postura que reflete mais vulnerabilidade do que ele mostrou até agora. — Meu pai nunca foi um homem fácil de entender. Ele murmura, como se estivesse falando mais consigo mesmo do que comigo. — Mas eu... achei que o conhecia melhor do que ninguém. E no entanto, aqui estamos. Dou um passo à frente, sentindo que pela primeira vez, Alex está abrindo uma porta que sempre manteve fechada. Mas sei que não posso forçar esse momento. Devo deixá-lo processar o que sente no seu próprio ritmo. ‍​— Fernando te amava. Digo suavemente. — Sempre falava de você com orgulho, embora nem sempre demonstrasse. O que aconteceu entre nos não tem nada a ver com o que ele sentia por você. Não te excluiu. Solta um leve suspiro, embora não me olhe. Após alguns segundos, ele se vira e começa a caminhar em direção à porta. Justo antes de sair, ele para e lança um último olhar para mim. — Temos aquele jantar amanhã. Ele diz em tom baixo, mas autoritário. — Não se esqueça que isto é apenas um acordo. Não espere mais nada de mim. Sento-me, embora sinta que algo mudou no ambiente. Alex sai, deixando a biblioteca em silêncio novamente, mas desta vez, o eco da suas palavras ressoa na minha mente enquanto me pergunto quanto tempo poderemos manter essa trégua antes que as tensões voltem a aumentar.‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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