CAPÍTULO 29

1099 Palavras
Os ânimos na delegacia estavam à flor da pele. A pressão era grande. Mas Bruna não seria prejudicada. Não enquanto eu estivesse respirando. Arnaldo pediu pra conversar com ela antes do depoimento uma “orientação”, como ele mesmo chamou. Confiei. Mas quando ela saiu da sala… não era a mesma mulher que entrou. Ela estava mais contida. Mais baixa, encolhida, como se estivesse se protegendo de algo invisível. O olhar dela não encontrou o meu. Fiquei em silêncio. Mas dentro de mim algo ruía. Sabia que essa merda toda deixaria rastros, mesmo que eu tentasse poupar. Não pude acompanhá-la no interrogatório, mas estava atrás do espelho fosco. O coração saindo pela boca. Ela estava firme. Firme até demais. Respondia sem hesitar. Mas suas mãos… As mãos se esfregavam nervosas, os dedos tremiam. Era o corpo gritando o que a boca se esforçava pra esconder. Não mentiu em nada. Contou que fazia os corres pro Canário. Serviços pequenos, mas que já bastavam pra me deixar com o sangue fervendo. Ver a mulher que eu amo naquela sala, sob pressão, foi como tomar soco no estômago por duas horas seguidas. Era a poŕra de uma tortura emocional. E quando finalmente terminou… Ela saiu da sala, me viu, e apenas disse: - Quero ir pra casa. - Mas e o almoço? Podemos passar lá e... - Pra casa, Marcelo. Por favor. Ela nem me olhou. E uma lágrima escorreu. Silenciosa, do lado esquerdo do rosto. Não insisti. Respeitei o silêncio. Mas meu peito se encheu de angústia. No caminho inteiro, não trocamos uma palavra. O carro parecia um caixão de vidro, onde dois corações batiam de medo e dor. Estacionei. Ela subiu direto pro banheiro, sem dizer nada. Fechou a porta devagar. Fiquei parado ali na sala, tentando respirar sem engasgar. Caminhei até a porta. - Vou buscar o Arthur… Volto logo. Nenhuma resposta. Só o som do chuveiro, e o silêncio que grita. Fechei a porta com o mesmo cuidado de quem não quer quebrar o pouco que restou do que a gente construiu. Mas por dentro, tudo já estava em pedaços. Arthur me recebeu com aquele sorriso sujo de Toddynho, e isso foi o suficiente pra amaciar qualquer dureza que o dia tivesse me deixado. - Tioo! Eu fui no parquinho da vó Lúcia, viu? Corri mó rápido! - ele disse me abraçando pela perna. - Aposto que ganhou de todo mundo. - sorri, pegando ele no colo. Era incrível como aquele moleque tinha a capacidade de puxar meu humor pra cima sem esforço algum. Era leve, era verdadeiro. No carro, ele cantava uma música de um tal patinho, desafinado. E naquele momento, o som da voz dele parecia limpar tudo que ainda ecoava da dor de Bruna. Quando chegamos, entrei com ele no colo. O apartamento estava em silêncio. A luz do banheiro ainda acesa. Chamei baixo: - Bruna? Chegamos. Nada. Fui até o corredor com Arthur no colo, e vi a porta do quarto entreaberta. Entrei devagar. Ela estava deitada, encolhida, virada pro canto da parede. Ainda de roupa, o cabelo molhado colado no travesseiro. Arthur pulou do meu colo, correu até a cama e se enfiou por debaixo do lençol, aninhando-se atrás dela. - Mamãe... tô aqui. Bruna virou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, cansados. Mas ela sorriu. Aquele sorriso trêmulo, de alívio misturado com dor. Me aproximei sem dizer nada, me sentei na beira da cama. Ela tocou a mão de Arthur com carinho, e depois olhou pra mim. - Obrigada. - foi tudo que disse. Eu assenti. Ali não precisava mais de palavras. Só da presença. Deixei os dois ali, fui até a cozinha, peguei uma água e respirei. Aquela família improvisada que a vida colocou no meu colo… Era tudo que eu tinha agora. E tudo que eu queria proteger. Mais tarde, Arthur adormeceu entre nós. Ela se virou lentamente, de frente pra mim. - Eu não sei lidar com tudo isso… mas tô tentando. Segurei sua mão. - Você não precisa saber, Bruna. A gente aprende junto. E errando, se for preciso. Ela se aproximou, deitou a cabeça no meu peito. E dessa vez, o silêncio era outro. Era o silêncio da paz. Os dias estavam aparentemente calmos, Bruna um pouco distante. Mas talvez fosse o tempo que ela precisava. Na delegacia, o silêncio soava mais alto que qualquer grito. Até que Rafael entrou na minha sala com a expressão sombria que eu conhecia bem era a cara que ele fazia antes de dar notícia r**m. - Doutor, o Arnaldo quer o senhor na sala de monitoramento. Agora! Levantei sem dizer nada. No corredor, o peso nos ombros era real. E por dentro, o coração acelerava como se soubesse que alguma coisa estava prestes a estourar. Arnaldo estava com os braços cruzados diante de uma tela. Quando me viu, apenas fez um gesto com a cabeça para que eu me aproximasse. - Olha isso. O vídeo não durava mais do que quinze segundos. Câmeras internas do presídio. Canário estava sendo escoltado após o banho de sol. Mas o que me pegou foi o gesto dele: bateu duas vezes o dedo indicador no peito e depois apontou pra câmera. Pra mim. Arnaldo pausou a imagem exatamente nesse ponto. - Mensagem direta. - Ele sabe que tá sendo filmado. - E não tá nem aí. É isso que mais me preocupa. Passei a mão no rosto, sentindo o peso do mundo cair nas minhas costas. - Ele tem gente lá dentro. E fora também. - Sim. E recebemos denúncia de movimentação de aliados dele nos arredores da Rocinha… e pior: nos arredores do seu antigo apartamento, e do novo também. Me virei com o sangue subindo. - Filho da putä tá testando meu limite. - E vai continuar testando, até você se perder. - Arnaldo disse, com um tom frio. - E se perder por causa de mulher... eu não vou poder fazer nada. Fechei os punhos, mas respirei fundo. Não ia dar esse gosto pra ele. - Quero reforço dobrado nas redondezas. Se o Canário pensa que vai encostar nela ou no Arthur, vai morrer imaginando. Arnaldo assentiu, mas sem esconder o julgamento nos olhos. - E se ele quiser brincar com sua cabeça primeiro? Mexer nela, virar ela contra você? - Então vai descobrir o que acontece com quem cutuca um cão ferido com fome. Eu estava pronto pra guerra. Mas dessa vez, o campo de batalha não era só a rua. Era meu lar. Minha mulher. Meu filho. Canário queria guerra? Vai ter sangue. E vai ser o dele.
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