MARIANNA THOMÁZ
Eu não fazia ideia de como cheguei ali, quer dizer, sabia, mas não parecia real, a música no bar já tinha diminuído, quase não havia mais ninguém além de nós dois.
Eu e Gabriel sentados lado a lado, dividindo uma garrafa de vinho barato que, pela conversa, tinha gosto de safra premiada.
O tempo tinha parado ali, e eu não percebi, era o primeiro homem com quem interagia a nós e está tudo me parecendo tão bom, que parece irreal.
— Você sempre olha assim pras pessoas ou é só comigo? — perguntei, girando o vinho na taça, tentando parecer despretensiosa, quando na verdade meu coração batia como um tambor.
Ele sorriu, daquele jeito que deixaria qualquer uma desarmada.
— Assim como? — rebateu, encostando o cotovelo na mesa e me encarando como se eu fosse um mistério que ele fazia questão de decifrar lentamente.
— Como se estivesse despindo a alma da gente... — murmurei, sentindo o calor subir pelo rosto. — E talvez mais coisas também.
Gabriel riu, aquele riso rouco e preguiçoso que parecia ter sido ensaiado por algum diretor de cinema francês.
— Marianna, se eu quisesse te despir, seria com mais do que só os olhos.
Arregalei os olhos e ri, surpresa com a ousadia, e com o fato de que eu gostei da ousadia.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Envolvente, charmoso, perigoso.
— Perigoso? — ele levantou uma sobrancelha. — Essa é nova, e você? Sempre foi assim... meio doce, meio atrevida?
Tentei não sorrir, mas falhei miseravelmente nisto, sorrindo largamente.
— Só depois do segundo copo.
— Então eu vou pedir o terceiro. — Ele fez menção de chamar o garçom, mas eu segurei sua mão. — Ou talvez o quarto? Já perdi a conta.
— Eu também. — Confessei, rindo. — Mas não quero que acabe.
— O vinho?
— A conversa.
Ele me olhou como se tivesse acabado de ganhar a noite.
— É incrível como você fala e eu escuto cada palavra como se fosse uma música. Daquelas que a gente não quer que termine nunca.
— Você fala bonito, Gabriel.
— E você escuta bonito, Marianna.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas encarando aqueles olhos castanhos que mais pareciam esconder segredos do mundo inteiro, ou talvez, só os segredos dele. De algum jeito, aquilo era ainda mais perigoso.
— Me conta uma coisa. — ele disse, inclinando-se um pouco mais. — O que te faz feliz de verdade?
Sorri de lado, surpresa pela pergunta. Não era o tipo de coisa que alguém perguntava às três da manhã, depois de tanto vinho.
— Estar aqui, agora, com alguém que não me faz querer correr pra longe.
— Eu poderia correr atrás, se você corresse. — Ele brincou, mas os olhos... ah, os olhos estavam sérios.
— E se eu parasse?
— Eu te alcançaria, e não deixaria você ir embora.
Silêncio, mas um silêncio bom, aquele que a gente respeita, que a gente sente, meu peito estava leve e cheio ao mesmo tempo.
— Eu acho que você é perigoso mesmo.
— E ainda assim não vai embora.
— Talvez eu goste do perigo.
Ele se aproximou mais, não o suficiente pra me beijar, mas perto o bastante pra me deixar tonta.
— Então fica, só essa noite, sem promessas, sem amanhã. Só... fica.
Fiquei, nem precisei responder com palavras, Gabriel percebeu.
Meu corpo já tinha respondido por mim quando me inclinei um pouco mais, quando deixei a mão sobre a dele, quando meus olhos não queriam sair dos dele.
E ele entendeu, como entende tudo, como se já me conhecesse há anos.
— Você tem esse olhar... — ele disse baixinho. — Como se soubesse tudo de mim, mesmo sem perguntar nada.
— Talvez eu saiba — brinquei. — Você é do tipo que gosta de manter o controle, mas perde fácil quando a conversa é boa.
— Eu? Perder o controle? — Ele riu, jogando a cabeça pra trás. — Impossível.
— Jura? — sorri com malícia. — Porque agora mesmo você está mordendo o lábio, tentando não me beijar.
Ele mordeu mesmo olábio, mas também mordeu o sorriso.
— É tão óbvio assim?
— Pra mim, é.
— Então você me deixa?
— Beijar você?
— É.
— Ainda não. — Eu bebi mais um gole de vinho, devagar. — Mas continua tentando, eu estou gostando.
Ele riu, dessa vez, mais contido, como se eu tivesse acabado de virar o jogo, talvez tivesse mesmo.
— Ok, Marianna... então me diz uma coisa, o que te faz fugir?
Parei de sorrir, a pergunta me pegou de surpresa.
— Fugir?
— É. O que te assusta?
Respirei fundo, olhei pro vinho, pro copo quase vazio, pra mão dele entrelaçada à minha.
— Me assusta quando alguém me olha como se pudesse me ver de verdade. — Falei quase num sussurro. — E você olha assim.
Ele não respondeu de imediato. Apenas deslizou o polegar na minha mão, num carinho silencioso. Depois disse.
— E o que você vê quando me olha?
Demorei. Demorei porque não queria dizer, mas acabei dizendo.
— Vejo um homem que se esconde atrás de piadas e charme, mas que, no fundo, só quer ser aceito, e amado.
Ele me olhou por longos segundos, nenhuma gracinha, nenhuma resposta pronta. Só aquele olhar... intenso.
— Você me assusta, Marianna.
— Por quê?
— Porque você me vê, e faz tempo que ninguém me vê.
Silêncio de novo. Aquele silêncio bonito, cheio de significado.
— Quer sair daqui? — ele perguntou, depois de um tempo. — Caminhar, sei lá... ver as luzes da cidade.
— Agora?
— Agora. Antes que a mágica acabe.
— Tá bom, mas se for mágica mesmo, a gente vai acabar dançando no meio da rua.
— Prometo não pisar nos seus pés.
Nos levantamos, e ele pagou a conta com um sorriso satisfeito, como se tivesse acabado de conquistar um pequeno império.
Lá fora, o ar da madrugada estava fresco, com cheiro de cidade molhada. Começamos a andar sem pressa, lado a lado, e ele logo tirou o casaco e jogou sobre meus ombros.
— Você vai passar frio — falei.
— Eu sobrevivo, você merece mais esse casaco do que eu.
— Cavaleiro demais pra alguém tão... perigoso.
— Ou talvez seja só o disfarce perfeito. — Ele piscou.
Caminhamos por quarteirões inteiros, falando de tudo e de nada. Rindo alto, dividindo histórias. Eu contei sobre meu cachorro de infância, que fugia toda vez que via uma vassoura, ele falou da vez em que se escondeu de um namoro que queria ser casamento, no armário de um amigo.
— Jura que você se enfiou num armário?
— Foi o melhor esconderijo que encontrei! — ele gargalhou. — Mas o i****a do meu amigo abriu a porta e disse: “ele tá aqui!”
— Não acredito! — eu gargalhava junto.
— Eu fiquei lá, sentado entre os casacos, pensando: “É isso, Gabriel. Você vai morrer aqui. Entre um moletom velho e um terno m*l passado.”
Aquela era a melhor companhia que eu podia ter naquela noite. Naquela semana. Talvez em meses.
De repente, ele parou em frente a uma pracinha vazia, iluminada por um poste amarelado.
— Vamos dançar? — ele perguntou, estendendo a mão.
— Agora?
— É agora ou nunca,a cidade dorme. Só nós dois estamos acordados.
— Você é maluco, sabia?
— Eu sei. — Ele sorriu. — Mas você adora isso.
— Não tem música.
— Sério, pois na minha mente, só toca uma música ao te olhar.
— E qual seria.
— Perfect, da pink, quer dançar essa música comigo?
— Sério? É a minha favorita.
— Então bela moça, dancemos nossa música.
Aceitei a mão dele. E ali, no meio da praça vazia, sob a luz fraca de um poste, dançamos sem música, sem passos certos. Só eu, ele e nossos corpos se movendo juntos.
Foi ali que ele finalmente me beijou, sem pressa, s m invadir, só sentindo.
E eu deixei, porque, no fundo, eu queria aquilo desde a primeira frase.
— Marianna — ele sussurrou, encostando a testa na minha — Se essa noite for um sonho, não me acorda.
— Se for sonho, eu também não quero acordar.
Nos sentamos num banco depois, e ele me puxou pro colo dele, eu me aninhei ali, encaixada como se aquele fosse meu lugar desde sempre.
— Promete que a gente vai se ver amanhã? — ele perguntou, com a voz baixa.
— Você prometeu que não ia fazer promessas...
— Então me deixa quebrar essa regra.
— Gabriel...
— O quê?
— Se você me beijar de novo, eu não vou conseguir ir embora.
— Então fica.
— Você sempre diz isso para as mulheres que conhece em bares.
— Por incrível que pareça não, só para aquela que eu quero.
E ele me beijou outra vez, e dessa vez, eu não pensei em ir embora.