DECIDINDO SE ARRISCAR

925 Palavras
MARIANNA THOMÁZ A noite estava perfeita. Daquelas que a gente tenta guardar em potes de vidro, como se fossem vaga-lumes, mas nada, absolutamente nada, era mais intenso do que o jeito que Gabriel me olhava. Era como se ele enxergasse mais do que eu mostrava, como se conseguisse ver além da maquiagem leve, além do sorriso educado que eu treinara por anos. Seus olhos percorriam meu rosto com uma mistura de curiosidade e desejo, e eu sentia o calor subir pela minha pele, como se estivesse sendo tocada sem que ele sequer se aproximasse. — Quer ir comigo até meu apartamento? — ele perguntou, com a voz baixa, aveludada, como se não quisesse quebrar o encanto da noite. Fiquei em silêncio, a pergunta ficou ali, pairando entre nós, e uma dúvida me preencheu. Gabriel não insistiu, apenas me encarou com paciência, respeitando meu tempo, era uma das coisas que mais me desarmavam nele, a calma. Ele não era um desses homens que tentam te atropelar com pressa e promessas, ele apenas estava ali, esperando. — Eu... — comecei, mas a voz falhou. — Preciso pensar. Ele assentiu, com um leve sorriso, pegou minha mão, sem pressa, sem intenção oculta, e a levou aos lábios, um beijo leve, quase inocente, mas que me fez estremecer por dentro. A verdade é que eu não sabia mais como lidar com esse tipo de situação. Tantos anos ao lado do meu ex-marido... Ele foi o único homem que conheci de verdade, o único com quem estive, foram anos me moldando ao redor dele, esquecendo como era ser desejada, como era desejar. Quando o casamento acabou, eu precisei aprender a respirar de novo, e agora, diante de Gabriel, me sentia como se estivesse tentando andar descalça sobre brasas, cada passo era quente demais, intenso demais. Ele era lindo, perfeito até demais, o tipo de homem que faz você se perguntar o que fez de certo para merecer aquele olhar. Inteligente, gentil, divertido, e ainda por cima, me escutava, de verdade, era assustador.l,.ainda mais por ser tão jovem. Mas ele ainda era um estranho, um completo estranho. — Não me leva a m*l. — falei, olhando para a praça vazia. — É só que... é muita coisa, sabe? — Eu sei, eu sei de tudo. — ele disse, calmo. — E não quero te apressar, só queria mais um pouco de você, mas se você não quiser, está tudo bem, a gente pode se ver amanhã, ou depois vou esperar. Por que ele tinha que ser tão compreensivo? Isso me deixava ainda mais confusa, se ele fosse grosseiro, insistente, ou fizesse qualquer comentário machista, eu teria uma desculpa para ir embora sem olhar para trás, mas ele era tudo o que eu sempre quis, e talvez justamente por isso me desse tanto medo. Suspirei, senti meu coração acelerado, como se estivesse numa corrida contra algo que eu nem sabia nomear, desejo, medo, liberdade. — O que tem no seu apartamento? — perguntei, meio brincando, tentando aliviar o peso do momento. — Uma vista linda da cidade.— ele respondeu, sorrindo. — E um vinho melhor do que esse do restaurante. — Só vinho? — Talvez um disco antigo para tocar, umas almofadas jogadas no sofá... e uma vontade enorme de te ver mais um pouco, mas nada além do que você quiser que aconteça. Mordi o lábio inferior. O que eu queria que acontecesse? Talvez eu só quisesse ser olhada daquele jeito mais uma vez, sentir que ainda havia vida em mim. Que eu podia, sim, começar algo novo, mesmo com todos os traumas do passado me puxando de volta. — Vamos. — sussurrei, quase não me reconheci dizendo isso. Ele se levantou, estendeu a mão e me guiou com leveza até a porta caminho até o apartamento foi silencioso, mas cheio de significados. A tensão entre nós era palpável, como eletricidade, a cada passo, minha mente gritava razões para desistir, mas meu corpo... meu corpo queria ir. No elevador, nossos olhos se encontraram, sorri, nervosa, ele apenas deslizou o polegar pelas minhas costas de leve, tranquilizando, me senti segura, curiosamente segura. Quando a porta do apartamento se abriu, senti o cheiro amadeirado e fresco do ambiente, luzes baixas, decoração moderna, mas aconchegante. E a tal vista... era mesmo linda, a cidade toda brilhava diante dos nossos olhos. — Quer o vinho? — ele perguntou, tirando o paletó e deixando-o cair sobre o encosto do sofá. — Quero. — respondi, andando até a janela. Ouvi os passos dele na cozinha, estava sozinha por alguns segundos, mas me sentia como se estivesse flutuando. Aquela era uma nova versão de mim, ou talvez a verdadeira, que tinha sido silenciada por anos, amulher que sentia, que desejava, que queria ser desejada. Quando ele voltou com duas taças, entregou-me uma e se posicionou ao meu lado. — Obrigado por confiar em mim — disse. — Ainda estou aprendendo como fazer isso — confessei. — Mas você tem sido... gentil. — E vou continuar sendo. Nos sentamos no sofá, ele colocou exatamente a música da pink, que dançamos imaginarimente, me fazendo sorrir, achei que só estava sendo sedutor, ele realmente ouve minha música favorita. Conversamos por mais um tempo, sobre coisas leves, até que ele tocou meu rosto, um gesto simples, mas que me tirou o ar. — Posso te beijar? Assenti,o beijo foi lento, cuidadoso, como se ele soubesse que eu ainda estava reconstruindo cada pedaço meu. Não havia pressa em Gabriel, havia vontade havia paciência, aquilo era tudo o que eu precisava naquele momento.
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