Repetição mortal

577 Palavras
A sensação de estar sendo observado... Mas, por quem, se não ver um rosto, uns olhos que o acompanhe? Não, tudo isso é fruto de sua imaginação, afetada (afetada?) por as horas extras, ao lado da máquina, na atenção presa às caixas sendo impressas, descendo pela esteira, tendo à frente dessas, o seu auxiliar Tavinho. É, a nossa imaginação cria outra dimensão em tudo! Sorri, ante a conclusão que tudo esclarece. Então, o vigilante abre o portão largo, e ele passa, no carro. - Até amanhã, José. - Até amanhã, Seu Hélio. A avenida transversal praticamente vazia de carros, motos e pedestres nas calçadas laterais, devido à hora avançada da noite. Ah, se no transcorrer do dia houvesse esse quase nenhum movimento! - Seria bom demais... Diz, dando voz a conclusão do que reflete e, avança. As residências conjugadas, de luzes acesas. O morro por trás dessas, com outras casas, escadarias, postes acesos. A figura feminina que sobe os degraus. Solitária. Indo ao seu destino, e tudo sob o comando de uma Grande Força. E... A sensação de estar sendo acompanhado retorna. Não, não pode ser. Precisa se consultar com um médico: deve estar “esgotado” pelo excesso de trabalho noturno. Pensando no que não existe, criando uma fantasia do nada! Mas... Aquela mocinha de short e blusa branca, sozinha na parada dos ônibus, lhe acena? Aproxima-se. Curioso e atraído pela figura que agora se lhe mostra alta, esguia, bonita, ainda acenando-lhe com a mão espalmada num convite ao pecado? Estaciona. Desce o vidro da porta ao lado da direção e, sorrindo, indaga: - Vai para aonde, mocinha? - Pra cidade. Pausa. Também sorri e inquire: - O senhor vai pra cidade? - Vou. Entre. Ela então atende, abre a porta e ocupa o banco ao seu lado. Ele parte, como se vivendo dentro de um sonho, que de repente o acolhe. - Um sonho bom... - O senhor falou? - Não, não. O sorriso e, por enquanto, se limita a dirigir e espera... 2 Pelo que provavelmente ocorrerá. O delegado Rômulo enquanto dirige, vai refletindo no caso do carro abandonado à beira-mar da Praia de Candeias, com o homem morto sobre a direção. A primeira análise pensou que o Cara tivesse sofrido um ataque repentino do coração ou... - Chefe vem cá, por favor. O soldado Duda seu acompanhante nas investigações criminais, alertou-o e ele se aproximando, viu os dois furos paralelos, ao lado esquerdo do pescoço do morto. - Essas marcas, como se o Elemento tivesse sido atacado... - “Tivesse sido atacado?”. - Chefe, atacado por um animal, uma cobra ou... Ele sorriu e prático, para o seu assistente criminal: - Tá pensando demais Duda! Com o laudo, a gente descobre o que houve. Silenciaram. Intrigados com as marcas, já arroxeadas, no pescoço do cadáver. Agora se indaga mais uma vez, o que terá mesmo ocorrido? Sim, o laudo responderá o que de fato aconteceu. Repete-se e... Sente-se como se estivesse sendo acompanhado. Contudo, acompanhado por quem, se está sozinho? - Tolice minha. Procura se desculpar. Para se esquecer, liga o som vizinho à direção e assoviando a música do samba antigo, avança, com o carro cruzando a Avenida Beberibe, praticamente deserta de veículos e pedestres. Na parada dos coletivos, a figura alta, esguia, de short e blusa brancos, ergue o braço e com a mão espalmada desse, acena. Inocente, o delegado se avizinha. Do que o espera, numa repetição mortal.
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