Quem ri melhor

1098 Palavras
No tempo do imperador D. Pedro II, vagava pelos ermos nordestinos um profeta de barba comprida, trajando um roupão azul e segurando um bordão. Como um novo Moisés que viesse libertar o seu oprimido povo das garras dos ditadores, ele pregava, fazia discursos magníficos que atraía as multidões de sertanejos desesperados com a fome e a seca. A Seca... Esse eterno algoz das regiões sertanejas, causador dos piores males, flagelo da natureza, implacável e impiedoso, provocador da fome e da sede. O profeta, conhecido pela alcunha de Conselheiro, ansiava por descobrir o mistério desse fenômeno chamado Seca - queria solucioná-lo, decifrá-lo, vencê-lo. Assim, o nobre profeta caminhava, certa noite, pelos rincões baianos quando adentrou uma estranha região, sombria e escura, sem vegetação, coberta por nuvens espessas e negras. O solo era muito rachado e um calor causticante e insuportável inflamava o lugar. Parecia uma nova dimensão, um universo perdido dentro do agreste baiano. Ao longe, como limite extremo da região, dominava uma majestosa montanha n***a; sobre a montanha, um castelo de pedras erguia-se soberano. Guiava a direção do profeta um velho lampião que ele carregava, sondando aquela escuridão pesada e torturante. O nobre homem dirigiu-se para a montanha, provido de fé e instado por curiosidade acerba. Que estranho lugar seria aquele? Enquanto caminhava, o homem de Deus discernia, agarrando-se a seus pés e suplicando em desespero, alguns homens nus e cadavéricos, com a carne exposta, os ossos saltando da estrutura do corpo, deformados e assustadores. Não eram homens - eram zumbis... Conselheiro rezou uma prece pelas almas daqueles condenados enquanto caminhava. Embora o calor fosse intenso, um gélido frio de pavor percorria a espinha do homem de Deus. Finalmente, ele chegou ao sopé da montanha n***a. Nada de animais ou plantas. Afora aqueles zumbis, nenhuma alma vivente. Conselheiro começou a escalar a montanha. Queria decifrar o mistério daquele castelo estranho - seria habitado por alguém? Seria morada de algum ser das trevas, alguma entidade maligna? Embora difícil, a subida realizou-se com êxito, graças à fé do profeta. Ele percebeu que nunca havia manhã naquela região - ao menos, uma manhã perceptível. O céu estava sempre coberto, de um a outro extremo, por pesada nuvens que formavam um telhado macabro e natural. No percurso da subida, o homem de Deus cruzou algumas criaturas estranhas: pareciam plantas, mas de natureza desconhecida, pois se moviam como animais sobre o solo e esticavam os seus galhos como garras para segurar os pés do profeta. Na porta de entrada do castelo, Conselheiro parou. O calor intensificava-se mais ainda. Havia seis torres no alto do castelo: três à frente e três atrás, paralelas entre si. Janelas em quantidade por toda a fachada. Nada menos que quatro andares. Uma altura aproximada de 35 metros por 15 de largura. Conselheiro pensava em bater à porta com a aldrava. A porta, no entanto, abriu-se, como se pressentindo a sua presença - uma alta e larga porta de madeira, rangente e sinistra. O homem de Deus entrou no covil... O primeiro cômodo era uma ampla sala vazia, cheia de pilares. Ele caminhou, invadindo a casa. Em outra sala, viu um esqueleto que trazia, em sua estrutura, alguns pedaços de carne pendurados. O estranho vivente - pois, ele vivia, movendo-se em direção ao visitante - desceu as mandíbulas alvas e falou com voz cavernosa: - Ela o espera! Conselheiro não sabia quem era Ela, mas atendeu o chamado, seguindo o estranho serviçal. Noutra sala, mobiliada apenas por uma cadeira velha de palha e uma mesa redonda de pedra, estava a dona do castelo. Uma mulher selvagem, alta, de longa cabeleira escura e desgrenhada que se arrastava ao chão. O rosto destacava-se pela beleza: olhos rasgados, lábios rubros e bem delineados, nariz perfeito e mimoso. Trajava uma roupa pré-histórica: um vestido m*l ajambrado de pelos de animais, muito curto, de alças caídas. O corpo era bastante voluptuoso, cheio de curvas, com s***s salientes e firmes e nádegas rijas e volumosas; as pernas eram bem torneadas e carnudas. Perto daquela mulher, o calor tornara-se infernal e o suor corria, empapando a roupa do Conselheiro. - Por que o olhar assustado, homem de Deus? - perguntou ela - Não era a mim que procuravas? Essa terra é minha, é desconhecida dos homens, ninguém consegue encontrá-la; tu aqui entraste porque Deus te conduziu. - Quem és tu, filha do demônio? - Sou a Seca! Conselheiro quase caiu por terra, tomado que estava de estupor. - Sim, Conselheiro, sou eu aquela a quem tanto detestas; a quem buscas por todos esses anos. Aqui é a minha morada. Mas, quero que me conheças mais, meu amigo. Tenho milhares de anos. Sou uma bruxa antiga que descobriu como conservar a juventude. Há muito, aboli o uso da água e da comida - descobri uma maneira de viver sem precisar disso. Não uso a água para nada, nem para tomar banho e, como vês, não careço de banhos, pois o meu cheiro é natural e perene. O profeta aspirou fundo e sentiu um odor agradável que emanava do corpo da Seca. - Mas, os homens são ingratos e pequenos - não merecem compaixão. Não aceitaram a minha descoberta, destrataram-me, escorraçaram-me... e eu resolvi vingar-me. Foi a partir de então que, controlando os elementos da natureza, passei a castigar a humanidade com períodos longos de estiagem que secam os rios e crestam a terra, matando de fome e sede os homens e os animais, destruindo as plantas, trazendo a peste e a desolação. É isso, meu caro profeta - o mundo pena por minha causa porque não soube valorizar o meu conhecimento. Agora, volta aos teus e diz a eles quem eu sou de verdade. Faço, contudo, um pacto contigo: reconhecendo a tua boa intenção em salvar os sertanejos miseráveis, prometo que jamais entrarei em teu território desde que ele seja bem definido. Conselheiro voltou ao mundo dos homens mortais. Jamais imaginara a Seca como uma mulher tão deslumbrante e pujante - se soubesse que ela era uma mulher, imaginá-la-ia como uma velha f**a e esquelética, carrancuda. De qualquer modo, ela era selvagem, agreste, traiçoeira e impiedosa como convinha a uma entidade maléfica daquela dimensão. A partir de então, o homem de Deus lutou para estabelecer uma comunidade só sua. E fundou o Arraial de Canudos no sertão baiano. Por causa do pacto estabelecido entre o profeta e a bruxa, Canudos nunca foi vitimado pelo flagelo da Seca. Enquanto ao seu redor, reinavam absolutas a aridez e a fome, a morte e o sofrimento, em Canudos tudo era fartura e felicidade, vicejavam as plantas, a água nunca faltava. 
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