No tempo do imperador D. Pedro II, vagava pelos ermos nordestinos um profeta de barba comprida, trajando um roupão azul e segurando um bordão. Como um novo Moisés que viesse
libertar o seu oprimido povo das garras dos ditadores, ele pregava, fazia discursos magníficos
que atraía as multidões de sertanejos desesperados com a fome e a seca.
A Seca...
Esse eterno algoz das regiões sertanejas, causador dos piores males, flagelo da natureza,
implacável e impiedoso, provocador da fome e da sede.
O profeta, conhecido pela alcunha de Conselheiro, ansiava por descobrir o mistério desse
fenômeno chamado Seca - queria solucioná-lo, decifrá-lo, vencê-lo.
Assim, o nobre profeta caminhava, certa noite, pelos rincões baianos quando adentrou uma
estranha região, sombria e escura, sem vegetação, coberta por nuvens espessas e negras. O
solo era muito rachado e um calor causticante e insuportável inflamava o lugar. Parecia uma
nova dimensão, um universo perdido dentro do agreste baiano.
Ao longe, como limite extremo da região, dominava uma majestosa montanha n***a; sobre a
montanha, um castelo de pedras erguia-se soberano. Guiava a direção do profeta um velho
lampião que ele carregava, sondando aquela escuridão pesada e torturante.
O nobre homem dirigiu-se para a montanha, provido de fé e instado por curiosidade acerba.
Que estranho lugar seria aquele?
Enquanto caminhava, o homem de Deus discernia, agarrando-se a seus pés e suplicando em
desespero, alguns homens nus e cadavéricos, com a carne exposta, os ossos saltando da
estrutura do corpo, deformados e assustadores.
Não eram homens - eram zumbis...
Conselheiro rezou uma prece pelas almas daqueles condenados enquanto caminhava.
Embora o calor fosse intenso, um gélido frio de pavor percorria a espinha do homem de Deus.
Finalmente, ele chegou ao sopé da montanha n***a. Nada de animais ou plantas. Afora
aqueles zumbis, nenhuma alma vivente.
Conselheiro começou a escalar a montanha. Queria decifrar o mistério daquele castelo
estranho - seria habitado por alguém? Seria morada de algum ser das trevas, alguma entidade
maligna?
Embora difícil, a subida realizou-se com êxito, graças à fé do profeta.
Ele percebeu que nunca havia manhã naquela região - ao menos, uma manhã perceptível. O
céu estava sempre coberto, de um a outro extremo, por pesada nuvens que formavam um
telhado macabro e natural.
No percurso da subida, o homem de Deus cruzou algumas criaturas estranhas: pareciam
plantas, mas de natureza desconhecida, pois se moviam como animais sobre o solo e
esticavam os seus galhos como garras para segurar os pés do profeta.
Na porta de entrada do castelo, Conselheiro parou. O calor intensificava-se mais ainda. Havia
seis torres no alto do castelo: três à frente e três atrás, paralelas entre si. Janelas em
quantidade por toda a fachada. Nada menos que quatro andares. Uma altura aproximada de 35
metros por 15 de largura.
Conselheiro pensava em bater à porta com a aldrava. A porta, no entanto, abriu-se, como se
pressentindo a sua presença - uma alta e larga porta de madeira, rangente e sinistra. O
homem de Deus entrou no covil...
O primeiro cômodo era uma ampla sala vazia, cheia de pilares. Ele caminhou, invadindo a
casa. Em outra sala, viu um esqueleto que trazia, em sua estrutura, alguns pedaços de carne
pendurados. O estranho vivente - pois, ele vivia, movendo-se em direção ao visitante - desceu
as mandíbulas alvas e falou com voz cavernosa:
- Ela o espera!
Conselheiro não sabia quem era Ela, mas atendeu o chamado, seguindo o estranho serviçal.
Noutra sala, mobiliada apenas por uma cadeira velha de palha e uma mesa redonda de pedra,
estava a dona do castelo. Uma mulher selvagem, alta, de longa cabeleira escura e
desgrenhada que se arrastava ao chão. O rosto destacava-se pela beleza: olhos rasgados,
lábios rubros e bem delineados, nariz perfeito e mimoso. Trajava uma roupa pré-histórica: um
vestido m*l ajambrado de pelos de animais, muito curto, de alças caídas. O corpo era bastante
voluptuoso, cheio de curvas, com s***s salientes e firmes e nádegas rijas e volumosas; as
pernas eram bem torneadas e carnudas. Perto daquela mulher, o calor tornara-se infernal e o
suor corria, empapando a roupa do Conselheiro.
- Por que o olhar assustado, homem de Deus? - perguntou ela - Não era a mim que
procuravas? Essa terra é minha, é desconhecida dos homens, ninguém consegue encontrá-la;
tu aqui entraste porque Deus te conduziu.
- Quem és tu, filha do demônio?
- Sou a Seca!
Conselheiro quase caiu por terra, tomado que estava de estupor.
- Sim, Conselheiro, sou eu aquela a quem tanto detestas; a quem buscas por todos esses
anos. Aqui é a minha morada. Mas, quero que me conheças mais, meu amigo. Tenho milhares
de anos. Sou uma bruxa antiga que descobriu como conservar a juventude. Há muito, aboli o
uso da água e da comida - descobri uma maneira de viver sem precisar disso. Não uso a água
para nada, nem para tomar banho e, como vês, não careço de banhos, pois o meu cheiro é
natural e perene.
O profeta aspirou fundo e sentiu um odor agradável que emanava do corpo da Seca.
- Mas, os homens são ingratos e pequenos - não merecem compaixão. Não aceitaram a
minha descoberta, destrataram-me, escorraçaram-me... e eu resolvi vingar-me. Foi a partir de
então que, controlando os elementos da natureza, passei a castigar a humanidade com
períodos longos de estiagem que secam os rios e crestam a terra, matando de fome e sede os
homens e os animais, destruindo as plantas, trazendo a peste e a desolação. É isso, meu caro
profeta - o mundo pena por minha causa porque não soube valorizar o meu conhecimento.
Agora, volta aos teus e diz a eles quem eu sou de verdade. Faço, contudo, um pacto contigo:
reconhecendo a tua boa intenção em salvar os sertanejos miseráveis, prometo que jamais
entrarei em teu território desde que ele seja bem definido.
Conselheiro voltou ao mundo dos homens mortais. Jamais imaginara a Seca como uma
mulher tão deslumbrante e pujante - se soubesse que ela era uma mulher, imaginá-la-ia como
uma velha f**a e esquelética, carrancuda. De qualquer modo, ela era selvagem, agreste,
traiçoeira e impiedosa como convinha a uma entidade maléfica daquela dimensão.
A partir de então, o homem de Deus lutou para estabelecer uma comunidade só sua. E fundou
o Arraial de Canudos no sertão baiano. Por causa do pacto estabelecido entre o profeta e a
bruxa, Canudos nunca foi vitimado pelo flagelo da Seca. Enquanto ao seu redor, reinavam
absolutas a aridez e a fome, a morte e o sofrimento, em Canudos tudo era fartura e felicidade,
vicejavam as plantas, a água nunca faltava.