Pov Lauren
" Há muitas pessoas lutando contra seus medos, em batalhas que sabem ser impossíveis de ganhar. Então, se está é a minha batalha, vamos nessa".
A noite passada no Bar Do Sam foi muito divertida, fazia quase um mês que eu não me divertia, dessa vez eu não fiz nada de errado, não que eu me lembre, eu me lembro bem de babar na Camila a noite toda.
Sorri olhando pro teto, sim tô caidinha por ela. O dia lá fora estava frio como sempre, depois de tomar um banho eu falei que iria dormir e as meninas também, elas estavam estranhas, estranhamente felizes.
Fechei os olhos tentando dormir, eu sentia o efeito do álcool no meu sangue, talvez isso me ajude a dormir um pouco mais...
2 semanas atrás
" Depois de 3 dias em observação eu recebi alta, tudo estava uma confusão, Normani não me deixava ver TV, muito menos entrar nas minhas redes sociais, talvez eu deva agradecer ela por não me deixar ver as coisas horríveis que deviam estar falando de mim.
Saímos pela porta dos fundos do hospital, evitando a multidão que estava na porta esperando pela minha saída, tinha muitos fãs la mas o que eu queria evitar eram fotos, microfones na minha cara, câmeras e perguntas.
Quando chegamos em casa tinha alguns fotógrafos lá porém eles só tiraram fotos do carro. Minha mãe e meus irmãos estavam em casa comigo, Vero e Normani também.
Eu não queria conversar, eu estava envergonhada com tudo que estava acontecendo, eu fui irresponsável, eu sabia o que estava fazendo e mesmo assim fiz. O que eu estava sentindo não era o suficiente, eu queria mais e mais, no fim quase morri.
Fui direto pro meu quarto, queria evitar os olhares de pena que elas me davam toda hora, eles me deixavam nervosa e pior, eu não queria a pena delas, já basta o meu próprio sentimento de auto piedade.
Depois de tomar um banho me deitei na cama, eu era teimosa e queria ver o que estavam falando de mim, então abri minhas redes sociais, e vi tudo, cada palavra de carinho, cada fã preocupado, cada matéria, também foi impossível não ler as coisas maldosas que escreveram, alguns desejaram minha morte, outros falaram que eu só queria atenção.
Por fim sai do mundo da internet porque eu já estava sentindo um ataque de ansiedade vindo. E ele veio forte, com falta de ar, dor no estômago, dor no peito, suor e corpo tremendo. Eu não queria passar por aquilo.
A crise só passou depois que eu tomei um remédio, eu não devia fazer isso mas eu fiz..."
Presente
Acordei com uma forte dor no peito, meu corpo tremia e estava suado, me sentei na beirada da cama e olhei pra fora. Devia ser meio dia por aí, coloquei minha mão no meu peito meu coração estava acelerado, o ar não vinha com facilidade.
Eu não sabia se era uma crise de ansiedade ou de abstinência, talvez fosse os dois, fechei os olhos tentando acalmar minha mente e minha respiração mas não estava ajudando, minha boca estava seca.
Me levantei devagar sentindo tudo ao meu redor girar, essa era das grandes e veio forte. Caminhei até o banheiro sabendo do que eu precisava pra fazer tudo isso passar, seja ansiedade ou abstinência eu iria me sentir melhor.
Abri o armário pegando o recipiente redondo onde estava os remédios, peguei um e me olhei no espelho, o suor escória do meu rosto pálido, meus olhos estavam fundos e meus lábios brancos. Encarei meu olhos verdes pensando o quando eu era fraca, eu iria fraquejar de novo e de novo.
Passado
" - Lauren por favor, um tempo longe vai te ajudar a melhorar, mas não é só isso. Faz 4 anos que você não sabe o que é uma pausa desse mundo de verdade, você precisa de paz - falou minha mãe.
Olhei pra Vero, Normani, Chris, Taylor, Zayn e Maria que estavam na sala da minha casa, minha família e meus amigos, eles queriam que eu me afastasse um tempo de Los Angeles.
- Você não quer ir pra uma clínica, então vamos tentar fazer isso de uma forma menos brusca, uma cidade pequena onde você não vai conseguir o remédio de forma fácil, um local de difícil acesso, calmo, sem fotos, sem fãs, sem redes sociais, onde você vai poder compor no seu tempo. Um tempo pra você - falou Normani.
Senti meus olhos encherem de lágrimas, eu precisava de ajuda e eles estavam tentando, eu precisava me ajudar também.
- Você não vai sozinha, eu e Normani vamos com você. Quando os compromissos da sua mãe e seus irmãos acabarem em Miami eles também vão - continuo Vero.
- Não quero tirar vocês da suas vidas pra ficar comigo sabe Deus onde, não posso privar vocês da liberdade - falei, sentindo as lágrimas escorrer pelo meu rosto.
- Você não tá privando a gente de nada Lauren, nós te amamos, queremos te ver bem. Tudo que eu sou hoje é por sua causa. Eu quero te ajudar, nós queremos te ajudar mas você precisa querer também - falou Vero.
Olhei pras minhas mãos que ficaram embasadas pelas minhas lágrimas.
- Você compôs naquele dia depois de muito tempo, eu vi e ficou ótimo. Depois te vi se destruir na mesma velocidade que você compôs dois versos do nada e brilhantemente, ninguém conseguiu te parar, isso cabe a você. Nós damos alternativas, amor, cuidado mas no final só você pode decidir - falou Zayn, o encarei.
Zayn era uma pessoa muito boa, um artista incrível, meu único amigo verdadeiro nesse meio artístico, ele me deu um meio sorriso.
- Você é incrível Lauren, talentosa. Não se deixe destruir - falou meu irmão.
- Não deixe isso ganhar essa batalha, não seja só mais uma que caiu perante isso, seja a que venceu - falou minha irmã.
Foi impossível não chorar copiosamente, senti meu corpo tremer e abraços logo estavam ao meu redor, não só 2 braços, mas todos estavam ali me abraçando.
- Eu vou vencer isso, eu aceito a ajuda - falei em meio a lágrimas..."
Presente
Olhei pro comprimido na minha mão que estava tremendo, eu queria tomar, cada célula do meu corpo queria isso, meu corpo suplicava por isso, meu cérebro também queria mas a minha alma não queria sucumbir a isso.
Senti as lágrimas quentes descerem pelo meu rosto, eu não era forte o suficiente, coloquei o comprimido na boca e engoli sem água mesmo, fechei os olhos sentindo o comprimido descer pela minha garganta enquanto minhas lágrimas desciam pelo meu rosto.
Joguei uma semana limpa pelo ralo junto com a minha dignidade, abri meus olhos respirando fundo, sequei minhas lágrimas, foi automático sentir meu corpo melhorar, talvez fosse o psicológico porque o remédio não agia tão rápido assim.
Tomei um banho pra tirar o suor do corpo, depois desci pra comer alguma coisa, Maria perguntou se eu estava bem e eu menti falando que estava, falei pra ela que iria dar uma volta na praia.
O dia estava nublado o sol estava escondido atrás das nuvens as vezes ele aparecia, a cidade estava tranquila como sempre poucos carros na rua, apesar da cidade ser pequena as pessoas aqui também tinham carros.
Fui até uma das praias da cidade, não era uma praia atrativa pra banho mas era bonita, não tinha uma faixa de areia grande era mais pedras que vinham arrastadas do mar, me sentei nelas sentindo a brisa no meu rosto.
Meu corpo estava melhor eu podia sentir, sentia meu corpo mais leve, a sonolência habitual estava chegando, o efeito foi imediato, era isso que meu corpo queria mas a culpa estava me consumindo por dentro, minhas amigas tinham largado tudo pra me ajudar e eu fodi a p***a toda.
- Lauren - dei um pulo ao ouvir aquela voz me chamar, olhei pro lado e Camila me olhava sorrindo.
- Que susto - falei, ela sorriu.
Camila estava linda como sempre, seus cabelos ao vento, ela se sentou ao meu lado.
- Desculpa - falou mas ela continuava sorrindo, foi impossível não sorrir de volta - O que faz aqui sozinha? - perguntou suspirei, olhei pra frente, pro mar que estava nervoso.
- Eu fiz uma coisa r**m - falei sem encarar seus olhos, eu não conhecia ela direito mas eu não conseguia não falar o que estava acontecendo.
- Que coisa? - perguntou, olhei pra ela que agora me olhava séria.
Eu estiquei minha mão que agora não estava tremendo mais, ela olhou pra ela e suspirou já sabendo o que eu tinha feito, ela passou os braços em volta das suas próprias pernas e me olhou nos olhos.
- Não estou surpresa, 60% dos viciados tem recaídas, uma ou duas semanas após a pausa, os outros 20% voltam 3 dias depois da pausa, 10% consegue passar por isso sem cair, os últimos 10% não chegam nem tentar - falou, ergui uma sobrancelha.
- Pretende se especializar nessa área quando se formar? - perguntei ela sorriu.
- Não exatamente, quero me especializar em neuro cirurgiam - falou assenti - Não precisa se sentir culpada por cair, só tem que começar de novo- falou suspirei.
- Esse é o problema, eu não quero voltar a sofrer - falei ela suspirou - A sensação de morte não passa nunca, um comprimido e eu estou me sentindo bem melhor, eu posso tomar um por dia e vou viver bem - falei arrumando uma solução, ela não gostou muito e fez uma careta.
- Que plano merda - falou, eu acabei rindo, ela não ligava pra quem eu era e isso era ótimo - Você fala isso aqui em Sitka, mas quando voltar pra sua vida em Los Angeles esse um comprimido por dia vai virar 2, depois vai virar festas descontroladas, acesso a outras drogas, você vai misturar essas merdas de novo e no final sua família vai chorar no seu caixão junto com 120 milhões de fãs e a otaria aqui também vai tá lá- falou tudo de uma vez, ergui uma sobrancelha.
Ela falou tudo que todo mundo evita me falar e ainda se colocou na sena do meu enterro.
- Você estaria lá? - perguntei ela revirou os olhos.
- Claro mas não vamos falar da sua hipotética morte - falou - Vamos falar de você voltar a se tratar e parar de tomar essas porcarias - falou.
- Por que você se preocupa? - perguntei ela deu um pequeno sorriso.
- Porque você é um ser humano, é uma pessoa boa, mesmo pelo pouco tempo que te conheço, porque eu sinto que você quer parar mesmo que não veja isso agora, porque você ainda tem que ajudar outras pessoas com aquilo que você ainda vai fazer com sua música e com sua vida - falou.
Fiquei um tempo em silêncio olhando pra frente, eu não sabia o que falar, eu só não queria sentir aquilo de novo.
- Você estava fazendo isso sozinha, você e seus amigas não falaram nada pra ninguém, acho que podem pedir ajuda pra um médico, existem remédios que não viciam e que ajuda a controlar as crises de abstinência e ansiedade que você tem. Você não precisa fazer isso sozinha - falou Camila.
- Não quero sofrer de novo Camila, é horrível, doloroso - falei com a voz embargada ela me olhou e pra minha surpresa segurou minha mão.
- Eu sei, mas nós vamos te ajudar a passar por isso, vai ser só por um tempo, 3 semanas no máximo, você só tomou um, então não regrediu tanto - falou ainda com a mão segundo a minha - Mas você precisa querer isso - falou novamente e dessa vez soltou minha mão.
- Não tem o porque fazer - falei, ela suspirou e olhou pra frente.
- Eu já te dei motivos, se não é o suficiente você tem que encontra essa resposta em você - falou e ficou de pé - Quando encontrar e se você encontra você pode pedir ajuda, não vai doer e todos precisam de ajuda - falou e começou a caminhar.
Ao longe vi ela abraçar uma garotinha que devia ter no máximo 10 anos, também tinha um casal com elas, eles caminhavam pela praia calmamente e elas ao lado deles. Deve ser a família dela e eles pareciam felizes e unidos.
Dei um sorriso, ela tinha uma família bonita, a minha também era, eu sinto falta disso, de como as coisas eram antigamente, meu pai não iria gostar dessa nova Lauren.
Olhei pra frente, sentindo as lágrimas nos meus olhos de novo, qual era os meus motivos, eu tinha algum? Eu devia ter, eu amava cantar, era minha vida. Eu ansiava por estar no palco, no estúdio colocando minhas ideias em prática mas agora tudo que eu sou é uma viciada que não conseguia terminar de escrever as músicas que eu começava.
Caminhei de volta pra casa pensando no que me motivava, encontrei as meninas na sala, elas me olharam e não pareciam felizes.
- O que foi? - perguntei, Vero apontou pro centro de mesa que estava ali e vi o frasco com os xanax revirei os olhos.
- p***a Lauren como conseguiu isso? - perguntou Normani irritada.
- Lucy - falei, Normani se levantou brava.
- Ela sabe onde você está? - perguntou Vero.
- Sabe - falei, Vero bufou.
- p**a merda Lauren, pra ela soltar isso pra imprensa é dois palitos - falou Normani.
- Falei pra ela ficar de boca fechada, quem mandou vocês mexerem nas minhas coisas? - perguntei.
- Para de tentar virar o jogo, você não tomou essa coisa esses dias mas aparentemente tomou um hoje não foi? Está até mais corada - falou Vero brava.
- Tomei, parecia que eu iria morrer, eu resisti por muito tempo mas hoje não consegui - falei derrotada, fui até o centro de mesa e peguei os comprimidos.
- p***a Lauren você tem que jogar essa merda fora - falou Normani.
- Não vou jogar nada, me deixem em paz - falei caminhando pra escada.
- NÃO VAMOS DESISTIR DE VOCÊ, MESMO VOCÊ TENDO DESISTIDO - gritou Vero.
Bati a porta do meu quarto e me joguei na cama chorando, abri a merda do frasco e tomei mais um comprimido fechando os olhos, se eu vou parar pelo menos tenho o direito de dormir por um tempo.
No final das contas eu precisava de ajuda, eu já aceitei. Antes de apagar peguei meu caderno e escrevi algumas palavras; ajuda, música, família, liberdade, esperança, sonhos...
Antes de apagar, juro que vi olhos castanhos mas provavelmente fazia parte do efeito dos remédios.