Giorgia Moretti
“Corre, filhinha!”, meu pai gritou. E foi o que fiz. Corri o mais rápido que pude, mas nem meu fôlego, nem minhas pernas, conseguiram enfrentar um homem corpulento de quase dois metros de altura.
Antes que eu pudesse chegar na cerca, tropecei, fui puxada pelos cabelos e arrastada do jardim até a casa.
— ME SOLTA! SOCORRO! ME SOLTA! – gritei e esperneei, mas nada adiantava. Eu estava perdida!
Ele me colocou de pé com um só puxão. Meu corpo doía e meu couro cabeludo queimava. Mas o pior, era o desespero que eu estava sentindo dentro de mim. Eu era apenas uma garota de quatorze anos, em meio a um emaranhado de homens perigosos.
— Fica aí, sua p*****a! – O homem me jogou na sala ao lado do meu pai, que estava de joelhos e com uma arma apontada para sua cabeça.
— Papai! – gritei e tentei abraçá-lo, mas fui puxada e jogada no chão.
Ouvi passos se aproximado bem lentamente, meu coração congelou. Me coloquei de joelhos e depositei as mãos no chão. Olhei para entrada da porta e um homem maduro de uns 50 anos entrou na sala. Ele estava com um charuto na boca e tinha um meio sorriso aterrorizante em seu rosto.
Atrás dele estava um homem mais jovem, uns 20 anos, talvez, um pouco assustado, mas a imagem e semelhança daquele homem mau.
O homem mau se aproximou de mim, tentei fugir, mas fui segurada pelos cabelos pelo homem atrás de mim. O homem mau tirou o charuto da boca, se inclinou e deu uma baforada no meu rosto.
— Deixa ela, Leonardo. Ela não tem culpa de nada. – Meu pai falou ríspido, mas o homem mau o acertou com um soco bem no seu maxilar. Meu pai cuspiu o sangue no chão.
— Eu falei que o seu dia ia chegar, Moretti. - O homem mau cuspiu no meu pai, depois olhou para mim, segurou o meu queixo e virou meu rosto de um lado para o outro, me analisando. — Você parece mesmo com esse desgraçado. É uma pena, docinho. – Ele soltou o meu queixo e deu um passo para trás. – Dom, venha aqui! – O rapaz que estava com o homem mau, obedeceu e ficou ao seu lado. O homem deu tapinhas no rosto do filho, sacou uma arma e colocou na mão dele.
— Papai? – Ele olhou para arma e depois para o pai.
— Hoje é seu dia de sorte, filho. Considere como sua iniciação. – O rapaz parecia assustado. – O que foi? Você será meu sucessor, não é mesmo? O capo dessa organização. - Ele falou, incitando o rapaz.
— Sim. – o rapaz assentiu.
— Então, faça! Mate esse desgraçado!
— Não, por favor! Não faz isso. Você não precisa fazer isso. Por favor! – Implorei e o rapaz me olhou, com os olhos aterrorizados. Ele não parecia querer fazer aquilo, e talvez se eu implorasse, ele desistisse.
— Se você dê um tiro certeiro, economiza tempo e bala. — O rapaz assentiu, segurou firme a arma e apontou para o meu pai.
— Não! Por favor, não! – Eu implorei e o rapaz me olhou, com os olhos tenebrosos, depois olhou para o meu pai.
— Cale a boca, sua v***a! — O homem grande cobriu a minha boca e nariz com as mãos. Me deixando sem ar.
— Ei! Não a mate! – O rapaz gritou, depois olhou para o pai. – Papai, não precisa matá-la.
— Solte ela. — O homem mau falou para o homem, que me segurava. Ele o obedeceu, tirando a mão do meu rosto. – Vamos, Dom! Faça, não temos tempo. - ele continuou a incitar o filho a se tornar um assassino.
O rapaz apontou sua arma para cabeça do meu pai. O pai dele colocou a mão e seu ombro o incentivado. Ele olhou de mim para o meu pai. Sua mão tremeu um pouco. O olhei e implorei com os olhos, para que ele não fizesse.
- Papai, por que precisamos fazer isso? E na frente da garota. – Ele disse, abaixando a arma.
- Qual é o seu problema, Dom? – O pai gritou com ele. – Você esqueceu quem é? Mate logo esse desgraçado ou desista de ser o capo desta família. – Vamos!
O homem mau segurou a mão do filho com a arma e apontou para o meu pai novamente. Incentivando-o a atirar. O rapaz me olhou e, por um minuto, achei haver um lampejo de misericórdia em seu olhar. Mas logo em seguida, ouvi a arma disparar, seguindo do corpo do meu pai tombando no chão.
— PAPAI! NÃO! PAPAI! — Gritei e me debati até o homem me soltar. Me joguei sobre meu pai e tentei fazê-lo reagi, mas senti o sangue escorrer embaixo dos meus pés.
Ele estava morto! Meu pai estava morto!
Olhei para o assassino do meu pai, para gravar bem seu rosto em minha memória. Eu ia odiar aquele homem para o resto da vida. E assim que pudesse, com certeza, iria me vingar.
Seus olhos eram negros, igual a sua alma. Ele ficou ali parado, me olhando, por minutos intermináveis. Eu não conseguia mais reagir. Só queria que me matassem também, igual ao meu pai.
Corri até ele, batendo forte em seu peito. Segurei sua mão, fazendo ele apontar a arma para minha cabeça.
— ME MATA! – gritei. – ME MATA, SEU DESGRAÇADO! - Seus olhos sequer piscaram, quando ele me olhou.
Disparos foram ouvidos e um homem caiu na porta de entrada. Todos os homens sacaram suas armas e começaram a atirar. Eu apenas me joguei em cima do corpo morto do meu pai, colocando a cabeça em sua barriga. Fiquei ali, ouvindo os barulhos dos tiros e corpos caindo.
Os tiros cessaram e ouvi várias vozes, mas eu não me importava com quem eram e se iriam me matar. Estava tão em estado de choque, que não conseguia mais chorar.
Senti uma mão no meu ombro, depois alguém me levantar e carregar nos braços.
— Estou aqui, querida. – A voz masculina falou.
Eu apenas fechei os olhos e fui perdendo os sentidos.