Capítulo 6: Mattia

1510 Palavras
Eu estava voltando para casa. À minha direita, o Mar Tirreno brilhava em um azul profundo e sereno, refletindo o céu claro que marcava a transição definitiva da primavera para o verão siciliano. À esquerda, as montanhas dos Nebrodi e Madonie erguiam-se imponentes. A paisagem era deslumbrante, o asfalto estava livre, mas eu não conseguia enxergar nada além da escuridão daquela capela. A adrenalina da invasão noturna tinha baixado, substituída por algo muito mais perigoso: o vício. Eu dirigi por quilômetros com a mandíbula travada, as mãos apertando o volante de couro enquanto meu corpo inteiro lembrava do que tinha acontecido. O cheiro dela — cera, incenso, suor e sexo — ainda parecia impregnado na minha pele, zombando do banho rápido que tomei no hotel antes do amanhecer. A lembrança do nosso sangue e dos nossos fluidos misturados manchando o mármore branco do altar martelava na minha cabeça. Minhas partes ainda ardiam. O atrito de f0der uma virgem a seco não passava fácil, mas eu não trocaria aquela dor por nada. A forma como o corpo apertado dela me acomodou, a maciez daquela pele branca sob as minhas mãos, o contraste dos cabelos loiros espalhados e o jeito como os olhos azuis reviraram, rendidos apenas a mim... Eu queria de novo. Queria rasgá-la, tomá-la e garantir que nenhum outro homem naquela maldita ilha soubesse qual era o gosto da filha do Capo de Messina. O trânsito começou a engarrafar quando cheguei à Viale della Regione Siciliana. O caos urbano de Palermo, com suas buzinas e o calor sufocante emanando do asfalto, me arrancou dos devaneios. Peguei a saída para o centro histórico, cortando a Via Roma até me embrenhar nas ruas estreitas que levavam à Piazza Croce dei Vespri. Lá estava o Palazzo Rossi. O antigo e majestoso Palazzo Valguarnera, uma joia do barroco siciliano que Don Vittorio havia engolido para a nossa Famiglia ao casar com a última herdeira da dinastia. A fachada de pedra ocre, as varandas de ferro forjado e as janelas imensas exalavam poder antigo. Passei pelos guardas nos portões pesados e subi a escadaria monumental direto para o escritório do Capo. Romeo estava atrás de uma mesa de nogueira maciça, analisando alguns papéis. Quando entrei, ele levantou o rosto. O sorriso largo que se abriu era de alguém que dividia segredos desde a infância. — Bem-vindo de volta, Signor Mattia Santoro, o Sottocapo mais carrasco de Palermo. Caminhei até ele, e nos cumprimentamos com um abraço forte, a lealdade de anos transparecendo no gesto. — Sabemos que os sottocapi do seu pai eram os homens mais sanguinários dessa cidade nos anos noventa — eu disse, me afastando. — E os mais feios também — Romeo riu, encostando-se na beirada da mesa. — Você quase mudou esse padrão. — Olha só quem fala — provoquei, cruzando os braços. — Só falta você deixar um bigodão crescer para ficar a cara do Don Vittorio. Romeo fez uma careta de desgosto genuíno. — Nem me fale disso. Com que idade ele perdeu o bom gosto? Me lembro de quando eu era pequeno, vivia me perguntando como ele conseguia comer com aquele negócio na cara. E minha pobre mãe teve que beijar aquilo, como que ela fazia? Dei um sorriso torto, sabendo exatamente onde atingi-lo. — Hoje você entende, não é? É a mesma técnica que você usa para chupar a b****a peluda das suas namoradas das ruas. — Ei! Você está falando com seu Capo! — Romeo apontou o dedo para mim, fingindo indignação antes de rir. — E eu só fiz isso uma vez, cuspi pelos por uma semana. — Sei. Mas você saía com aquela Maria até recentemen... — Chega — ele cortou, erguendo as mãos em rendição. A postura relaxada sumiu, dando lugar ao homem de negócios. — Vamos ao que interessa. Como foi lá? O fanático de Messina colaborou com tudo? — Fiquei quase um mês naquele lugar, então dei o meu melhor — tirei a pasta de couro com os documentos de dentro do paletó e joguei na mesa dele. — As taxas de importação estão ajustadas. A rota do Leste está garantida. Alessio Marino falou muito de Deus, mas assinou com o d***o no final. Romeo abriu a pasta, conferiu as assinaturas e assentiu, satisfeito. — Bom trabalho, Mattia. Suas obrigações no leste acabaram. Tire o resto do dia. Fui dispensado. Deixei o Palazzo e caminhei pelas ruas de Palermo até o meu apartamento, que ficava estrategicamente a poucos quarteirões de distância. O espaço era moderno, limpo, desprovido da ostentação sufocante das velhas famílias. Assim que destranquei a porta, ouvi o som da televisão ligada na sala. Cristiano estava esparramado no sofá de couro, devorando uma fatia de pizza. Meu irmão mais novo tinha vinte e um anos, a mesma idade de Aurora se não me enganava, mas as semelhanças paravam por aí. Enquanto Alessio tratava as filhas como prisioneiras e moedas de troca, eu garantiria a vida de Cristiano com a minha própria. A lealdade entre nós era a única coisa sagrada que eu conhecia. — Vivo! — Cristiano exclamou, de boca cheia, erguendo uma garrafa de cerveja na minha direção. — Achei que os monges de Messina tinham te sacrificado em um altar. A palavra "altar" me deu um soco no estômago, mas eu não demonstrei. — Quase isso — tirei o paletó e afrouxei a gravata. — Mas eu não sou um bom sacrifício. Cristiano me avaliou por um momento longo, os olhos escuros semicerrados. Ele me conhecia bem demais. — Você está estranho — ele pontuou, largando a pizza. — Está tenso. Com os ombros duros. Parece que a sua cabeça ainda está do outro lado da ilha. Não foram só os contratos das docas que te deixaram com essa cara de quem precisa matar alguém urgentemente, foram? Matar?, pensei. Minha vontade é de f0der uma falsa santa, apenas. Fui até a cozinha e peguei um copo de água, evitando o olhar dele. — Negócios com fanáticos são desgastantes, Cris. Só isso. Ele não insistiu, mas o seu silêncio deixou claro que ele não tinha engolido a desculpa. *** Quando a noite caiu sobre Palermo, o peso do isolamento bateu. Sozinho no meu escritório, de frente para as luzes da cidade, a fissura por ela se tornou insuportável. Eu não tinha motivos para voltar a Messina. Alessio Marino revistava correspondências, interceptava ligações e monitorava cada respiração na Villa Marino. Se eu quisesse alcançá-la, eu precisava de um Cavalo de Troia perfeito. Saí do apartamento e dirigi até uma viela tranquila próxima à Catedral de Palermo. A vitrine empoeirada da livraria exibia crucifixos pesados, rosários de madeira e compêndios teológicos. Entrei, o sino da porta soou fraco. O velho dono me olhou com cautela. Ele não sabia o meu nome, mas reconhecia o corte do meu terno e a postura de quem cobrava dívidas com fraturas. A Cosa Nostra era um sussurro para muita gente, no entanto, muitos sabiam quando viam um mafioso. Caminhei até o balcão e coloquei um maço espesso de notas de euros ao lado da caixa registradora. O suficiente para pagar o aluguel dele por seis meses. — O senhor fará remessas semanais para uma propriedade nos Colli San Rizzo, em Messina. Endereçadas à Signorina Aurora Marino — ditei, a voz baixa e sem margem para recusa. — Eu trarei os livros. Você os embala com o timbre da sua livraria religiosa e despacha. Sem perguntas. Sem abrir. Fui claro? O velho olhou para o dinheiro, engoliu em seco e assentiu freneticamente. Fui até a seção de obras clássicas. Precisava de algo grande, de capa grossa e inquestionável aos olhos julgadores de Alessio. Peguei um volume pesado com o título em letras douradas: Summa Theologica, de Tomás de Aquino. De volta ao meu apartamento, sentei à mesa do escritório. Com um canivete de lâmina fina, fiz um corte milimétrico na parte interna do forro de couro da contracapa, criando um bolso oco e invisível a menos que se soubesse onde procurar. Peguei uma caneta e um papel liso. Escrevi o que eu sabia escrever para uma mulher, sem rima e promessas vazias, escrevi o meu desejo. Minha loira de pele branca como mármore, mas quente como o sol, A cabeça do meu p@u ainda queima após nossa noite de f0da na capela do seu pai. Sua cidade não tem o calor de Palermo, pois tudo o que arde habita dentro de você. Quero mergulhar meu rosto entre as suas pernas, quero chupar essa sua b****a rosa antes de meter fundo em você novamente. Quero tomar você para mim e apenas para mim, irei marcá-la em sua pele branca. Vou bater com meu cajado no seu rosto até as bochechas avermelharem da próxima vez. E eu quero uma próxima e mais outra e todas as vezes que o universo nos permitir. Aguardo sua resposta. — Il tuo Diavolo. Dobrei o papel e o enfiei no esconderijo dentro do livro, desejando que aquelas obscenidades a excitasse do jeito que eu estava e******o agora.
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