CAPÍTULO 5

1927 Palavras
ALEANDRA MONDEGO Meu sono nessa noite foi pesado e cheio de sonhos. Bem, chamá-los assim é bondade, pois neles Luna e minha mãe se afastavam cada vez mais de mim. Elas iam ficando embaçadas, como se estivessem transparentes, e logo sumiram da minha vista. Já é terrível a c***l a distância que fui obrigada a impor para que elas tivessem comida na mesa e o mínimo de segurança. Mas, sumir em meus sonhos… É pesado. Acordo de mau humor e arrumo minha mochila na força do ódio, tentando esquecer as imagens que minha mente cria nos momentos de inconsciência. Maia saiu cedo para fazer compras com Dona Sophia Fox e agora vago pela pequena casa Solis, enquanto tomo um café da manhã silencioso pensando sobre minha nova vida. Trabalhar para James Moore. Recordo-me do homem de cabelos enrolados, brincando entre o liso e o cacheado, quase esvoaçantes, indicando que sua mão o despenteia a cada instante. O rosto forte e o nariz grego acentuam seu porte alto. Os olhos amendoados e os cabelos em um castanho queimados de sol acentuam sua beleza. Mas o que é mais interessante é a forma como sua mente parece estar em constante funcionamento, o que ele denuncia com o franzir do cenho e os punhos cerrados em alguns momentos. Quando eu estava brigando com Travis e ele surgiu feito um anjo salvador e me tirou da mira do homem a quem eu certamente iria agredir, notei isso. Eu estava muito irritada naquele momento, irada na verdade, pois pedi demissão e o pagamento que ele me devia. “Não”. Ele disse isso e simplesmente me deu as costas. Eu me deitei com os homens que ele mandava, dei mais lucro para ele do que aquele muquifo que ele chama de bar e quando apenas quero seguir o meu caminho, ele não paga. Seu argumento é que eu dei prejuízo quando dispensei os clientes que ele arrumava. Tentou fazer Maia aceitar esse serviço extra, mas minha amiga foi irredutível. Certa foi ela que não se deixou levar pelo desespero e não se entregou ao primeiro que lhe balançou um saco de moedas. O que ele diz que eu devo é o dinheiro que não ganhou com os caminhoneiros que queriam uma boa p**a para aquecer seus paus. Eu estava com ódio, essa era a verdade. O homem levou tudo o que podia e, hoje, não me reconheço mais quando olho no espelho. A Alejandra sonhadora de dezessete anos teria vergonha de mim. Vergonha do que fez com a própria família, de ter quase morrido na fronteira quando corríamos na noite fria do deserto e de quase ter morrido afogada no Rio Grande rumo à terra da suposta liberdade. Vergonha por ter me entregue. E aquela mulher que passou por tudo aquilo ainda leva um calote, perdendo o único dinheiro honesto que havia restado. Aqueles mil dólares eram significativos, pois os ganhei cozinhando para Travis. Ele me deu a cozinha e eu fiz refeições para os caminhoneiros. Foi meu pequeno momento de paz, onde recordava o tempero da minha mãe, o sabor da minha terra e as lembranças do tempo em que eu fui feliz. E perder tudo isso pela mesquinharia de Travis despertou o pior em mim e foi James quem me deteve. Estou em dúvida se o agradeço ou não por isso, mas provavelmente eu teria feito uma besteira imensa. — Pensativa? — Tia Lúcia aparece colocando mais café em minha xícara. — Saudades delas. — Comento vagamente. — Sua mãe e irmã. Faz muito tempo... Natural você se sentir assim. Mas, é apenas isso que te inquieta? Saudade? — Receio. Coisa de quem vai começar um emprego novo. — Filha, sabe que aqui não vai te faltar nada, não é? — Ela diz, sugerindo que eu posso não ir se não quiser. Mas não é que não queira. É medo mesmo. — Eu preciso. Preciso ganhar meu dinheiro… Apenas quero que dê certo. E se ele for difícil de lidar? Se ele odiar meu trabalho? — E se… e se… muitas suposições, não acha? Estava com esse receio quando atravessou a fronteira? Quando teve coragem de arranjar seu primeiro emprego? Menina, esse é apenas mais um desafio. — Sinto-me um pirata indo para águas muito profundas. Esse trabalho surgiu do nada e os frutos que ele pode me dar são tão bons, que parece mentira. — É nas águas profundas onde eles encontravam as maiores riquezas. Não se acha nada de valor em águas rasas. Nada, apenas pedras. A sorte dos piratas estava nos ventos fortes e furacões selvagens que os levavam para águas desconhecidas e não mapeadas. Águas que as bússolas não poderiam indicar a direção e eles ficavam completamente abandonados ao acaso. — Não saber a direção é um pouco desesperador. — É desafiador. Encare assim. Não conhecer o caminho, nos torna pequenos desbravadores da nossa existência. Pense na sua vida desde anos atrás. Quantas vezes você realmente esteve no controle? Quantas vezes planejou, rezou… Mas o futuro sempre decidiu a direção? — Está dizendo que não temos força contra o destino? — Destino? Não, o destino não. Destino é quando o futuro já foi desenhado e podemos ler as cartas e dizer o que vai acontecer. Ou um cristão pode falar uma profecia. O destino pode ser conhecido e é mutável. Quando ele é conhecido, a simples ciência dos fatos, já os modifica. — Se não é destino… — Acaso. Sorte. Roleta russa da vida. Chame como quiser. Sabe, as vezes eu tenho sonhos. Eu os entendo como avisos, coisas de família. A questão é que quando eles surgem em minha mente e eu faço algo com eles, o futuro muda. Eu agi contra o destino. Mas, contra o acaso? Ele é aleatório e vai de acordo com nossas escolhas. Ele se constrói ao longo da nossa jornada e depende dos nossos passos e da direção que nós escolhemos. Para o acaso, nossa bússola está sempre quebrada e nós à deriva. Às vezes rumamos a algum porto não mapeado e o chamamos felicidade. — Raramente é felicidade, não? — Brinco. — E quando não é, voltamos para alto mar e navegamos. A linha entre os céticos e os crédulos está no fato de acreditarem no acaso ou no destino, que alguns chamam de Deus, força do alto ou poder de algum lugar. — A senhora é uma crédula? — Ceticamente crédula. — Eu caio na gargalhada. — Como isso seria possível? Ou temos uma direção ou não. — Tsc! Não somos obrigados a nada. Eu acredito que nossa vida foi tecida em todas as suas nuances, alegrias, lágrimas e o pacote inteiro. Acredito que podemos deixar o destino nos levar e se concretizar. Às vezes os sonhos me contam o futuro e, no instante que eu decido não segui-lo, tornei-me cética. No instante em que atuo para que o destino não se concretize, eu me lanço em alto mar e jogo fora toda a bússola, pois eu sei para onde não quero ir. Mas, não sei para onde eu vou. — A senhora me confunde de forma brilhante. — Eu rio. — A questão aqui querida é que toda a sua vida foi lançada ao acaso. Você jamais teve bússola e justamente hoje teme ir para alto mar. Não tenha medo, criança. Há portos bons por aí, basta deixar que os ventos a levem. — Acreditar no destino é mais agradável. — Confortável. Apenas isso. Nós nunca sabemos até onde vamos, senão quando chegamos. — Tem razão. Afinal, quando decidi vir para a América não sabia nem se chegaria viva. Estou indo para um emprego com um homem desconhecido e certamente não imagino o que me espera. — Mas, seja o que for, enfrente de queixo erguido. Nada de abaixar a cabeça, pois fazemos muito isso ao longo da vida. Maia não sabe, mas estou de olho, se aquele fulano lá acha que vai fazer gato e sapato dela, está enganado. Ainda não engoli essa história e estou esperando o bonito, porque convenhamos ele é bonito, vir aqui me pedir a mão dela. — Como se Maia não fosse fazer apenas aquilo que ela quer, não é? — Mas eu tenho que impor respeito. Vão achar que as Solis são o que? tsc! Aqui não. E você também mocinha. Aqui você é uma de nós, já avisa lá para o seu patrão. — Avisarei. — digo solene. — Mas, me conta! Ele é bonitão? — Lúcia Solis! — O que, menina? Quero saber o quanto vou ter que ficar de olho… Passamos um dia gostoso e aproveito ao máximo os mimos que ela me dá, pois logo nos despedimos para que eu possa ir rumo à minha nova vida em busca do meu visto. Em busca dos meus sonhos. Da vida que me foi roubada. Caminho com minha mochila rumo ao bar e mando uma mensagem para Maia. “Por favor, não some. Obrigada por tudo”. “Uma pela outra. Te quiero”, ela responde. Minha mochila zomba de mim pelo seu tamanho, pois nela carrego tudo o que eu tenho. Economias e umas poucas roupas. É o que se tem quando metade do tempo se usa uniforme e se reside em uma pensão de décima categoria. Viver com Maia esses dias foi maravilhoso e pude sentir um pouquinho o sabor de um lar. Mas o desconhecido bate à minha porta e o inesperado se faz presente quando o carro esportivo preto, destoando daquela beira de estrada, se aproxima com seus faróis altos me iluminando. Ergo o queixo, como tia Lúcia me lembrou, e aguardo-o parar no acostamento. A forma como ele parou e eu ali, esperando na calada da noite, me recorda dias menos agradáveis quando ao final eu era deixada naquele mesmo lugar com um maço de dinheiro. O vidro desce e James me encara de cima abaixo, o seu usual vinco se formando em sua testa ao encarar a minha mochila. Minha ironia não passa despercebida, ao notar que ele vive entre nuvens e não conhece com exatidão o inferno que há entre os meros mortais. O ambiente dentro do carro é confortável ao longo da viagem até a área nobre de Los Angeles e completamente contraditório com o eminente desconforto que há entre nós, nitidamente obrigados a estarmos aqui. Eu por Maia e pelo meu visto. Ele por Damon… e provavelmente seus honorários. Suspeito que não há qualquer trabalho para mim, mas ele que não pense que ficarei arrimada na sua casa. Depender de alguém pode ser a diferença entre vida e morte eu nunca mais quero passar por isso. Respiro fundo como se estivesse prendendo o ar em meus pulmões antes de mergulhar, quando entramos no estacionamento subsolo do condomínio. O cheiro do perfume dele me lembra a maresia, como uma tarde ensolarada de verão no instante em que o astro rei está se pondo, e isso me atormenta. Não sei mais se é o perfume ou o mar que efetivamente grita no lado de fora levado pelo vento. Detesto o mar e o bonito me leva para viver de frente para ele. Ótimo. Paramos dentro da garagem do enorme condomínio, que grita luxo e riqueza e dessa vez é ele quem suspira se preparando tanto quanto eu. Finalmente me encara a meia luz do interior do veículo, o cenho franzido e os cabelos esvoaçados como sempre. — Quando chegarmos lá em cima te digo o que irá fazer e as regras da casa. Regras? É o que?
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