Em menos de dez segundos cronometrados, suando frio, o burocrata engoliu seco, carimbou o protocolo de urgência máxima de forma quase violenta, agarrou a pasta grossa de couro como se fosse um escudo sagrado contra a minha ira e disparou correndo pelo corredor interno, tropeçando nos próprios pés, indo direto pro gabinete intocável do juiz plantonista.
Eu não fiquei no balcão esperando igual c****a adestrada. Não esperei ser anunciada por secretária nenhuma. Acompanhei o verme. Caminhei a passos firmes, decididos, o ódio fervendo o meu sangue, até parar na frente da pesada porta de mogno maciço do gabinete do doutor Medeiros. O ilustríssimo excelência. Um velho togado, nojento e corrupto até o último fio de cabelo branco, que vivia de joelhos, rastejando pra atender aos caprichos mais escusos, ilegais e sanguinários da delegacia do Carvalho e da milícia local.
Eu não dei bom dia. Empurrei a porta dupla de supetão, sem bater, metendo a mão na madeira pesada. O barulho metálico da maçaneta batendo na parede ecoou pesadamente pelas paredes revestidas de mogno do gabinete de luxo.
O velho juiz pulou assustado na cadeira de couro legítimo giratória, quase derrubando a xícara de café expresso no terno alinhado. Ele começou a ajeitar a gravata torta no colarinho suado, tentando recuperar num piscar de olhos a pose engessada de autoridade intocável que ele não tinha moral nenhuma pra sustentar.
— Mas que invasão absurda é essa, Lívia?! Você perdeu completamente o juízo ou foi buscar droga na rua de madrugada pra entrar na minha sala chutando porta?! — gaguejou o magistrado, ruborizado de raiva e vergonha, tentando engrossar a voz inútil dele.
Eu não recuei um milímetro. Puxei a cadeira de espaldar alto em frente à mesa de madeira de lei dele, raspei os pés da cadeira no chão de propósito só pra irritar, e sentei. Cruzei as pernas com uma elegância letal, arrumei a jaqueta e encarei o velho com um sorriso debochado, cortante como vidro quebrado sendo pisado no asfalto quente.
— O juízo quem perdeu foi vossa excelência se acha por um segundo que eu vim aqui brincar de burocracia. O juízo quem perdeu foi você, seu velho safado, se acha que vai continuar acobertando a ilegalidade escancarada e os B.O forjado do meu irmão só porque vocês dois têm o r**o preso com esquema político e propina de miliciano. — Apontei o dedo bem na cara dele, ignorando qualquer liturgia do cargo. — O Lucas é um moleque réu primário, trabalhador, preso totalmente à revelia da lei, num flagrante montado pra inglês ver, por pura birra de macho ferido que apanhou de traficante na favela.
Medeiros tentou abrir a boca pra mandar eu calar a boca, mas eu atropelei a voz dele com o dobro de autoridade.
— Você vai assinar a p***a desse alvará de soltura agora mesmo. Por bem, caladinho e com muito carinho. Ou, se tu quiser meter o louco e comprar o barulho do meu irmão, eu vou vazar hoje, antes do meio-dia, pra imprensa nacional, pros portais independentes investigativos e espalhar nas redes sociais todas as gravações das escutas clandestinas e os extratos dos pedidos de propina que a tua vara chancelou no mês passado pra blindar a milícia da Zona Oeste. Eu tenho o pen-drive, Medeiros. Eu tenho o áudio de você vendendo sentença pra bicheiro. Assina logo essa merda. A caneta tá na tua mão. Ou tu solta o inocente, ou tu escolhe cair de podre, algemado pela federal, junto com o doente do meu irmão. A escolha é tua.
O silêncio denso e pesado que se instalou na sala gigante virou uma lâmina afiada, gelada, encostada direto na garganta do magistrado. O velho suou frio na hora. A careca dele começou a brilhar de puro pavor sob a luz amarelada do lustre, e a mão enrugada, cheia de anel de ouro, tremeu violentamente de ódio contido, humilhação e medo ao segurar a sua caneta-tinteiro Montblanc de dez mil reais.
Ele sabia muito bem que eu tinha a fita toda. Ele sabia que as provas documentais tavam guardadas em sete chaves, em lugar seguro que a polícia do meu irmão nunca ia achar. Ele sabia que a Lívia Carvalho não tinha o menor medo de queimar o circo inteiro, de botar fogo no fórum, de destruir o tribunal de justiça, a mídia e a carreira de quem fosse necessário pra fazer a minha própria lei prevalecer. O sistema é podre, mas eu sou o veneno que mata a podridão.
Com um gesto trêmulo, bufando que nem um porco derrotado pela própria corrupção, o juiz puxou o documento de Habeas Corpus na direção dele. Ele assinou a liberação com rabiscos nervosos e agressivos, pegou o carimbo de bronze oficial da vara criminal e bateu no papel com tanta raiva, com tanta força, que o tampo de vidro grosso da mesa estalou de ponta a ponta, soltando um barulho de quebra no meio da sala.
— Você tá brincando com fogo da pior espécie, garota... Tu não sabe onde tá se metendo. — O juiz rosnou entre dentes, a respiração pesada, me estendendo o pedaço de papel oficial com os dedos crispados e suados, o ódio vazando pelo olhar. — O seu irmão é perigoso, Lívia. O Carvalho não é de levar desaforo. Ele vai te caçar até no inferno por tu tirar a presa dele. O morro do Cruzeiro inteiro tá em guerra aberta, a polícia civil tá ensandecida querendo a cabeça do Caveira, e você, uma patricinha com diploma, tá peitando o sistema criminoso inteiro completamente sozinha. Um dia desses tu vai cruzar a linha com a pessoa errada... tu vai longe demais no teu ego, e vai acabar com a cabeça estourada por tiro de fuzil no meio da rua, jogada numa vala qualquer.
Levantei devagar. Peguei o alvará de soltura da mão tremelicante dele com uma firmeza inabalável. Dobrei o papel milimetricamente e enfiei no bolso interno da minha jaqueta de couro preta, mantendo a postura reta, erguida, de quem não se curva nem pra juiz, nem pra polícia e nem pro próprio d***o.
— Eu brinco com fogo desde que me entendo por gente, excelência. E o fogo costuma pedir a minha benção antes de queimar os outros. Avisa pro meu irmão que a ovelha n***a tá na pista. Fica aí com o seu café amargo, com a sua mesa rachada e a sua consciência suja de sangue. Passar bem.
Dei as costas sem olhar pra trás nem mais uma fração de segundo. Saí do gabinete batendo a porta de mogno nas minhas costas. O meu coração batia forte e acelerado no peito, a adrenalina correndo pura na corrente sanguínea, mas a minha mente tava absolutamente fria, calculista e afiada.
A primeira etapa daquela guerra suja tava vencida. O alvará de soltura cantou. A chave da gaiola tava segura no meu bolso. Agora, eu ia marchar direto pro antro nojento do meu irmão, lá na 9ª DP. Eu ia peitar a corja fardada inteira na base do grito, da lei estrita e da marra pura. Ia chutar a porta daquela delegacia, arrancar o Lucas daquela carceragem de inferno e provar, de uma vez por todas, bem na cara do delegado Carvalho, que dentro daquela cidade totalmente corrompida, a verdadeira rainha do tabuleiro de xadrez vestia preto e nunca, em hipótese absolutamente nenhuma, abaixava a cabeça pra distintivo de tiras covardes.
O inferno hoje tava só de portas abertas. E eu tinha a chave principal.