Martin
Mas, como isso é possível? É ela, a minha amiga brasileira, Hannah... Nossa, eu estou comovido, achei que ela nunca mais entrasse em contato depois do meu sumiço. Naquele momento eu não podia me apresentar a ela, Hannah sempre achou que eu era uma pessoa comum, ela tinha muitas informações sobre mim, não que eu desconfiasse dela, sempre me pareceu uma pessoa verdadeira, mas quando ela começou a fazer questão de me conhecer eu não poderia fazer mais nada, tinha que me afastar. Sua companhia, mesmo que virtual, era maravilhosa, apesar de ser extremamente debochada, um comportamento típico dos brasileiros, fazer brincadeiras com tudo e todos, Hannah é assim.
Ela tinha o dom de me fazer sorrir, e nos momentos mais difíceis as suas palavras, suas piadas e o som de sua risada, me deixavam mais leve, e me faziam esquecer a dor e a raiva que eu sentia. Por dois anos Hannah foi uma amiga incrível, mesmo que eu não saiba claramente como é a sua fisionomia, mas no momento em que conversávamos, ou jogávamos, isso me permitia sair de minha realidade cheia de cobranças por todos os lados, e eu era apenas o Martin... Nada além disso!
Cheguei ao clube muito cedo, por pouco não me perdi, ainda não aprendi o caminho e sem o GPS, jamais chegaria. Alguns colegas já estavam se aquecendo quando eu coloquei meus pés sob a grama, avisto Lee e me aproximo. Meu amigo abre um grande sorriso quando percebe a minha presença.
— E aí, como foi sua noite? — Pela sua pergunta, a noite dele foi bem intensa.
— Não tão melhor que a sua, meu amigo!
— Como é que você sabe que a minha noite foi boa?
— Acho que está estampado na sua cara, Lee! — Assim que afirmo, ele sorri.
— É verdade, eu tive uma noite incrível, pena que você não quis ir! Ontem estava demais...
— Não faltará oportunidades, e ontem eu estava muito cansado, e queria ficar em casa!
— É o primeiro sinal de velhice, Martin! — Ele fala e solta uma gargalhada.
— Velho, eu? Vai se ferrar, Lee! Mas, e você? Parece bem saidinho, sua família sabe que você anda conquistando todas em Paris? — Lee pára de sorrir, e uma fisionomia mais séria se estampa em sua face. Eu me afasto, e inicio uma corrida ao redor do campo. É engraçado pensar em Lee, meu amigo de longa data, filho de coreanos, criado com tanta severidade, e agora curtindo um pouco mais a vida de solteiro.
— Minha família não sabe, e também não precisa saber! — Ele diz ao se aproximar de mim durante a corrida.
No final da tarde quando o treino finalmente terminou, eu estava exausto. Eu, Lee e Juan saímos do CT em busca de um lugar para comer e jogar conversa fora. Lembrei-me de um Café, um espaço aparentemente agradável, e que fica próximo da minha casa. Os dois conversavam durante todo o trajeto, e eu apenas dirigia. A minha disposição para conversar estava abaixo de zero, e meus amigos perceberam isso.
— Qual é o problema Martin? — Perguntou Juan.
— Problema? Que problema?
— Você parece chateado com alguma coisa, passou o dia inteiro calado... Falando o mínimo!
— Eu não estou chateado, apenas pensativo!
— Está bem, vou fingir que acredito! — Diz ironicamente Lee.
Chegamos ao local, estacionei do outro lado da rua. Meus amigos saíram do carro, e entraram primeiro que eu, no estabelecimento. As pessoas pareciam não reparar a minha presença, acho que foi o boné e os óculos escuros que me ajudaram a disfarçar a minha fisionomia. Entrei, caminhei entre algumas mesas até chegar onde já se encontravam meus amigos, arrastei uma cadeira e sentei-me. Lee olha em volta o local, enquanto Juan acena para a garçonete. E quando ela se aproximou, a reconheço. O que há? Essa garota está me perseguindo? Que d***a, é essa? Onde vou, tenho a maldita sorte de encontrá-la!
— Não acredito. — Falo, e meus amigos me encaram com curiosidade.
— O que houve, Martin? — Pergunta Juan.
— Não foi nada! — Assim que profiro estas palavras, tiro o óculos e o boné quando percebo a proximidade daquela maluca.
— Boa tarde, senhores! — Ela fala, e eu a encaro.
— ¡Buenas tardes señorita! — Ao ouvir minha voz, ela me encara com espanto. Eu retribuo com um sorriso sarcástico. Meus amigos olham para mim, na tentativa de entender o que pode estar acontecendo, são segundos que parecem uma eternidade.
— Aqui está o menu, eu vou deixá-los à vontade, e assim que escolherem podem chamar.
O tom de sua voz, e a expressão de sua face estava longe da prepotência e arrogância com que ela me tratou das outras duas vezes que nos encontramos, e eu estava adorando isso. Ela direcionou o menu a Juan, mas me antecipei e o peguei.
— ¡Gracias señorita!
Seu olhar encontrou o meu, e eu senti como ela estava nervosa. Medo era o que parecia sentir, e provavelmente sobre minhas atitudes. A garota se afastou, eu continuei a olhá-la, me deu às costas e seguiu para perto do balcão. Fui tirado de meu momento de satisfação por meus amigos, que estavam muito curiosos.
— Rolou alguma coisa entre você e essa garçonete? — Pergunta Lee.
— Não. Mas, vocês lembram-se da garota que me deu um banho na boate?
— Com bebida? — Pergunta Juan.
— Não, com água! Que pergunta mais tonta.... — falo, e solto uma gargalhada. Juan faz uma careta. — Então, essa garçonete é a tal garota, de que falei!
— Por isso você fez questão de vir comer aqui?
— Não Lee! Eu não sabia que ela trabalhava aqui, eu fiz questão de vir porque fica perto da minha casa, e me pareceu ser um lugar tranquilo!
— Sei não... Eu estou achando que você está dando muita importância para essa história! — Lee fala em tom de brincadeira.
— Como assim?
— Ah, Martin! Ela é bonita...
— Sim... E? Acho que eu estou entendendo o que você está querendo dizer... Você está pensando que eu estou com interesse por essa garota?
— Com certeza... — Afirma Lee.
A conversa continua em torno da garota. Ela vem até nossa mesa para trazer o nosso pedido, e eu sinto a tensão que paira no ar, ela está nervosa. E eu adoro essa tensão. Ela simplesmente não me encara, olha para Juan e Lee, para bandeja, para todos os lugares possíveis. Enquanto ela faz de tudo para não olhar para mim, eu não tiro os meus olhos dela, e tenho que concordar com meus amigos, ela é bonita. Seu rosto tem traços finos, nariz empinado, grandes olhos castanhos, e uma boca bem carnuda... Algo que eu adoro ver e sentir nas mulheres! Eu a encaro, e continuo com a sensação de que a conheço de algum lugar.
Hannah
Eu estava trabalhando no Le café Burnett há uma semana. Em uma escala de nervosismo, de 0 a 10, acho que eu alcancei 12 durante esse período de trabalho. Enfim, meu nervosismo estava em torno de nunca ter trabalhado nesta função, e não fazer nenhuma besteira quando estiver atendendo as pessoas. Eu começava a me familiarizar com o ambiente, com os colegas de trabalho, com os clientes. Tudo estava bem... Até agora, mas como diz meu pai, “Alegria e tranquilidade às vezes tem prazo de validade”. Fim de tarde, o movimento estava um pouco intenso, eu estava no fim do meu expediente, na verdade faltavam trinta minutos para que eu pudesse ir para casa. Mas, a porta é aberta, meus dois colegas estavam ocupados atendendo outras mesas, enquanto eu recolhia pratos, copos e talheres das mesas desocupadas. Ouvi quando Camille que estava no balcão, chamou meu nome.
— Hannah, mesa quatro!
Olhei para a loira, e em seguida na direção em que ficava a mesa, à minha frente, mas exatamente era a última da fileira de mesas. Quando meus olhos avistaram as pessoas que estavam ali, achei seus rostos familiares, e ao me aproximar tive certeza, e o pior de tudo é que ele estava entre eles. Martin tirou o boné e os óculos escuros, e me encarou, seu olhar me pareceu ameaçador demais, eu sinceramente não espero que ele seja tão i****a a ponto de me prejudicar!
— Boa tarde, senhores! — Eu falei com receio, afinal de contas o atacante do Paris Club Sportif não tirava seus olhos de mim.
— ¡Buenas tardes señorita! — Sua voz era de um sarcasmo que dava medo, eu o olhei espantada. Ele sorri, e os amigos o encaram.
— Aqui está o menu, eu vou deixá-los à vontade, e assim que escolherem podem chamar. —Eu falo em francês, pois mesmo que ele tenha me respondido em espanhol, responder em sua língua, pelo menos para mim, seria dar crédito demais a ele, e esse cara não merece isso.
E antes que eu entregue os menus a Lee Min-Soo, ou a Miguel Jimenez, o maldito Martin se antecipa e os pega de minha mão. O seu sorrisinho cínico estampado em sua face é irritante, o nervosismo toma conta de mim, e o infeliz acha pouco.
— ¡Gracias señorita!
Eu me afasto, e ele continua me olhando. Dei as costas e segui para continuar meu trabalho, respiro fundo, pego a bandeja e coloco os pratos e talheres. No balcão, Camille me encara espantada.
— São os jogadores do Paris Club Sportif? Aquele é o Martin?
— São eles...
— Ai, minha nossa! Eu só percebi quando você estava junto deles, e o Deus do Martin pegou o menu da sua mão... Eu no seu lugar teria gritado!
— Que exagero Camille!
— Exagero? E outra coisa, ele ficou te olhando o tempo todo...
— Eu não percebi isso! E para mim pouco importa...
Minha colega de trabalho me lança um olhar fulminante. Eu entendo, mas para mim pouco importa que um cara como Martin esteja olhando para mim com interesse, além de eu não gostar dele por fatores óbvios, ainda tem o fato de que ele está acostumado a pegar modelos e atrizes lindíssimas, uma noite e nada mais... Nada contra, ás vezes uma noite de s**o com alguém desconhecido é legal para esfriar as ideias, mas neste momento não estou nesta vibe, e muito menos com o Martin. Uma noite com ele seria problema por um tempo, principalmente se a mídia descobrir, e ainda tem a minha irmã. Mas, por que eu estou pensando em tudo isso? Que idiotice!
[...]
Tudo estava bem. O Martin não tinha feito nada para me irritar, embora continuasse me olhando. Afinal de contas, eu estava muito sexy com o bom e velho jeans, uma camiseta branca e o avental preto que trazia o nome do Café, o cabelo muito bem amarrado, pouca maquiagem... Um verdadeiro deslumbre, de atrair qualquer homem, incluindo alguém famoso como Martin... Só que não! Seu olhar tinha o intuito de me desestabilizar, essa era a verdade. E, quando eles me chamam mais uma vez, acreditando que seria para fechar a conta, Martin pede um suco de laranja.
Volto com o pedido, e antes que eu entregue o copo... Ai, que ódio! Ele bate a mão rapidamente, e o líquido vira todo no meu uniforme. Chego a uma conclusão... Três vezes nos encontramos, a primeira eu ganhei, a segunda empatamos, e agora ele ganha. Hannah 1 x 2 Martin. Filho da mãe! O pior não é estar molhada, mas o cinismo estampado na sua cara e no seu discurso.
— Ah, como sou desastrado. Me perdoe, senhorita! — Ele fala, e a minha vontade é partir a cara dele ao meio.
— Tudo bem, senhor! Não se preocupe, eu pegarei outro suco...
— Não se incomode... Quero fechar a conta. Deixe o suco para outra ocasião, afinal de contas eu gostei muito deste lugar... Vou continuar frequentando! — Ele afirma, e o sorriso cínico continua estampado em sua face.
Depois de limpar o estrago e entregar-lhe seu cartão com a nota. Ele se levanta, fica diante de mim, e a vontade louca de partir sua cara continua. Mas, Martin não é o Rei da França, é o soberano do deboche, isso sim!
— Eu não perguntei o seu nome... Como a senhorita se chama? — Meu olhar para ele é mortal, se eu possuísse superpoderes, Martin seria reduzido a **.
— Hannah. — Digo o meu nome, e sinto sua expressão mudar. O cinismo dá lugar a uma expressão séria. O que ele pretende agora? Ele passa levemente a mão na barba, e responde.
— Bonito nome, senhorita! — ele diz, passa por mim. E antes que eu me vire, ela chama meu nome. Eu olho em sua direção. — Hannah... Infelizmente eu não consegui tomar meu suco, assim como você que não conseguiu tomar o seu mojito, não é mesmo?
Que filho da p**a! Minha vontade é de avançar em cima dele com uma voadora, chutar a aquele rosto cheio de cinismo, mas apenas sorrio, e respondo.
— Tenha uma boa noite, e volte sempre Senhor González!
— Com certeza, eu voltarei!
Depois disso tenho certeza que já posso receber o meu Oscar, por meu autocontrole. Foi incrível, não fiz nada que me fizesse perder o emprego agora. Eu tive maturidade, fui profissional. Tenho certeza que agi muito bem, mas, o pior de tudo é saber que ele voltará.
Martin
Depois de deixar meus amigos em casa, finalmente chego a minha casa. Durante todo o trajeto do Le café Burnett até a casa de Juan e Lee, eles não falaram de outra coisa.... Hannah. Eles não acreditaram no que falei, e acham que eu tive algum envolvimento com ela. Não seria tão difícil, ela é bonita, atraente e tem aquela boca carnuda... Mas, seu temperamento não é muito fácil. Parece coincidência, ontem a Hannah me enviou um email, isso sem contar que eu descobri que existiam outros que ela escreveu ao longo desses três anos. E agora, a garçonete, que mais parece estar em constante disputa comigo, pois toda vez que nos encontramos acontece algo para me irritar, mas dessa vez ela bebeu do próprio veneno, entretanto eu paguei pelo suco, e ainda deixei a gorjeta dela. Abro as portas da varanda, caminho em direção ao sofá, me deito, eu tento não pensar, mas desde ontem o email tem me perturbado...
Quer saber de uma coisa?
Eu vou resolver isso agora!