Apenas deixei as mulheres limpar o ferimento, separar uma dobra de roubar e servir água fresca com um pote com sopa quente. Uma vida estranhamente confortável que, mesmo com fome, eu estava com medo de aceitar ou comer.
— Deixe me sozinha com a divindade. — Tesla soltou para as mulheres, que atenderam imediatamente. Eu funcionei no automático, e esperei que elas saíssem. Até a porta se fechar e ela se dirigir para mim. — Coma, sei o que está pensando. Coma, vai precisar de energias para qualquer situação.
— O que você fez, Tesla? — perguntei, quase sem piscar.
— Não me condene como uma traidora. — Ela bateu seu cajado no chão e me olhou sério. — Eu tive uma visão da mãe fértil, não como as outras. Vi a ascensão do Alpha, nascer em um ventre poderoso. Mas isso não irá acontecer apenas com a força dos céus.
Eu abri a boca, com pavor e um susto horrível em meu rosto.
— Você previu isso e quer que eu me deite com aquele maldito i****a?
— Ele não é o Alpha. — Eu me calei, sem entender os seus planos, mas ainda a olhando. — Movido a promessa de tomar Nefertiti, O Alpha não irá tomar nenhuma outra fêmea até se livrar do vínculo. Ainda que ele use de seus direitos para tê-la como concubina…
— Ele não pode ter uma concubina depois que marcar alguém. E se ele marcar alguém sem o fio do destino, os dois morrem. — Soltei, enquanto ela concordava. — O que está tentando me dizer?
— Ele tentou com outras fêmeas. Elas se foram e ele ficou insano. — Eu engoli em seco e tentei não pensar naquilo de uma forma sem me pesar. — A divindade está próxima, mas sinto que ele ainda lutará na lua de sangue. Meu senhor deposita toda sua frustração em sua amarra divina e a culpa por nossa desgraça, então ainda vejo ele lutando contra isso.
— Mas eu…
— Então planejei, friamente, um modo para aguçar o lobo ao seu limite. — Eu levantei as mãos, ela parou de falar e eu respirei fundo.
— Eu já entendi o que está tentando fazer. Assim como ele reagiu territorialista, vai aguçar isso de uma forma mais extrema. — Ela concordou, como se seu plano fosse perfeito. — Tesla, eu não preciso de uma lua para engravidar. Eu fiquei indecisa quando ele veio “reivindicar” o ciúmes dele, pouco antes d’eu ir para a prisão do paraíso. — Fiz aspas com os dedos pra vê se ela entendia. — Foi aonde ele achou melhor me fazer concubina. Mas, se eu soubesse que ter um filho dele ia solucionar tudo, eu tinha que ser dado há uns capítulos atrás mesmo.
Ela ficou imóvel, engoliu em seco e começou a se abaixar. O peito dela pareceu se mover devagar e quando menos acreditei, ela se ajoelhou, soltou seu bastão e se curvou a ponto de descer a cabeça e quase encostá-la no chão.
— Eu reverencio tamanha graça.
— O que você está fazendo? — Entortei a cara toda e afinei os olhos, como quem chupou um limão e não entendia p***a nenhuma.
— Um filho para o Alpha lhe dará a ascensão. É poder o suficiente para retomar a ilha. — Eu pisquei devagar, e depois engoli mais devagar ainda. — Diga-me, Divindade, o que a impede de nos salvar?
Eu enchi os olhos de água, peguei a bacia de sopa ao lado da cama e tentei comer, pra não chorar. Infelizmente, ela ficou ali, se levantou e esperou pacientemente pela minha resposta.
— Ele me impede. — respondi limpando a boca depois de bebericar a beirada da tigela — Se ele não me quer na vida dele, como vou simplesmente lhe dar um filho?
— A matriz de um bebê jamais será separada de seu filhote. Será admirada e respeitada como a senhora de nosso lar. — Eu levantei os olhos e deixei uma gotícula escapar. — Não há poder capaz de romper esse vínculo. A própria divindade é a testemunha viva deste fenômeno.
— Amor, Tesla. — respondi abandonando a tigela e me entregando a minha realidade — Malekith não me ama e eu sei disso.
— Mas e o quanto a divindade o ama? — Eu suspirei, levantei os olhos e chorei. — O quanto os Deuses nos amam, sabendo que ao menos um lutaria por nós? — Ela tocou em meu queixo e limpou uma de minhas lágrimas — E se um não fosse o Alpha?
— Porque sou sempre eu quem tem de se sacrificar? — respondi, já entregue as lágrimas.
— Se pensas que nunca olhei para Taurum, me perguntando se os espíritos me tem algum propósito, engana-se. Sou a única xamã sobrevivente. — confessou — Eu não posso abandonar meu povo, para viver as batidas de meu coração. Se eu tivesse cedido ao seu olhar, não teria juntado magia o suficiente para ajudar o Alpha em sua passagem e lhe buscar. — Engoli devagar, e tentei secar minhas lágrimas. — Se me cabe dizer, não estará sozinha.
Eu pisquei, respirei fundo e tentei deixar a emoção de lado. Todo capítulo tem um choro, tá na hora do enredo mudar.
— E agora? — Ela se sentou ao meu lado e eu respirei fundo.
— Agora precisamos de um plano para escapar. De fato eu não sabia de sua soberania, mas se pode nos salvar antes da Mãe fértil, então estamos na casa do inimigo à toa.
Ficamos em silêncio, o choro passou e eu concordei.
— Ele não pode saber que posso ter filhos antes disso. Temos até lá para pensar em algo.