Capítulo 25

962 Palavras
“Antes de tudo dar errado… a gente jurava que era pra sempre.” O céu de Miami estava tingido em tons de laranja e rosa, como se o dia estivesse se despedindo com cuidado. Era sempre assim no Azure. Bonito demais pra ser esquecido. E talvez por isso tenha sido exatamente ali que tudo começou. Flashback — Você vai me dizer pra onde a gente tá indo ou vai continuar fazendo esse suspense ridículo? A voz de Maya vinha carregada de impaciência, mas o sorriso entregava tudo. Eu ri. — Confia em mim. — Esse é exatamente o problema. Revirei os olhos. — Dramática. — Realista. — Ela rebateu na hora. Segurei a mão dela com mais força e continuei puxando pelo corredor que levava ao terraço. Meu coração estava acelerado. Não de nervoso, mas de expectativa. Porque eu sabia que aquela noite ia ser especial. Quando empurrei a porta do terraço, o vento bateu leve contra o meu rosto. E eu soltei a mão dela. — Pode abrir os olhos. Maya, que tinha fechado os olhos no meio do caminho — contra a vontade, diga-se de passagem — abriu devagar e ficou em silêncio. No meio do terraço uma pequena barraca de camping estava montada. Ao redor, luzes delicadas que eu tinha improvisado com pisca-piscas antigos criavam um clima aconchegante. Um tecido claro estendido no chão servia como base, com almofadas espalhadas, e no centro uma pequena mesa improvisada. Simples, mas feita com cuidado. — Elena… — A voz dela saiu mais baixa, surpresa. — Você fez isso? Dei de ombros, tentando parecer casual. — Talvez. Ela me olhou, e aquele olhar valeu tudo. — Você é maluca. — Eu sei. — Eu amei. Pronto, era isso. Eu já podia morrer em paz. Maya se aproximou devagar, observando cada detalhe. — Isso aqui tá… lindo. — Não é nada demais. — Para de mentir — ela disse, rindo baixo. — Você pensou em tudo. Ela estava certa. Eu pensei em cada detalhe. — Minha mãe ajudou com isso — falei, apontando para o recipiente sobre a mesa improvisada. Maya arqueou a sobrancelha. — Isso o quê? Abri o pote. — Bolo salgado. — Mentira. — Ela disse arregalando os olhos. — De verdade. — Aquele? Assenti. — O favorito. Ela não esperou. Pegou um pedaço com a mão mesmo. Provou e fechou os olhos. — Meu Deus. — Ela disse animada. Eu ri. — É bom assim? — Elena… isso aqui devia ser considerado crime. — Por ser bom? — Por viciar. Nós duas rimos. E por alguns segundos o mundo ficou leve. — E isso aqui? — Ela apontou para a jarra ao lado. — Suco natural de laranja. — Você realmente decidiu ser perfeita hoje? — Tô tentando. — Tá conseguindo. Ela respondeu simples, e aquilo me desarmou completamente. Nos sentamos lado a lado. Comemos, conversamos. Sobre tudo, sobre nada, sobre a vida, sobre o futuro, sobre coisas pequenas que, naquele momento, pareciam gigantes. A música começou a tocar baixinho, quase imperceptível. Maya inclinou levemente a cabeça. — Essa música… Eu sorri. — Você gosta. — Eu amo. Era Yo Te Voy Amar. E de repente tudo parecia mais intenso. — Você lembra da primeira vez que ouviu isso? — Perguntei. Ela riu. — Lembro. Você cantando completamente desafinada no meu quarto. — Eu não canto desafinada. — Elena… — Tá, talvez um pouco. Ela me empurrou de leve, sorrindo. E aquele som era tudo o que eu queria guardar pra sempre. Depois de um tempo nos levantamos, quase ao mesmo tempo, como se fosse automático. Saímos da barraca e caminhamos até a beira do muro. A cidade se estendia diante de nós. Luzes acendendo, vida acontecendo e a gente ali, paradas no tempo. No nosso lugar. Abracei Maya por trás, devagar, sem pressa. Ela se encaixou em mim como se fosse o lugar certo. Como sempre foi. — Eu queria que isso durasse pra sempre. Ela disse baixo, quase um pensamento em voz alta. Meu coração apertou. — Vai durar. Respondi sem pensar, sem medo. Com a certeza de quem acredita de verdade. Ela virou o rosto de leve. — Promete? A pergunta veio suave, mas carregada de algo maior. Eu não hesitei. — Prometo. E naquele momento eu realmente acreditava nisso. O vento aumentou, e junto com ele vieram as primeiras gotas. — Sério isso? — Maya disse olhando para o céu. — Não acredito. — Comecei a rir. — Faz parte da experiência. — Elena! Mas já era tarde. A chuva começou de verdade. Fina no começo, depois mais forte. Segurei a mão dela. — Vem! Corremos de volta pra barraca. Rindo, molhadas, desajeitadas, vivas. Entramos rápido, respirando fundo. Tentando recuperar o ar. E então… silêncio. A chuva batia do lado de fora quase hipnotizante. E dentro da barraca só existíamos nós duas. Maya me olhou. Os cabelos levemente molhados, o rosto iluminado pelas luzes suaves. Os olhos carregados de tudo. — Você é completamente maluca. — Ela disse baixo, as dessa vez sem brincadeira. — Mas é a minha maluca. Meu coração falhou uma batida. — E você é minha. Respondi quase no mesmo tom. Silêncio. Mas não vazio. Ela se aproximou devagar, como se tivesse tempo, como se o mundo não estivesse lá fora, como se nada pudesse nos alcançar ali. E quando os lábios dela tocaram os meus não tinha dúvida, não tinha medo, não tinha futuro. Só tinha a gente. O beijo foi calmo, profundo, cheio de sentimento. Daqueles que dizem tudo sem precisar de palavra nenhuma. E ali naquela barraca improvisada no terraço do Azure com a chuva caindo do lado de fora, uma promessa foi feita sem pensar. A gente realmente acreditou que nada ia dar errado. Mas deu.
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