“Antes de tudo dar errado… a gente jurava que era pra sempre.”
O céu de Miami estava tingido em tons de laranja e rosa, como se o dia estivesse se despedindo com cuidado.
Era sempre assim no Azure.
Bonito demais pra ser esquecido. E talvez por isso tenha sido exatamente ali que tudo começou.
Flashback
— Você vai me dizer pra onde a gente tá indo ou vai continuar fazendo esse suspense ridículo?
A voz de Maya vinha carregada de impaciência, mas o sorriso entregava tudo.
Eu ri.
— Confia em mim.
— Esse é exatamente o problema.
Revirei os olhos.
— Dramática.
— Realista. — Ela rebateu na hora.
Segurei a mão dela com mais força e continuei puxando pelo corredor que levava ao terraço.
Meu coração estava acelerado. Não de nervoso, mas de expectativa. Porque eu sabia que aquela noite ia ser especial.
Quando empurrei a porta do terraço, o vento bateu leve contra o meu rosto. E eu soltei a mão dela.
— Pode abrir os olhos.
Maya, que tinha fechado os olhos no meio do caminho — contra a vontade, diga-se de passagem — abriu devagar e ficou em silêncio.
No meio do terraço uma pequena barraca de camping estava montada.
Ao redor, luzes delicadas que eu tinha improvisado com pisca-piscas antigos criavam um clima aconchegante.
Um tecido claro estendido no chão servia como base, com almofadas espalhadas, e no centro uma pequena mesa improvisada. Simples, mas feita com cuidado.
— Elena… — A voz dela saiu mais baixa, surpresa. — Você fez isso?
Dei de ombros, tentando parecer casual.
— Talvez.
Ela me olhou, e aquele olhar valeu tudo.
— Você é maluca.
— Eu sei.
— Eu amei.
Pronto, era isso. Eu já podia morrer em paz.
Maya se aproximou devagar, observando cada detalhe.
— Isso aqui tá… lindo.
— Não é nada demais.
— Para de mentir — ela disse, rindo baixo. — Você pensou em tudo.
Ela estava certa. Eu pensei em cada detalhe.
— Minha mãe ajudou com isso — falei, apontando para o recipiente sobre a mesa improvisada.
Maya arqueou a sobrancelha.
— Isso o quê?
Abri o pote.
— Bolo salgado.
— Mentira. — Ela disse arregalando os olhos.
— De verdade.
— Aquele?
Assenti.
— O favorito.
Ela não esperou. Pegou um pedaço com a mão mesmo. Provou e fechou os olhos.
— Meu Deus. — Ela disse animada.
Eu ri.
— É bom assim?
— Elena… isso aqui devia ser considerado crime.
— Por ser bom?
— Por viciar.
Nós duas rimos. E por alguns segundos o mundo ficou leve.
— E isso aqui? — Ela apontou para a jarra ao lado.
— Suco natural de laranja.
— Você realmente decidiu ser perfeita hoje?
— Tô tentando.
— Tá conseguindo.
Ela respondeu simples, e aquilo me desarmou completamente.
Nos sentamos lado a lado. Comemos, conversamos. Sobre tudo, sobre nada, sobre a vida, sobre o futuro, sobre coisas pequenas que, naquele momento, pareciam gigantes.
A música começou a tocar baixinho, quase imperceptível.
Maya inclinou levemente a cabeça.
— Essa música…
Eu sorri.
— Você gosta.
— Eu amo.
Era Yo Te Voy Amar. E de repente tudo parecia mais intenso.
— Você lembra da primeira vez que ouviu isso? — Perguntei.
Ela riu.
— Lembro. Você cantando completamente desafinada no meu quarto.
— Eu não canto desafinada.
— Elena…
— Tá, talvez um pouco.
Ela me empurrou de leve, sorrindo. E aquele som era tudo o que eu queria guardar pra sempre.
Depois de um tempo nos levantamos, quase ao mesmo tempo, como se fosse automático.
Saímos da barraca e caminhamos até a beira do muro. A cidade se estendia diante de nós. Luzes acendendo, vida acontecendo e a gente ali, paradas no tempo. No nosso lugar.
Abracei Maya por trás, devagar, sem pressa.
Ela se encaixou em mim como se fosse o lugar certo. Como sempre foi.
— Eu queria que isso durasse pra sempre.
Ela disse baixo, quase um pensamento em voz alta.
Meu coração apertou.
— Vai durar.
Respondi sem pensar, sem medo. Com a certeza de quem acredita de verdade.
Ela virou o rosto de leve.
— Promete?
A pergunta veio suave, mas carregada de algo maior.
Eu não hesitei.
— Prometo.
E naquele momento eu realmente acreditava nisso.
O vento aumentou, e junto com ele vieram as primeiras gotas.
— Sério isso? — Maya disse olhando para o céu.
— Não acredito. — Comecei a rir. — Faz parte da experiência.
— Elena!
Mas já era tarde. A chuva começou de verdade. Fina no começo, depois mais forte. Segurei a mão dela.
— Vem!
Corremos de volta pra barraca. Rindo, molhadas, desajeitadas, vivas. Entramos rápido, respirando fundo. Tentando recuperar o ar. E então… silêncio.
A chuva batia do lado de fora quase hipnotizante. E dentro da barraca só existíamos nós duas.
Maya me olhou. Os cabelos levemente molhados, o rosto iluminado pelas luzes suaves. Os olhos carregados de tudo.
— Você é completamente maluca. — Ela disse baixo, as dessa vez sem brincadeira. — Mas é a minha maluca.
Meu coração falhou uma batida.
— E você é minha.
Respondi quase no mesmo tom.
Silêncio. Mas não vazio.
Ela se aproximou devagar, como se tivesse tempo, como se o mundo não estivesse lá fora, como se nada pudesse nos alcançar ali.
E quando os lábios dela tocaram os meus não tinha dúvida, não tinha medo, não tinha futuro. Só tinha a gente.
O beijo foi calmo, profundo, cheio de sentimento. Daqueles que dizem tudo sem precisar de palavra nenhuma.
E ali naquela barraca improvisada
no terraço do Azure com a chuva caindo do lado de fora, uma promessa foi feita sem pensar.
A gente realmente acreditou que nada ia dar errado.
Mas deu.