Capítulo 22

919 Palavras
" Às vezes, a gente não escolhe ir embora… só começa a ficar menos.” O dia seguinte começou estranho. Não teve briga, não teve discussão, não teve nada. E ainda assim tinha tudo. Laura estava ali, mas não estava. Eu estava ali, mas também não. E isso era o pior tipo de distância. — Você vai sair cedo hoje? A voz dela veio da cozinha. Calma, neutra. Como se nada tivesse acontecido. — Vou — respondi, ainda no quarto, terminando de me arrumar. — A gente tem reunião no Azure. Silêncio. — Eu também vou. Aquilo me fez parar. — Vai? — A Keana me colocou na parte de organização dos fornecedores. — Entendi. Foi tudo o que eu consegui dizer, e isso já dizia muito. Saí do quarto e encontrei Laura perto da bancada. Ela já estava pronta. Cabelo preso, rosto sério. Linda, e longe. — A gente pode ir juntas, se quiser — falei, meio sem pensar. Ela levantou os olhos e por um segundo eu vi hesitação. Mas passou rápido. — Eu vou depois. — Tá. Peguei minha bolsa, as chaves. Qualquer coisa que me desse uma desculpa pra não ficar ali mais tempo. — Elena. Parei na porta. — Oi? Laura apoiou as mãos na bancada. — Só… tenta não fugir hoje. Aquilo me atingiu direto. — Eu não tô fugindo. Ela me olhou, e dessa vez, sem suavizar nada. — Tá sim. — Silêncio. — E eu não vou correr atrás. A frase veio baixa, mas firme. Engoli seco. — Eu não quero que você corra atrás. — Então não me deixa pra trás. Aquilo quase me quebrou, mas eu não soube o que responder. De novo. E isso já era resposta suficiente. O caminho até o Azure pareceu mais longo do que o normal, ou talvez fosse só a minha cabeça. Porque dessa vez não tinha música, não tinha distração, só pensamentos. E todos levavam pro mesmo lugar. Quando cheguei, o movimento já estava intenso. Equipe pra todo lado, organização, testes, conversas. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. E mesmo assim eu me senti deslocada. — Finalmente — Ari apareceu do nada, segurando algumas pastas. — Achei que você ia se esconder hoje. — Muito engraçada. Ela me olhou melhor. — Não tô brincando. Suspirei. — Eu sei. — E aí? Pergunta simples, resposta complicada. — Tá estranho. — Óbvio que tá estranho. Revirei os olhos. — Obrigada pela análise profunda. — Disponha. Ela deu um meio sorriso, mas logo ficou séria de novo. — Você falou com ela? — Tentei. — E? Balancei a cabeça. — Ela não tá brigando. — Isso é pior. — Eu sei. Ari respirou fundo. — E você? — Eu o quê? — Tá se afastando. Aquilo me irritou na hora. — Eu não tô me afastando. — Tá sim. Você só ainda não percebeu. Cruzei os braços. — Eu só tô tentando entender tudo. — Enquanto isso… ela tá entendendo sozinha. Silêncio. E aquilo doeu, porque fazia sentido. — Bom dia. A voz veio atrás de mim e meu corpo inteiro reagiu antes mesmo de eu virar. Maya. — Bom dia. Ela se aproximou mais devagar do que o normal. — Você tá diferente hoje. Suspirei. — Todo mundo tá me dizendo isso. — Talvez seja porque tá mesmo. Tá tudo bem? Foi por causa dela? Aquilo me fez levantar o olhar na hora. — Maya... — Eu vi. Meu estômago revirou. — Ontem. Vocês duas… Ela não terminou a frase, mas não precisava. — Não foi nada demais. Maya riu baixo, sem humor. — Você continua péssima mentindo. Desviei o olhar. — Não é da sua conta. A frase saiu mais dura do que eu pretendia. E imediatamente me arrependi. Maya ficou em silêncio por um segundo, mas não recuou. — Talvez não seja. — Ela deu um passo mais perto. — Mas tá afetando o trabalho. De novo isso. Trabalho. Sempre o escudo perfeito. — Eu sei separar as coisas. — Não parece. Aquilo me irritou. — O que você quer, Maya? Ela travou por um segundo, como se não esperasse a pergunta. Ou como se não tivesse uma resposta pronta. — Eu só… — ela começou, mas parou. Respirou fundo. — Eu só não quero que isso vire um problema maior. Silêncio. — Já virou. A frase saiu antes que eu pudesse segurar. E quando percebi, já era tarde. Maya me encarou. — Você ama ela? — Eu... Mas antes que eu pudesse responder… uma voz interrompeu. — Elena. Laura. Atrás de nós. Perfeita, pontual, e com um olhar que dizia tudo. Maya virou devagar. Observando, analisando. — A Keana pediu pra gente revisar os fornecedores — Laura disse calma, mas o olhar dela estava em mim. — Agora. Assenti. — Claro. Silêncio. Maya foi a primeira a quebrar. — A gente continua depois. Caminhei ao lado de Laura, mas parecia que havia quilômetros entre a gente. — Você tá se afastando — ela disse, sem olhar pra mim. — Laura... — Não responde — ela cortou. — Só… percebe. Aquilo me desmontou mais do que qualquer confronto. — Porque eu já percebi. E eu não vou te puxar de volta. Meu peito apertou forte. — Eu só quero ver até onde você vai. E aquilo doeu de um jeito diferente. Mais profundo, mais inevitável. Porque, pela primeira vez eu não estava dividida entre duas pessoas. Eu estava me afastando de uma, enquanto me aproximava de outra. E isso era muito mais perigoso.
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