Capítulo 20

1120 Palavras
“Algumas verdades não machucam porque são ditas… machucam porque demoraram demais para existir.” A porta do apartamento ainda estava aberta, mas ninguém entrou nem saiu. O mundo lá fora continuava, mas ali dentro tudo tinha parado. Laura ainda estava na minha frente. Os braços cruzados, o olhar firme. Esperando não por uma desculpa, mas por uma verdade. E pela primeira vez em muito tempo eu não sabia como dar isso pra alguém sem destruir tudo. — Quem é ela, Elena? A pergunta veio de novo. Mais baixa, mas mais pesada. Respirei fundo. O ar parecia insuficiente. — Laura… Minha voz falhou antes mesmo de começar. — Não faz isso — ela disse, firme. — Não tenta suavizar. Não tenta desviar. Não tenta me proteger. Dei um passo à frente. — Eu não tô tentando... — Tá sim. O corte foi direto. — Você sempre tenta deixar tudo menos pior do que realmente é. Silêncio. E ela estava certa, de novo. — Só que agora — ela continuou — eu não quero “menos pior”. Ela descruzou os braços lentamente. — Eu quero a verdade. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no quarto inteiro. — Ela é… — comecei. Mas parei. Porque dizer aquilo em voz alta tornava tudo real demais. Laura deu um pequeno passo mais perto. — Ela é o quê? Fechei os olhos por um segundo e então parei de fugir. — Ela é alguém do meu passado. Silêncio. — “Alguém”? Laura repetiu, quase em um sussurro. — Ela não é só alguém, né? — Ela foi — respirei fundo — a pessoa mais importante da minha vida. Aquilo mudou tudo. Na hora eu vi nos olhos dela, na forma como o corpo dela enrijeceu, na forma como o ar entre nós ficou ainda mais pesado. — Foi? — Laura perguntou. E aquela pergunta era uma armadilha, porque não era sobre o passado. Era sobre agora. Minha garganta travou. — Laura eu... — Foi? Dessa vez mais firme, mais direta, mais difícil de fugir. E eu não consegui responder. O silêncio respondeu por mim. Laura riu sem humor. — Tá. Ela assentiu olhando pro lado por um segundo como se estivesse organizando alguma coisa dentro dela. Ou tentando não quebrar ali. — Tá… — repetiu, mais baixo. Voltou a me olhar. E dessa vez tinha dor, mas também tinha clareza. — E o que você sente por ela agora? Pergunta simples, resposta impossível. — Eu não sei. Laura soltou o ar devagar. — Não sabe? — Ela deu um passo pra trás. — Você não sabe ou você não quer dizer? Silêncio. E isso já era resposta. — Entendi. — Ela assentiu de leve. — E eu? — Laura… — Não — ela balançou a cabeça. — Responde. O que eu sou pra você? Meu peito apertou de um jeito que quase doeu fisicamente. — Você é importante pra mim. Ela fechou os olhos por um segundo como se aquilo tivesse sido um golpe. — Importante? Eu não quero ser importante, Elena. — A voz dela falhou pela primeira vez, e isso me destruiu. — Eu não quero ser conveniente. Dei um passo à frente. — Você não é. — Então me prova. — Aquilo me travou completamente. — Me prova que eu não sou só a pessoa que apareceu na sua vida quando ela não tava mais lá. Silêncio. Porque no fundo eu não sabia se conseguiria. E ela percebeu. Laura riu de novo. Mas agora mais fraca, mais cansada. — É isso, né? — Ela passou a mão no rosto. — Eu virei o “depois”. Aquilo bateu forte. Forte demais. — Não fala assim— — Mas é isso — ela cortou. — Você foi embora. Se machucou, se perdeu. E aí me encontrou. Eu fui fácil. — Não... — Eu fui segura. — Laura... — Eu fui a escolha que não doía. Silêncio. E dessa vez eu não consegui negar. Porque em algum momento, talvez tivesse sido exatamente isso. E admitir isso me destruía. — Eu te amo, Elena. A frase veio baixa, mas firme. E o mundo parou. Minha respiração travou. — Eu sei — ela continuou. — Eu sei que não foi um namoro “oficial”. Eu sei que a gente nunca colocou nome em nada. Mas não me diz que não foi real. Meu coração apertou. — Foi — respondi na hora. — Foi real. — Então por que parece que eu tô perdendo pra alguém que nem tá mais na sua vida? A pergunta acabou comigo. Porque a resposta era pior do que qualquer coisa. — Porque ela tá — eu disse, quase num sussurro. Laura congelou. — O quê? — Ela tá na minha vida. — Respirei fundo. — De novo. E eu faço parte de uma das equipes do casamento. O casamento dela. Agora não tinha mais volta. Laura desviou o olhar, engoliu seco. — Claro… — A voz dela saiu mais baixa. — Claro que tá. Ela deu mais um passo pra trás criando espaço. — E você… — ela continuou — não sabe o que fazer. Balancei a cabeça, desesperada. — Não é tão simples... — Não, Elena — ela cortou. — É exatamente simples assim. Os olhos dela voltaram pros meus. — Você só não quer aceitar a resposta. O silêncio caiu entre nós. Mas agora não era confuso, era claro demais. Laura respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão. E talvez estivesse mesmo. — Eu não vou competir com o seu passado. — Cada palavra saiu calma, mas definitiva. — Não vou disputar espaço com alguém que claramente ainda mora em você. Meu peito apertou. — Laura, por favor... — Não. Ela balançou a cabeça. — Eu gosto de você demais pra me colocar nesse lugar. Aquilo doeu mais do que qualquer briga, mais do que qualquer grito. Porque ela estava sendo forte. — Eu só precisava saber — ela disse. — E agora eu sei. Eu vou ficar em outro quarto hoje. A gente conversa amanhã. Não era um término, mas também não era mais o que era antes. Ela passou por mim devagar, sem encostar, sem olhar. E pela primeira vez parecia distante de verdade. A porta se fechou e o som ecoou mais do que deveria. Eu fiquei ali, parada, sozinha. Com o peso de duas histórias que nunca souberam existir ao mesmo tempo. E pela primeira vez eu entendi. Não era sobre escolher entre duas pessoas, era sobre encarar quem eu tinha sido e quem eu ainda era. Lá fora a cidade continuava viva, mas dentro de mim alguma coisa tinha começado a quebrar. De verdade.
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