Capítulo 10

1068 Palavras
O som do mar sempre teve um efeito estranho em mim. Calmante para quem observa de fora e ensurdecedor para quem está por dentro. As ondas quebravam com força contra a areia, repetidas, constantes, como se insistissem em apagar qualquer marca deixada ali. O vento batia contra o meu rosto, bagunçando meu cabelo, mas eu não me movia. Eu só… olhava. O Azure estava logo atrás de mim. Imponente, elegante, exatamente como sempre foi. O mesmo lugar onde tantas coisas começaram. E, ironicamente, onde tudo parecia prestes a desmoronar. Cruzei os braços, sentindo o vento gelado percorrer minha pele, enquanto tentava organizar os pensamentos. Inútil. Nada fazia sentido. Não depois de ontem, não depois de hoje de manhã. Elena. Só de pensar no nome, algo dentro de mim se contraía. Seis anos. Seis anos tentando entender, esquecer, seguir em frente… E então ela aparece assim. Como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse acontecido. Soltei um suspiro pesado, fechando os olhos por um instante. Por que agora? Por que aqui? Por que… ainda? Abri os olhos novamente, encarando o horizonte. O mar continuava lá. Indiferente, enorme. Eu levei a mão até o anelar, girando o anel devagar. O brilho discreto refletia a luz do sol. Phillip. Meu noivo. A palavra ainda soava estranha. Não r**m, só… diferente. Ele era tudo o que qualquer pessoa chamaria de certo. Gentil, atencioso, estável. Fácil. Com ele, não havia caos, não havia dúvidas constantes, não havia aquele tipo de intensidade que te consome por inteiro. E talvez fosse exatamente por isso que eu tinha dito sim. Fechei os olhos por um segundo. Porque no fundo eu sabia que tinha escolhido o que era seguro, o que era possível, e não o que me quebrava. Abri os olhos rapidamente, afastando o pensamento. Não. Isso não significava nada. Não podia significar. Passei a mão pelo rosto, respirando fundo. Elena não fazia mais parte da minha vida. Mas então por que parecia que tudo em mim ainda reagia a ela? A forma como meu coração acelerou quando a vi, o jeito que minha respiração falhou por um segundo, a dificuldade absurda de manter qualquer tipo de controle. Aquilo não era normal, não depois de tanto tempo. Engoli seco, desviando o olhar para a areia. Lembranças vieram sem pedir permissão. Rápidas, fragmentadas. O riso dela, o jeito como ela me puxava pela mão, as brigas, as palavras ditas no calor do momento. O silêncio depois. Balancei a cabeça de leve, como se pudesse afastar tudo aquilo. Mas não adiantava, nunca adiantava. — Eu sabia que ia te encontrar aqui. A voz familiar me fez virar o rosto. Naomi vinha na minha direção, com Diana logo atrás, ambas descalças, provavelmente tendo caminhado pela areia. — Vocês me seguem agora? — perguntei, tentando soar leve. — Sempre seguimos — Diana respondeu, dando de ombros. Naomi parou ao meu lado, olhando para o mar. — Você faz essa cara só em dois momentos — ela disse. — Que cara? — A de quando você tá tentando não sentir alguma coisa. Revirei os olhos de leve. — Vocês são dramáticas. — A gente te conhece — Diana rebateu. Silêncio. Elas não insistiram de imediato e isso, de alguma forma, era pior. — Você viu ela hoje — Naomi disse, sem rodeios. Não era uma pergunta. Assenti de leve. — E? — E nada. Diana soltou uma risada curta. — Mentira. — Não é mentira. — Você nunca sabe mentir — ela respondeu. Aquilo me irritou. — Eu não estou mentindo. — Tá evitando — Naomi corrigiu. Fechei os olhos por um segundo. — Eu vou me casar. As palavras saíram mais firmes do que eu me sentia. As duas ficaram em silêncio. — A gente sabe — Diana disse, mais calma. — Então pronto. — Não é “pronto” — Naomi respondeu. Olhei para ela. — Por que não? Ela demorou um segundo para responder. — Porque você não ficou assim nem quando aceitou o pedido de casamento. Aquilo me atingiu direto. — Isso não significa nada. — Significa sim — Diana disse. — Não, não significa. Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Respirei fundo, tentando me controlar. — Ela só… me pegou de surpresa. — Só isso? — Naomi perguntou. Assenti. — Só isso. Silêncio. Mas aquele tipo de silêncio que dizia claramente: ninguém acreditou. Diana cruzou os braços. — Você ainda ama ela? — Não. — respondi rápido demais. As duas trocaram um olhar. — Tá. — Naomi disse. Mas o tom dela não tinha convicção nenhuma. — Eu não amo — repeti, mais devagar. O vento aumentou um pouco, trazendo o cheiro salgado do mar. Eu desviei o olhar porque encarar aquilo era mais difícil. — Então por que você tá aqui? — Diana perguntou. — Porque eu gosto desse lugar. — Não — ela disse. — Por que você veio pra cá hoje? Eu não respondi porque a resposta era óbvia demais. Naomi deu um passo mais perto. — Você não voltou pra esse lugar por anos. Meu peito apertou. — E agora você tá aqui… olhando pro Azure como se tivesse voltado no tempo. Fechei os olhos. — Eu só precisava pensar. — Pensar em quê? Abri os olhos lentamente. O Azure estava ali, intacto e cheio de memórias que eu nunca consegui apagar. — Em como seguir em frente — respondi. Mas, pela primeira vez, aquela frase não parecia mais tão verdadeira assim. O silêncio caiu mais uma vez, mas agora mais pesado, mais honesto, mais difícil de ignorar. Eu levei a mão ao bolso, pegando o celular. A tela acendeu. Por um segundo o nome dela veio à mente. Quase automático. Meu dedo travou. Eu poderia mandar uma mensagem. Uma simples, qualquer coisa. Mas não mandei. Bloqueei a tela e guardei o celular. Respirei fundo. — Eu vou me casar — repeti, mais baixo. Dessa vez como se estivesse tentando convencer a mim mesma. Naomi e Diana não disseram nada, e talvez isso dissesse tudo. Voltei a olhar para o mar. As ondas continuavam quebrando, constantes, como se nada tivesse mudado. Mas eu sabia que tudo tinha mudado, e pela primeira vez em muito tempo eu não fazia ideia do que fazer com isso. — Por que agora, Elena…? As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir. Baixas, quase levadas pelo vento. Mas ainda assim… reais.
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